Milhares de australianos denunciam o 'Dia da Invasão' colonial, apesar do coronavírus

Andrew LEESON
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Milhares de pessoas desafiaram as restrições contra o coronavírus nas maiores cidades da Austrália para protestar contra o Dia Nacional que consideram o "Dia da Invasão"

Milhares de australianos desafiaram as restrições impostas contra o coronavírus nesta terça-feira (26) e foram às ruas protestar contra o feriado nacional, que comemora a chegada dos primeiros colonos britânicos em 1788, uma celebração que a população indígena considera um insulto.

Para muitos australianos, o Dia da Austrália, celebrado em 26 de janeiro, representa o início da opressão dos povos originários e exigem uma reflexão sobre este feriado nacional que consideram como o "Dia da Invasão".

Milhares de pessoas se reuniram em um parque do centro de Sydney, apesar das ameaças de multas e prisão pela polícia ao superar o máximo de 500 pessoas permitido em tempos de pandemia.

As associações que organizam tradicionalmente este protesto todo ano cancelaram a marcha.

A polícia anunciou que cinco pessoas foram detidas, entre elas uma acusada de agredir um policial.

As autoridades rejeitaram fazer uma exceção para a manifestação, apesar de não haver registras de novos casos de covid-19 na maior cidade da Austrália há mais de uma semana.

"A soberania nunca cedeu" e "Sem justiça não há paz" estampavam alguns cartazes, enquanto outros diziam "Não é uma data para comemorar" e "Vidas negras importam".

"Para nós, representa um genocídio cultural. Nossas famílias foram separadas. Anos e anos de doenças e fome. O impacto intergeracional ainda é sentido", declarou à AFP Dylan Booth, de uma etnia de Nova Gales do Sul.

- "Terra roubada" -

Milhares de pessoas também participaram em protestos em outras grandes cidades do país, e os organizadores pediram o uso de máscaras e o distanciamento físico na medida do possível.

Em Melbourne, 10.000 pessoas participaram de uma grande manifestação, avançando em grupos de cem para respeitar as restrições.

Algumas balançavam bandeiras dos povos nativos. "Não existe orgulho algum em cometer um genocídio", "Estão em terra roubada", diziam algumas das faixas erguidas pelos manifestantes.

O Dia da Austrália, estabelecido formalmente como feriado em 1994, levantou intensos debates nos últimos anos.

Presentes na Austrália desde ao menos 40.000 anos, os povos originários, cujo número era estimado em um milhão quando os colonos chegaram em 1788, representam atualmente apenas 3% dos 25 milhões de australianos.

Eles são, de longe, a população mais desfavorecida do país com taxas de pobreza e encarceramento mais elevadas. Sua situação de saúde é ainda pior.

O governo conservador e comentaristas de direita defendem a celebração do 26 de janeiro.

O primeiro-ministro Scott Morrison, que no início da semana repreendeu a equipe de críquete da Austrália por abandonar seu nome na propaganda dos encontros de 26 janeiro, disse que a história "mudou para sempre" em 1788 e não há "escapatória, nem se pode apagar os fatos".

"Bem ou mal, foi o momento em que começou a viagem da Austrália moderna", disse em uma cerimônia oficial em Canberra.

"E é a continuação desta viagem australiana o que comemoramos hoje", acrescentou.

A campanha para mudar a data do feriado, ou até mesmo eliminá-lo, não tem consenso. Segundo uma pesquisa realizada pelos jornais do grupo Fairfax com cerca de mil pessoas, 48% dos australianos são contra qualquer alteração, contra 28% que apoia a ideia.

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