Militares dizem não ter visto músico morto dentro de carro fuzilado

Rafael Soares
A sala de audiências da Justiça Militar

Em depoimento à Justiça Militar, os militares acusados dos homicídios do músico Evaldo Rosa e do catador Luciano Macedo, em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, negaram ter visto Evaldo dentro do carro fuzilado. Ontem, seis dos 12 militares foram ouvidos pelo Conselho de Justiça — formado por uma juíza federal e seis juízes militares. Em seus relatos, os militares também chegaram a afirmar que os protestos de parentes do músico após o crime eram uma “artimanha do tráfico”.

“Não tinha ninguém dentro do carro quando ele estava parado”, disse o soldado Gabriel Honorato, que admitiu ter feito disparos com um fuzil calibre 7,62 em direção ao catador Luciano. “Ele estava armado e atacou a patrulha”, acusou o militar.

O tenente Ítalo Nunes, comandante da patrulha, quando perguntado sobre a presença de parentes de Evaldo na cena do crime, afirmou que “o tráfico manda a população da favela descer”. “Eu me desliguei do que aquelas pessoas falavam porque aquilo é uma artimanha do tráfico”, disse. A mesma versão foi citada pelo cabo Leonardo Oliveira: “Nessa hora, sempre aparece parente. Às vezes, aparecem umas cinco mães”.

Dos seis militares ouvidos, quatro admitiram que fizeram disparos naquela tarde com fuzis. Nenhum deles disse ter atirado com pistolas. Todos eles negaram ter atirado contra o músico e sua família e afirmaram que reagiram a um assalto.

Os militares acusaram Luciano, o catador que foi baleado pelos militares e morreu na semana seguinte, de portar uma arma e atirar contra a patrulha. Eles também alegam ter visto Luciano armado assaltando um carro minutos antes.

Não foi encontrada nenhuma arma com o catador naquela tarde. Alguns dos militares insinuaram que a mulher de Luciano, Daiane Horrara, que estava grávida e assistiu toda a cena, teria escondido a arma. “A mulher foi para perto dele e depois saiu, foi para a comunidade”, disse o sargento Fábio Henrique Souza Braz.

“Pelo vídeo (que mostra o catador ferido) dá pra ver ela pegando um material no chão perto dele”, afirmou o tenente Nunes, que também alegou que não acreditava que “Luciano era realmente catador”.

No total, os 12 militares acusados dos crimes fizeram 257 disparos de fuzil e pistola naquele dia. O carro do músico foi perfurado por 62 tiros. O tenente, que comandava a tropa, foi responsável pela maior quantidade de disparos, 77.

Neste domingo, o EXTRA revelou o conteúdo de um laudo elaborado pelo Exército que revela o rastro de destruição deixado pelos militares na cena dos crime. Em cerca de 200 metros da Estada do Camboatá, peritos militares encontraram 37 marcas de disparos de armas de fogo em muros, carros, grades e paredes de prédios.