As mil facetas do opositor Navalny nos tribunais russos

Maxime POPOV, Anna SMOLCHENKO y Thibaut MARCHAND
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Alexei Navalny durante seu julgamento em Moscou, em 2 de fevereiro de 2021

Durante seus julgamentos na Rússia, o opositor número um do Kremlin, Alexei Navalny, aparece como um réu indisciplinado, que encanta seus seguidores e horroriza juízes e promotores, com suas mil facetas de marido amoroso, orador carismático ou prisioneiro político furioso.

No início de fevereiro, quando a Justiça o mandou para a prisão, Navalny encolheu os ombros em sua jaula de vidro e fez um coração com as mãos, dirigido a sua esposa Yulia, presente na audiência.

O gesto foi eficaz. Na mídia independente e estrangeira, nas redes sociais, multiplicaram-se os comentários sobre a "coragem" e o romantismo do adversário.

Navalny, que há anos incomoda o poder com suas investigações anticorrupção contra Vladimir Putin e sua comitiva, mostrou-se um marido modelo aos olhos do mundo, uma vítima corajosa da implacável máquina judiciária russa, e isso apenas alguns meses após um envenenamento que quase lhe custou a vida.

Mas seu lado desafiador também aparece nos tribunais, que o condenaram a quase três anos de prisão. Diante dos juízes, Navalny pronunciou uma verdadeira acusação contra o sistema político e judicial russo, que ele afirma tentar destruir a ele e a seus apoiadores.

Dias antes, milhares de pessoas que protestaram por sua liberdade foram presas após manifestações em várias cidades russas.

"Vocês não podem colocar todos na cadeia!" gritou ele, ignorando a juíza que lhe ordenou que não transformasse a audiência em comício político.

- "Combatente revolucionário" -

"Seu discurso foi semelhante ao de um combatente revolucionário", disse à AFP o cientista político Konstantin Kalashev, para quem o opositor "cuida de sua imagem".

Mas Navalny nem sempre é um adversário apaixonado, às vezes pode ser opressor.

Em um processo por difamação, em 5 de fevereiro, chegou a ofender a juíza Vera Akimova, que ameaçou excluí-lo da audiência. E nesta sexta-feira, na continuação desse julgamento, atacou novamente a mesma juíza.

"Você deveria parar de se cobrir de vergonha, faça cursos para aprimorar seus conhecimentos de direito", disse Navalny à magistrada.

Nesse julgamento, em que Navalny é acusado de ter difamado um combatente veterano de 94 anos, o opositor interrompeu o promotor, multiplicou as exigências, às vezes absurdas, e questionou testemunhas.

Navalny acusa as autoridades de manipular seu acusador, Ignat Artiomenko, e de colocar sua vida em perigo para submeter o opositor a outro julgamento.

"Não vai viver até o fim do processo! Se acontecer alguma coisa com ele, vocês serão os culpados ...", afirmou. "Eles irão para o inferno por terem organizado este baile de máscaras", acrescentou.

Os críticos do opositor aproveitam-se dessas ações para acusá-lo de instabilidade. A chefe da televisão estatal RT, Margarita Simonyan, comentou no Twitter que esse "comportamento só pode ser explicado porque (Navalny) parou de tomar sais de lítio em plena fase bipolar maníaca".

Para Kalashev, o adversário pode ter "ido longe demais com o veterano", mas o essencial para Navalny é conquistar a juventude russa, que só conheceu Putin, aspira a mudanças e só se informa pela internet e não pelos meios de comunicação tradicionais sob controle do Estado.

O opositor já conquistou boa parte do público com seus vídeos espetaculares, seus artigos e suas mensagens no Instagram, cheias de humor e ironia.

Navalny "fala a mesma língua dos jovens", enfatiza Kalashev. "Suas roupas, sua esposa, sua família ... Representa a classe média das cidades, a dos urbanos furiosos".

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