A vida em suspenso entre os escombros de um ícone da arquitetura moderna

Alba Santandreu.

São Paulo, 3 mai (EFE).- Enquanto dezenas de bombeiros fazem buscas nos escombros do edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, alguns dos moradores seguem na porta de uma igreja dois dias depois de parte das suas vidas ser ferozmente consumida pelas chamas.

O prédio de 24 andares, e antiga sede da Polícia Federal, desabou na madrugada da última terça-feira durante um incêndio e transformou em pedaços os pertences de mais de 400 pessoas de poucos recursos que viviam irregularmente ali.

Depois da tragédia, várias famílias montaram um acampamento a poucos metros de onde aconteceu o desastre à espera de que as autoridades ofereçam um lugar "digno" para viver.

Natali "perdeu tudo", assim como os demais moradores, mas conseguiu "salvar" o mais importante, o filho de três anos. Agora, em meio à incerteza sobre o futuro, aos 19 anos, ela aguarda uma solução na porta da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, transformada em depósito improvisado de doações.

Desempregada, Natali pagava R$ 100 de aluguel para morar no prédio decadente dos anos 60 e que chegou a ser um dos grandes expoentes da arquitetura modernista de São Paulo.

A cidade tem hoje um déficit de 358 mil imóveis, enquanto 830 mil famílias vivem em "assentamentos precários, que necessitam de melhorias", de acordo com dados da Secretária Municipal de Habitação de São Paulo.

A falta de casas e os exorbitantes preços dos imóveis fazem com que milhares de pessoas invadam edifícios e terrenos abandonados em São Paulo, que registra 206 ocupações com 46 mil famílias.

Apenas na região central da cidade, 70 prédios estão habitados irregularmente por quatro mil famílias de poucos recursos que enxergam nas ocupações uma forma de driblar os valores proibitivos dos aluguéis da capital paulista.

No imponente edifício, antes todo envidraçado e agora apenas pó, viviam mais de 150 famílias, entre elas a de Jussara, de 16 anos, que dormia em um quarto com os sobrinhos, a irmã e o cunhado.

De acordo com a adolescente, o fogo queimou todos seus pertences, incluindo os livros da escola. Agora, ela divide um colchão na rua com o resto da família, que se negou a ir para um albergue municipal para pressionar a prefeitura a conseguir uma nova moradia.

Aglomerados na praça, os ex-moradores do Wilton Paes de Almeida convivem com dezenas de jornalistas e moradores de rua, enquanto as doações vão se juntando na porta da igreja e algumas pessoas denunciam o roubo de alguns poucos objetos.

"Estão pegando fraldas e revendendo, por exemplo", contou uma das desabrigadas.

Em meio à confusão, o padre Reni Nogueira dos Santos, da Igreja dos Homens Pretos, recomendou que os líderes da antiga ocupação coloquem pressão nas autoridades para conseguirem um "lugar para ficar" porque os "albergues não têm estrutura".

"Os albergues misturam uma senhora com três filhos com alguém que está tentando largar o vício do álcool", exemplificou o padre, enquanto os bombeiros prosseguem com a retirada manual dos escombros.

Para o padre Reni, encarregado de organizar as doações na igreja, os sobreviventes da tragédia carregam o sofrimento, mas mantêm a "esperança", refletida nas palavras de uma mãe que também perdeu tudo: "Salvamos apenas as nossas vidas, graças a Deus". EFE