Militares da ativa fizeram mais de 3,4 mil tuítes sobre política em dois anos

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Maior parte dos tuítes escritos por militares ligados a Eduardo Villas Bôas era favorável ao presidente Jair Bolsonaro (Foto: Getty Images)
Maior parte dos tuítes escritos por militares ligados a Eduardo Villas Bôas era favorável ao presidente Jair Bolsonaro (Foto: Getty Images)
  • 115 militares escreveram 3,4 mil tuítes com conteúdo político-partidário entre abril de 2018 e abril de 2020

  • Maior parte dos tuítes eram a favor do presidente Jair Bolsonaro

  • Exército, Marinha e Aeronáutica afirmam que já puniram membros das Forças Armadas por descumprirem cartilha das redes sociais

Desde abril de 2018, mesmo antes do início oficial da campanha eleitoral, até abril de 2020, 115 militares da ativa escreveram 3.427 tuítes com conteúdo político-partidário. O levantamento foi feito pelo Estadão, considerando militares ligados ao ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas.

Segundo o levantamento, foram analisadas contas de 82 integrantes das Forças Armadas ao longo de dois anos. Entre eles, 22 oficiais-generais.

No dia do primeiro turno da eleição de 2018, por exemplo, o coronel Ricardo declarou voto no atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido): “É dia de mudar o Brasil. Vote consciente. Brasil acima de tudo! Deus acima de tudo”.

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De acordo com o Estadão, a maior parte dos tuítes feitos pelos militares é de apoio ao governo, mas há exceções. Um militar criticou o caso das “rachadinhas”, envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, suspeito de um esquema criminoso quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro.

Houve ainda um general que homenageou o ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro após a saída do Ministério da Justiça e Segurança Pública: “A minha melhor continência a esse patriota”, escreveu.

O que diz o Ministério da Defesa

Ao Estadão, o Ministério da Defesa alega que Marinha, Exército e Aeronáutica têm “manuais e cartilhas que normatizam e orientam adequadamente a conduta e o uso de mídias sociais por parte dos militares”.

Caso as regras sejam violadas, os militares da ativa podem ser punidas. Por meio da Lei de Acesso à Informação, o jornal recebeu respostas das três instituições que formam as Forças Armadas:

O Exército afirma que já teve de punir integrantes, mas não disse quantos casos registrou.

Já a Aeronáutica revelou que já registrou 17 procedimentos para apurar “suposta transgressão por ‘mau uso’ de redes sociais, dos quais dez praças foram punidos disciplinarmente”. Entre os casos, seis foram em 2019 e outros quatro em 2020.

A Marinha afirmou ao Estadão que, em 2019, determinou 17 punições a 17 militares pela forma como usaram as redes sociais. Em 2020, foram 20 punições.

O general Edson Leal Pujol, ex-comandante do Exército, criou uma portaria em 2019 para controlar o problema das redes sociais. Ele proibiu a vinculação de contas de militar com perfis institucionais, a não ser que fossem integrantes do Alto Comando.

Segundo o Estadão, dezenas de perfis de militares que costumavam fazer postagens políticas apagaram os tuítes. O Exército acredita que, atualmente, o problema está sob controle.

Tuíte contra o STF

Marcelo Camargo/Agência Brasil
General Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do ex-Exército e ex-ministro da Defesa (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Ex-comandante do Exército e ex-ministro da Defesa, Villas Bôas, foi um dos que expressou opiniões político-partidárias na rede social. Dias antes o julgamento do ex-presidente Lula, ele fez uma postagem no Twitter, pressionando o Supremo Tribunal Federal: “Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?”.

“Asseguro à nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”, continuava o general.

Recentemente, com o lançamento de um livro de Villas Bôas, o ex-comandante do Exército revelou que o texto foi debatido com o Alto Comando das Forças Armadas.