Milhares de bolivianos vão aos cemitérios lembrar seus mortos em plena pandemia

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Homem faz oferenda na tumba de familiar no cemitério Mercedario em El Alto, Bolívia, 2 de novembro de 2020
Homem faz oferenda na tumba de familiar no cemitério Mercedario em El Alto, Bolívia, 2 de novembro de 2020

Com comida e música do agrado dos parentes falecidos, milhares de bolivianos foram nesta segunda-feira (2) aos cemitérios celebrar o tradicional "Dia dos Defuntos", embora a data tenha sido marcada por medidas preventivas para evitar os contágios pela covid-19. 

Os cemitérios de todas as cidades do país receberam os parentes na também chamada "Festa de Todos os Santos", na qual se acredita que os mortos voltam por 24 horas do além para se encontrar com seus entes queridos.

A crença de origem popular diz que quem deixou esta vida retorna todo 1º de novembro e permanece até um dia depois entre os seus.

Por isso, no segundo dia do mês, as pessoas vão aos cemitérios de todo o país, onde compartilham da comida e da bebida de que seus familiares mais gostavam. Alguns até mesmo ouvem música perto dos túmulos.

Nos principais cemitérios municipais de La Paz e da vizinha El Alto, em Cochabamba (centro) e Santa Cruz (leste), os governos locais tomaram medidas de biossegurança contra a pandemia, que deixou mais de 8.700 mortos e 141.800 contagiados na Bolívia, um país de 11 milhões de habitantes.

No acesso aos cemitérios, exigia-se o uso de máscaras e se sugeria que os visitantes entrassem sem crianças pequenas.

"Deslocamos pessoal de segurança para evitar o consumo de bebidas alcoólicas e para controlar as pessoas que as pessoas não tirem as máscaras", explicou Wendy Sosa, secretária de Segurança da prefeitura de La Paz.

Na cidade de El Alto, parentes lembraram dos 10 civis mortos na região de Senkata, durante enfrentamentos com forças policiais e militares em novembro de 2019, após a renúncia de Evo Morales após 14 anos no poder.

"É doloroso lembrar e perder uma pessoa, mais ainda da forma como nós a perdemos", disse María Cristina Quispe, de 22 anos, companheira de Juan José Tenorio, morto nestes incidentes.

Em sua casa, em cima de uma mesa, colocaram uma foto sua, com pão e refrigerante ao redor, junto de uma vela acesa.

María Condori é mãe de Cristian, também morto em Senkata. "Ele está aqui, eu sei que está escutando tudo o que estou dizendo", disse em sua casa.

No cemitério Mercedario, em um bairro de El Alto, milhares de pessoas foram se despedir de seus entes queridos.

As pessoas comiam ao redor dos túmulos e compartilhavam um momento de encontro familiar. Não houve controle municipal e as pessoas circulavam pelo local sem máscaras.

O costume religioso tem origens pré-colombianas e, como o passar do tempo, resultou do sincretismo indígena e católico. 

Os aimaras têm uma ideia do céu, da terra e do inferno similar à da religião cristã, predominante no país. Eles acreditam no 'alaxpacha' (mundo superior), no 'acapacha' (terreno) e no 'manqhapacha' (submundo ou obscuro). E nestes dias, as almas transitam do 'alaxpacha' para o 'acapacha'.

jac/gma/mvv