Militares criticam fala de Lula e veem dificuldade para 2022

IGOR GIELOW
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O discurso de volta ao palco político de Luiz Inácio Lula da Silva foi acompanhado com atenção por uma categoria em particular: os militares. Tanto entre oficiais da ativa quanto da reserva, as queixas foram várias, antevendo o que chamam de dificuldades para 2022. A principal foi a crítica direta feita por Lula ao general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército (2014-2019) que em abril de 2018 pressionou o Supremo Tribunal Federal a não conceder um habeas corpus que evitaria a prisão do petista. O ex-presidente afirmou que exoneraria o general caso o episódio tivesse ocorrido em seu governo -o inquilino do Palácio da Alvorada era Michel Temer (MDB). E deu um recado: política é assunto de civis, não de fardados. Especialmente entre oficiais-generais do Exército, Villas Bôas é considerado um ícone. E ele está com a comunicação precária, devido à doença degenerativa que lhe tirou movimentos e voz. Logo, na visão de militares ouvidos, estaria incapacitado de debater com Lula. O famoso tuíte do general, às vésperas do julgamento no Supremo Tribunal Federal do habeas corpus, foi revisitado por obra do próprio ex-comandante, em livro-depoimento lançado no mês passado. Ao envolver todo o Alto-Comando na confecção da nota, colocou três ministros de Jair Bolsonaro e o atual comandante da Força, Edson Pujol, na confusão -ao menos um ministro, Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), negou ter participado da discussão. Ao separar quartel de ministério e palácio, Lula ecoa de toda forma a vontade de Pujol e dos comandantes da Marinha e da Aeronáutica de tentar desvincular-se do governo Bolsonaro, com o qual a classe militar é identificada -a começar pelo presidente, capitão reformado do que chama de "meu Exército". Mas um almirante notou que, se isso soa sensato àqueles que não concordam com a adesão em massa de oficias-generais à administração atual, cutucar Villas Bôas reforçou a ojeriza usual que as Forças Armadas nutrem em relação a Lula e ao PT. Ela foi explanada didaticamente por Villas Bôas em seu depoimento, no qual faz um paralelo entre o crescente antipetismo nas Forças com a ascensão de Bolsonaro, culminando na formação do governo. Assim, a volta de Lula ao jogo de 2022, caso sejam mantidos seus direitos políticos até lá, é vista como um potencial problema para os militares -as Forças são órgãos de Estado, mas estarão colocadas no debate como parte de um dos lados da disputa. Um coronel da Força Aérea considera que será um paradoxo incontornável para os fardados. Para ele e oficiais de graduação superior ouvidos, haverá dificuldades claras de diálogo caso Lula de fato seja candidato e tenha chances de ganhar. Como colocou um desses fardados, como seria uma transição após o esgarçamento da relação com o petismo? O próprio Lula acenou com uma de seus truques de salão, ao dizer que em seu governo houve prioridade com o gasto militar. De fato, o maior acordo bélico da história brasileira, com a França em 2009, foi assinado por ele. Mas os militares não distinguem Lula de Dilma Rousseff (PT), a quem nutrem verdadeiro horror por ter patrocinado a Comissão da Verdade, que veem como instrumento revanchista. Também, na média, não há dissociação entre o ex-presidente e toda cornucópia de corrupção revelada pela Operação Lava Jato. Entre fardados, mesmo após o racha com Bolsonaro, o ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro é visto com grande estima. Lula também foi duro com a opinião do Clube Militar, que criticou a decisão do ministro Edson Fachin que devolveu os direitos políticos de Lula, chamando o ex-presidente de ladrão. Desprezou a opinião do presidente do órgão, general Eduardo José Barbosa. A temperatura agora deve baixar, exceto que Bolsonaro tome para si as dores fardadas. Na ativa, a lei do silêncio decorrente do episódio do tuíte de 2018 segue, por ora, valendo.