Milicianos em Inhaúma cobram taxa extra de comerciantes para o 13º salário de seus 'soldados'

Gustavo Goulart
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Terra originalmente ocupada pelos índios Tamoios e cujo nome remonta a uma ave de cor preta com um chifre pontiagudo na cabeça, o bairro de Inhaúma, na Zona Norte do Rio, está bem diferente de sua importância histórica. Isso tem a ver com a violência que se alastrou pelo bairro e arredores. Não bastasse o achaque feito por milicianos a comerciantes, ao cobrarem taxas mensais de segurança que podem chegar a R$ 100, os trabalhadores, agora, têm sido obrigados a pagar um extra para cobrir o 13º salário dos "soldados" desse grupo paramilitar, designados a fazer as "visitas" aos comerciantes.

— É impressionante! Estamos numa crise enorme, com vendas reduzidas. Tem gente fechando seus negócios, principalmente por causa dessas cobranças criminosas. Muitos pequenos comerciantes não estão suportando isso e já fecharam as portas. Eles chegaram no início fazendo perguntas para avaliar quanto os comerciantes lucravam por dia para fazer a cobrança. E agora vem essa taxa extra. É um absurdo! — desabafou um comerciante de uma rua famosa do bairro.

Outro comerciante, que sofre com os abusos e cobranças, disse que a ideia dos milicianos é cobrar mais de quem ganha mais.

— Isso não tem lógica no meio dessa pandemia. Os comerciantes estão passando por dificuldades por causa da redução das vendas. Tem gente que nem consegue repor os estoques. E muita gente é comerciante caseiro que não consegue sobreviver com a cobrança dessas taxas e fecha seus negócios. Precisamos de ajuda — pediu.

Sobre as denúncias, a Polícia Civil divulgou nota informando que vai investigar o caso. Disse ainda que 13 candidatos a vereador e um a prefeito estão sendo monitorados pela suposta ligação com esses grupos criminosos. Quatro já prestaram depoimento, de acordo com a corporação.

"A Polícia Civil vai levantar as informações com as delegacias de Inhaúma. A corporação afirma que "em menos de um mês foram realizados diversos serviços de inteligência, investigação e ação, resultando em operações complexas contra as milícias". De acordo com a polícia, o planejamento deu resultado como o fechamento de comércios, centrais de gatonet e de distribuidoras ilegais de gás, prisões, apreensões de fuzis, pistolas e veículos, mortes de milicianos em confronto, entre outros", disse o comunidado da Civil.

Já a Polícia Militar disse, por nota, que esses "grupos criminosos possuem peculiaridades de atuação que dificultam a identificação dos atos ilícitos em flagrante". A corporação afirma que boa parte de sua atuação é pautada por uma articulação que envolve crimes análogos, de aporte financeiro, extorsão e exploração de serviços de maneira arbitrária. Tais condutas são desencadeadas sempre diante da oportunidade e de maneira velada, tornando assim as atividades obscuras e de difícil intervenção imediata", comentou.

A corporação ainda pediu a ajuda da população para denunciar as irregularidades e registrar ocorrências na delegacia para, assim, detectarem os envolvidos.

"Ainda assim, diante do reenquadramento estratégico constante das equipes em suas áreas de atuação, sempre atrelado às análises das manchas criminais locais, a Polícia Militar segue combatendo a atuação destes grupos, realizando prisões e apreendendo armas em posse de seus integrantes. É importante ressaltar que a participação da população é determinante para o combate a essa modalidade criminosa. É através dos dados recebidos por denúncias diversas, assim como pelos registros feitos em delegacias, que os trabalhos investigativos podem culminar com a identificação e a detecção do paradeiro dos envolvidos, assim como, junto à Justiça, com a expedição de mandados de prisão direcionados aos referidos", concluiu.