Milhares de refugiados ameaçados de expulsão de suas casas na Grécia

Por Marina RAFENBERG
O governo grego considera que essa política é necessária para que os mais de 32.500 solicitantes de refúgio que vivem em condições precárias nos campos de refugiados nas ilhas do norte do mar Egeu possam se beneficiar dos abrigos

"Como o governo grego pode nos deixar na rua?" Mais de 11.000 refugiados serão expulsos a partir desta segunda-feira (01) dos abrigos sociais que lhes haviam sido atribuídos em toda a Grécia, segundo o Ministério das Migrações.

Uma expulsão prevista desde abril, mas que "foi prorrogada até final de maio devido à pandemia de COVID-19", declarou o ministro das Migrações, Notis Mitarachi.

A nova legislação, votada em novembro, reduz de seis a um mês o período em que os refugiados que obtiveram abrigo podem permanecer nestes apartamentos.

"Há 10 anos, estamos lutando para sobreviver (...) Agora que nossa situação havia estabilizado, nos pedem novamente para começar do zero", conta à AFP Abdelkader Rahmoun.

Este sírio de 44 anos, sua mulher e seus dois filhos deverão abandonar no final de junho a casa que a ONG Nostos lhes atribuiu em Pireo, no porto de Atenas, em meio ao programa de alojamento ESTIA administrado pela Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) e financiado pela Comissão Europeia.

"Também vão cortar nosso auxílio financeiro de 400 euros por mês. Se nos expulsarem, podemos ir para as ruas", disse.

- "Ceder seu lugar" -

O governo grego considera, no entanto, que essa política é necessária para que os mais de 32.500 solicitantes de refúgio que vivem em condições precárias nos campos de refugiados nas ilhas do norte do mar Egeu possam se beneficiar dos abrigos.

"É normal que aqueles que estão na Grécia há muito tempo cedam seu lugar. É preciso colocar um limite e que os refugiados se integrem e encontrem um trabalho", declarou à AFP Manos Logothetis, secretário do serviço de refúgio grego.

No entanto, para o porta-voz da ACNUR na Grécia, Boris Cheshirkov, essa decisão é preocupante. "Os refugiados terão que deixar essa forma de auxílio sem um acesso eficaz aos serviços sociais gregos. Na teoria, têm direito à ajuda mas, na prática, para os que não falam o idioma, passar pela burocracia grega pode ser extremamente difícil".

O governo grego afirma que os refugiados podem se inscrever no programa HELIOS, criado pela Organização Internacional para as Migrações (OIM), que lhes permite fazer cursos de grego e se beneficiar de ajuda para o alojamento.

Mas este programa está pouco adaptado, destaca Eva Giannakaki, responsável pelas questões de refúgio para a ONG Solidarity Now.

"Os refugiados devem encontrar um lar por conta própria, mas se deparam com atitudes xenófobas dos proprietários, trâmites administrativos pouco compreensíveis ou falta de apartamentos baratos".