Milhares de arquivos secretos do ditador Pinochet são revelados

Foto de arquivo da APSANTIAGO - A polícia secreta do general Augusto Pinochet liderou uma rede de espionagem dentro e fora do Chile, que cruzava informação com o Vaticano, o FBI, e com outras ditaduras da América Latina. Catalogados e guardados por décadas como confidenciais, os arquivos indicam que os corpos de repressão do Chile, primeiro a Direção de Inteligência Nacional (DINA) e logo a Central Nacional de Informações (CNI), mantinham uma troca de correspondência quase diária com ministros e outras autoridades, para coordenar operações em todo o mundo. As operações detalhadas na documentação, revelam ainda a perseguição a centenas de correspondentes dentro e fora do Chile, como Pierre Kalfon, do jornal francês "Le Monde", e James Pringle, da revista americana "NewsWeek".

Os arquivos secretos revelam ainda o esforço contínuo da ditadura em desacreditar a seus opositores e ganhar aliados, operação que envolveu o atual deputado da Renovação Nacional Alberto Cardemil, correligionário do presidente Sebastián Piñera. Cardemil, que era ex- vice-ministro do Interior, enviou arquivos secretos sobre a ONG "Vicariato da Solidariedade" afim de lançar um amplo programa para desacreditar a instituição defensora dos direitos humanos.

Artistas, como o escritor Ariel Dorfman também são investigados. As equipes de inteligência enviam ao governo detalhes inclusive de debates em centros de estudo, o que chamam de "ativismo intelectual". Os textos mostram ainda diálogos com o Vaticano, para neutralizar setores da Igreja que criticavam as violações dos direitos humanos, liderados pelo cardeal Raúl Silva Henríquez.

Segundo os arquivos, o diretor da DINA, o coronel Manuel Contreras - hoje preso e cumprindo dezenas de condenações - tinha poder para investigar até os funcionários públicos, como mostra uma circular de 1975.

"Sua excelência (Pinochet) declara que, a partir desta data, nenhum funcionário público poderá ser contratado sem que previamente se inclua a seus antecedentes um informe da DINA sobre as atividades que ele possa ter realizado, informava o ministro do Interior da época, o general Raúl Benavides.

Em 1976, os poderes da DINA foram ampliados. O órgão repressor passou a investigar qualquer funcionário. Seu diretor poderia inclusive dar ordens a ministros, como revela o Plano de Operações Épsilon. A iniciativa foi planejada em junho de 1975 por Contreras, diante da vista da Comissão Interamericana de Direitos Humanos ao país. A estratégia, divulgada em 11 páginas distribuídas a ministros e chefes de serviços da ditadura, tinha como missão "realizar uma campanha de ação psicológica aberta e clandestina" para neutralizar no mundo as denúncias por violações aos direitos humanos.

A coordenação entre a polícia secreta e os ministros continuaram inclusive depois da dissolução do órgão, em 1978. A CNI, que substitui a DINA, impulsiona desde sua criação as operações na Bolívia, Argentina e Brasil, por meio das embaixadas chilenas que enviavam informes periódicos sobre a atividade dos exilados, os meios de comunicação e os organismos humanitários.

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