Militares ameaçam atirar em manifestantes para conter protestos em Mianmar

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma semana depois de dar um golpe de Estado contra o governo civil, os militares de Mianmar ameaçaram atirar em manifestantes caso não cessem ou não se dispersem os crescentes atos de resistência contra a tomada de poder no país. A ameaça remete ao violento histórico de repressão contra protestos organizados por opositores --mais de 3.000 manifestantes desarmados morreram durante a revolta de 1988. No entanto, o general Min Aung Hlaing, chefe das Forças Armadas que agora governa o país, voltou a prometer uma transição pacífica de poder assim que forem realizadas "eleições justas e livres". Segundo o general, que já havia tentado usar supostas acusações de fraude no pleito como justificativa para o golpe, a junta militar formará uma "democracia verdadeira e disciplinada". Nesta segunda-feira (8), ele acrescentou à narrativa o argumento de que a comissão eleitoral do país usou a pandemia de coronavírus como pretexto para impedir a realização de uma campanha justa. Até agora, os mianmarenses vinham se organizando em campanhas de desobediência civil, marcadas por atos menores e por greves de profissionais de saúde, professores e funcionários do governo pré-golpe. Durante o último final de semana, porém, o movimento de resistência ganhou força e levou dezenas de milhares de pessoas às ruas das principais cidades do país para exigir a volta da democracia e a libertação dos presos políticos. Uma das principais demandas é a liberdade de Aung San Suu Kyi, conselheira de Estado que, na prática, governava o país. Ela foi detida sob uma acusação obscura de violação de normas comerciais --ela teria importado ilegalmente seis walkie-talkies--, ao menos 150 líderes políticos foram presos, de acordo com a Associação de Assistência aos Presos Políticos. Em Naypyitaw, capital de Mianmar, três fileiras de agentes das tropas de choque se posicionaram diante de um aviso segundo o qual usariam munição real caso os manifestantes continuassem avançando. Os participantes dos protestos entoaram palavras de ordem e gritaram aos policiais dizendo que eles deveriam servir ao povo, não aos militares. Vários deles foram atingidos por canhões de água disparados pelas forças de segurança para dispersar os atos. Outros milhares marcharam em Dawei e Kachin. Os atos nessas cidades têm um peso simbólico porque grande parte da população dessas regiões é formada por grupos étnicos minoritários, muitos dos quais são críticos ao governo de Suu Kyi mas, neste momento, opõem-se ao golpe militar. Um grupo de monges com túnicas cor de açafrão também marchou em Rangoon, a maior cidade do país. Os monges têm um histórico de mobilização da ação comunitária em Mianmar, cuja população é predominantemente budista. Em 2007, a chamada "Revolução do Açafrão" liderada pelos monges foi um dos fatores que contribuiu para a retirada gradual dos militares da política mianmarense, após décadas de repressão do regime iniciado em 1962 e encerrado em 2011. Nesta segunda, os monges hastearam bandeiras budistas multicoloridas ao lado de bandeiras vermelhas, a cor da Liga Nacional pela Democracia (LND), partido de Suu Kyi que obteve vitória esmagadora contra a legenda apoiada pelos militares na eleição de novembro e que declarou apoio formal à campanha de desobediência civil. Nos cartazes dos manifestantes, liam-se frases como "libertem nossos líderes", "respeitem nossos votos", "rejeitem o golpe militar". A mídia estatal referiu-se aos participantes dos protestos como "transgressores fora da lei". "Nós, todas as pessoas que valorizam a justiça, a liberdade, a igualdade, a paz e a segurança, não apenas nos recusamos a aceitar os transgressores fora da lei, mas também pedimos que eles sejam impedidos e removidos através da cooperação", afirmou a emissora MRTV. Embora a declaração não tenha sido atribuída a alguma autoridade ou grupo específico, o mesmo texto foi lido mais tarde em uma emissora de propriedade dos militares. A democracia em Mianmar ainda era algo novo. O país, que já foi chamado de Birmânia, conquistou a independência do Reino Unido em 1948. A LND, que comanda o país desde 2015, obteve 83% dos votos e conquistou 396 dos 476 assentos no Parlamento de Mianmar no pleito de novembro, mas foi impedida de assumir quando o golpe foi aplicado no dia da posse da nova legislatura. O Partido da União Solidária e Desenvolvimento, apoiado pelos militares, obteve apenas 33 cadeiras. O novo regime diz que o poder será transferido após a "realização de eleições livres e justas", mas a promessa é encarada com ceticismo, devido às lembranças ainda bastante recentes das décadas vividas sob a ditadura militar. O golpe recebeu duras críticas da comunidade internacional. Líderes políticos de diversas nacionalidades pediram o restabelecimento do governo democraticamente eleito e a libertação de todos os presos civis. Neste domingo (7), o papa Francisco expressou solidariedade ao povo mianmarense e pediu aos líderes do país que busquem "harmonia democrática". O governo dos Estados Unidos determinou na semana passada que considera a tomada de poder em Mianmar um golpe de Estado, o que, na prática, implica em restrições à assistência que os americanos oferecem ao país. Os EUA também estudam sanções contra indivíduos e entidades controladas pelos militares. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, por sua vez, não mencionou golpe militar ou presos políticos em uma nota divulgada sobre o assunto.