Com mais de um milhão de infectados, coronavírus confina metade da humanidade

Por Alvaro VILLALOBOS con Ana FERNANDEZ en París y las oficinas de la AFP en el mundo
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O novo coronavírus atingiu, nesta quinta-feira, mais de um milhão de pessoas, forçando o confinamento de metade da humanidade e colocando o sistema econômico internacional à prova.

Esse vírus, que surgiu oficialmente em dezembro na cidade chinesa de Wuhan, até agora matou mais de 50.000 pessoas, colapsou sistemas de saúde dos países mais desenvolvidos do planeta e paralisou aeroportos, fábricas e lojas, sem que seja vislumbrado até agora um fim para a crise.

As restrições, imprescindíveis para salvar vidas, ameaçam os mais vulneráveis, seu acesso à comida e os cuidados básicos, adverte a ONU.

Os Estados Unidos, que temem cair em uma depressão econômica como a que sofreu há quase 100 anos, viram a demanda por seguro-desemprego aumentar em até 6,6 milhões na semana passada. Esse número se soma ao de 3,3 milhões de pedidos registrados na semana passada.

Nesta quinta-feira, os EUA registraram o recorde de 1.169 mortes em 24 horas, superando a Itália, que detinha este triste título, com 969 óbitos no dia 27 de abril.

Desde o início da pandemia, o novo coronavírus já matou 5.900 pessoas nos EUA.

Na Espanha, que já superou os 10.000 mortos, o desemprego aumentou, com mais 300.000 pessoas sem trabalho em março, um número histórico.

A principal agência de resposta a desastres dos Estados Unidos pediu ao Pentágono 100.000 sacos para corpos e, na França, a polícia utilizou um armazém no mercado de alimentos no centro de Paris para depositar os caixões dos mortos, devido à falta de espaço.

Segundo projeções da Casa Branca, a COVID-19 deve matar entre 100.000 e 240.000 pessoas nos EUA.

O presidente Donald Trump informou que fez um segundo teste para o coronavírus, nesta quinta-feira, que deu negativo.

No cemitério de São Paulo, os enterros já são "expressos" e os velórios sem abraços, embora o Brasil ainda não seja um país assolado pela "tsunami" do COVID-19, a pior crise planetária desde a Segunda Guerra Mundial, nas palavras do secretário-geral da ONU.

"Aqui enterramos cerca de 45 pessoas por dia, mas na semana passada são 12 a 15 a mais. É muito pior do que vemos nas notícias, isso é sério", disse à AFP um coveiro no cemitério, sob condição de anonimato.

- Humanos em confinamento, mercados febris -

De acordo com a contagem da AFP, com base em dados oficiais, pelo menos 1.000.036 pessoas testaram positivo para COVID-19 na quinta-feira. Desse total, 51.718 terminaram em óbitos em 188 países e territórios.

O Malawi ingressou no clube dos países afetados nesta quinta-feira. A Coreia do Norte insistiu novamente que não detectou nenhum caso, apesar de compartilhar uma fronteira com a China e a Coreia do Sul.

Mais de 3,9 bilhões de pessoas, metade da população mundial, já foram recomendadas ou forçadas a ficar em casa para combater a propagação do vírus. A Europa tem mais da metade das pessoas infectadas em todo o mundo.

A Itália lidera a lista de mortes, com quase 14.000, seguida pela Espanha, que passou dos 10.000, por Estados Unidos, com mais de 5.900, da França, com mais de 5.300 e da China continental, com mais de 3.300.

A França revelou nesta quinta-feira que pelo menos 884 idosos morreram em casas de repouso, em uma contagem parcial.

Não existe vacina para o coronavírus no momento, e só é possível limitar-se, manter distância de outras pessoas e comprometer-se com medidas de higiene mínima, muitas difíceis de serem cumpridas em grande parte do planeta.

O coronavírus também testa a solidariedade entre países. Os líderes regionais franceses acusaram os EUA de terem comprado, em dinheiro, máscaras que estavam prestes a ser transportadas em um aeroporto chinês para o país europeu. Washington descartou as alegações como "completamente falsas".

- Controvérsias e esperanças -

Em meio à ansiedade, os cientistas têm pressa em encontrar paliativos para a pandemia ou a maneira de fazer testes confiáveis e rápidos de controle, uma arma essencial para lutar contra o inimigo invisível.

No mundo, cresce a esperança, e também a controvérsia, sobre o uso de medicamentos antimalária na ausência de uma vacina.

Um deles é a hidroxicloroquina, um medicamento amplamente usado na África há décadas, usado pelo Senegal, além da cloroquina, no tratamento de pacientes com COVID-19.

"Os resultados que temos parecem encorajadores, e continuaremos nessa direção", disse Moussa Seydi, médico responsável pelo tratamento da pandemia.

Outros cientistas alertam que os estudos são muito parciais.

- A China diz a verdade? -

Oficialmente, a China, onde a pandemia se originou, registra cerca de 81.000 infectados e 3.300 mortes, apesar de meios oficiais nos Estados Unidos contestarem esses números.

Nesta quinta-feira, Pequim anunciou o confinamento de um departamento com 600.000 habitantes após a visita de uma pessoa que testou positivo.

O confinamento na área central de Henan não esconde o medo de uma segunda onda de contágios na China e destaca o risco de uma estratégia que impôs quarentenas drásticas para conter as infecções, segundo as autoridades.

- A incógnita do futebol -

No mundo do futebol, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, admitiu nesta quinta-feira que ninguém pode determinar hoje quando as competições, que praticamente cessaram em todo o planeta, poderão ser retomadas.

O GP da França também foi adiado para uma data a ser determinada.

Entretanto, a perda de eventos esportivos no mundo não é nada comparada à dureza imposta aos países mais pobres, onde o confinamento ameaça comunidades inteiras.

Os moradores de favelas da África do Sul dizem que é simplesmente impossível ficar em casa.

"Nós não temos banheiros, não temos água, então precisamos sair", diz Irene Tsetse, 55 anos, que compartilha uma moradia precária de um quarto com o filho.

Na Espanha, Javier Lara, 29 anos, contou sobre sua recuperação à AFP. "Imagine uma pessoa de 29 anos, esportista, que não fuma, que praticamente não vai ao médico, e você se vê na UTI, com oxigênio, sem nenhum membro da família poder entrar para vê-lo".

Na UTI, ele recebeu lopinavir combinado com ritonavir, dois anti-retrovirais usados contra o HIV que servem para reduzir a capacidade do vírus de se reproduzir e atacar o sistema imunológico.

O tratamento funcionou e, 48 horas depois, ele deixou a unidade de terapia intensiva. Ele vive uma vida normal, mas tomando precauções extremas, porque vive com sua companheira e uma menininha de poucas semanas.

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