Militares ignoram regra, falam de política e mostram alinhamento a Bolsonaro nas redes

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Foto: REUTERS/Marco Bello
Foto: REUTERS/Marco Bello
  • Militares intensificam posicionamento político em seus perfis pessoais nas redes sociais

  • Apoiadores de Bolsonaro, oficiais também criticam STF e PT com frequência

  • Há também militares do Exército que usam suas contas para compartilhar postagens de deputados bolsonaristas

Apesar de os regulamentos disciplinares de Exército, Marinha e Aeronáutica classificarem como transgressões manifestações político-partidárias de integrantes da ativa, perfis de militares em redes sociais demonstram engajamento ideológico, seja por meio de publicações próprias, curtidas ou compartilhamentos. O GLOBO encontrou exemplos em que as interações indicam alinhamento ao presidente Jair Bolsonaro e parlamentares próximos ao governo, além de críticas ao PT e ao Supremo Tribunal Federal (STF).

No caso do Exército, além da norma geral, há um manual direcionado para as redes sociais. O texto diz que a criação de perfis pessoais é de livre arbítrio, desde que a conduta siga as regras disciplinares, que classificam como transgressão “manifestar-se, publicamente (...) a respeito de assuntos de natureza político-partidária”.

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Entre os nomes identificados, um dos mais atuantes é o subtenente Angelo Giovani Martins Carvalho, que se apresenta como militar do Exército. Em dezenas de postagens, ele anuncia o voto em Bolsonaro e faz críticas à esquerda e a dissidentes do bolsonarismo.

Em 2 de julho, por exemplo, ironizou um vídeo em que a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), que se afastou do presidente, comemora ter se vacinado contra a Covid-19: “Que teatro pra uma “picadinha” (...) Toma vergonha na cara!!!”.

Outro perfil é o do major do Exército Odilson Moreira Riquelme. Ele publicou que quem não aceitar bandeiras de “família”, “armamento” e “livre mercado”, “está no governo errado” e que “espere 2022”.

Já o tenente-coronel Roberto Lima Júnior aparece fardado em seu perfil — o uso de uniforme associado a atividades político-partidárias também é considerado transgressão. Ele compartilha postagens de apoio a Bolsonaro e já fez ataque ao PT: “O mal tentando voltar ao poder”, escreveu, em post sobre o partido.

Há também militares do Exército que usam suas contas para compartilhar postagens de deputados bolsonaristas — o teor das publicações varia entre defesa do presidente e ataques ao STF e à esquerda. Segundo o texto do Exército que regulamenta o comportamento nas redes, “o ato de seguir ou curtir perfis e postagens de terceiros é considerado um endosso e uma aprovação às opiniões emitidas”. O Exército foi questionado sobre os exemplos citados, mas não se manifestou. A Força diz que segue as regras sobre atuação político-partidária.

— Há um aparelhamento político das Forças por generais com ambições políticas. E os subordinados tendem a seguir a postura e visão ideológica dos líderes, criando quartéis virtuais — diz o oficial da reserva Marcelo Pimentel, mestre em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

O comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, costuma compartilhar postagens dos deputados Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e Carla Zambelli (PSL-SP), e já replicou uma mensagem em que Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PSL-SP) criticou a Constituição. Além disso, se manifestou a favor da aprovação do projeto defendido pelo governo que tornou o Banco Central autônomo. A Aeronáutica negou que o militar tenha manifestado “publicamente sua preferência por determinado partido político”.

Regras disciplinares

Já o comandante da Marinha, almirante de esquadra Almir Garnier Santos, publicou uma foto com Bolsonaro e a legenda “Governo Patriótico”. A Marinha não se posicionou, mas informou que segue regras sobre opiniões políticas.

O Ministério da Defesa afirmou que “perfis e conteúdos pessoais nas redes sociais são de responsabilidade individual e não representam necessariamente o pensamento institucional”. Sobre possíveis postagens que ferem regras disciplinares, disse que “ gestão de pessoal e questões disciplinares dos militares são de competência exclusiva dos Comandantes de Força, no âmbito de suas atuações”.

Pesquisador da relação dos militares com a política, o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Paulo Ribeiro da Cunha diz que o grupo historicamente se manifesta sobre política. Ele defende a criação de canais legais para que eles participem do debate — desde que isso não vire um aparelhamento das tropas:

— A aproximação de militares a grupos ou partidos políticos traz o risco de fragilizar a democracia.

PMs usam farda e citam cargos ao expor apoio a Bolsonaro nas redes sociais

No caso da Polícia Militar, os estatutos não delimitam em detalhes a atuação dos PMs nas redes sociais. Os estados da federação possuem textos diferentes, que não proíbem a manifestação política individual, mas se aproximam nas duas regras claras que tratam do tema. O uso dos uniformes com seus distintivos, insígnias e emblemas, assim como outras peças acessórias da PM, é expressamente proibido em reuniões, propaganda ou qualquer outra manifestação de caráter político partidário.

A outra regra clara definida pela maioria dos estados é que, ao participar de atividades político-partidárias, os policiais militares devem se abster do uso de suas designações hierárquicas. O único estado que foge a este padrão é o Amapá, que não cita no estatuto da PM nenhuma delimitação sobre manifestações políticas.

As definições rasas, na prática, abriram espaço para que policiais militares se tornassem influenciadores digitais de farda. Com quase 25 mil seguidores no Instagram, o segundo sargento da Polícia Militar do Estado do Rio Da Silva posa de uniforme em sua foto de perfil e costuma publicar imagens de sua atuação como policial. Entre os posts de sua rotina, Da Silva deixa claro o apoio a Jair Bolsonaro ao parecer fardado ao lado do presidente.

Da mesma maneira, o subtenente Cotias, da Polícia Militar da Bahia, aparece fardado no perfil em que compartilha as operações que integra. Em uma de suas postagens, com a legenda “Brasil vai dar certo”, Cotias explica o que é ser um bolsonarista: “Apoiar uma política limpa, lutar por um país melhor para as próximas gerações. Sinto orgulho de fazer parte deste grupo seleto”, compartilhou.

No Acre, o sargento Diego Pablo Paz ficou famoso mostrando ocorrências policiais e fazendo críticas sobre vários temas. Ele tem um perfil no Instagram com 31,8 mil seguidores e um canal no YouTube com mais de 1,9 mil inscritos. Em uma de suas publicações, o policial exalta a participação do senador Flávio Bolsonaro na CPI da Covid no dia em que chamou Renan Calheiros de “vagabundo”.

No estado, o sucesso de PMs nas redes sociais se tornou alvo de preocupação do comando da Polícia Militar do Acre. No fim do último mês, uma portaria foi publicada no Diário Oficial do Estado com orientações aos militares sobre como se portar nas plataformas. As novas regras estabelecem que o PM deve ser responsabilizado administrativa, civil e penalmente por eventuais consequências do conteúdo que postar ou divulgar na internet. “O policial não está apenas se identificando como pessoa física, e sim representando uma instituição inteira”, define a portaria.

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