Mina de recursos: Estado planeja lançar ações da Cedae na Bolsa e vender imóveis da estatal

Depois de quatro leilões para a concessão de serviços, que renderam R$ 24 bilhões ao estado, a municípios e à própria Cedae, a companhia de saneamento já corre atrás de novas fontes de receitas. De um lado, pavimenta, em parceria com a Secretaria da Casa Civil, o caminho para que o governador Cláudio Castro possa lançar ações da estatal na Bolsa de Valores de São Paulo em 2024. Outra frente foi fazer um inventário de todos os seus 1.600 imóveis e selecionar os 52 primeiros que já foram incluídos num fundo imobiliário, criado no fim de dezembro e gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A ideia é começar a ter rentabilidade com esse patrimônio no segundo semestre deste ano.

— A Cedae que ficou (em 16 cidades ainda é responsável por todo o saneamento; e em 48 municípios, com a concessão, passou a cuidar apenas da produção e do tratamento da água) já vale a mesma coisa que a Cedae que eu vendi — afirma Castro.

Quanto ao fundo imobiliário, o presidente da Cedae, Leonardo Soares, explica que a expectativa é que, em mais um mês, o BNDES consiga detalhar qual a destinação dos primeiros imóveis escolhidos. Entre eles, há um na Rua Mena Barreto 70, em Botafogo, hoje usado como depósito de bens inservíveis de pequeno porte que serão levados a leilão. Um prédio vazio na Rua de Santana, 235, no Centro, e um terreno de uma antiga elevatória, na Rua Equador, 76, no Santo Cristo, também estão na lista.

— Inventariamos todos os nossos imóveis (exceto os cedidos pelo estado para concessionárias, para que operem os serviços de saneamento), um levantamento que levou um ano. Agora, estamos trabalhando na formalização de 100% deles. Estimo ter cerca de 500 aportados no fundo. É o BNDES, como administrador imobiliário, que vai avaliar corretamente, sob o ponto de vista econômico-financeiro, o que é melhor fazer com cada um deles: se alugar, arrendar, vender ou dar como garantia — explica Soares, acrescentando que ainda não há uma estimativa de quanto é possível auferir com esses bens.

O presidente da Cedae cita ainda soluções alternativas que poderiam ser dadas para aproveitar o patrimônio da empresa:

— Há, por exemplo, um terreno que temos no Mourisco (Botafogo), que é uma praça sob a qual passa uma adutora, que podemos alugar para feiras. E elevatórias, onde poderia ser colocada propaganda. Temos cenários que estão sendo levantados, para que, uma vez enxergados, possamos traçar estratégias para persegui-los. Nós, como cotistas únicos do fundo, vamos receber os frutos consequentes disso.

Os 52 primeiros imóveis aptos a integrar o fundo imobiliário somam mais de 214 mil metros quadrados de área. Desse total, 24 estão no município do Rio, em bairros como Maracanã, Gávea, Tijuca, Penha e Alto da Boa Vista. Dos outros 28, seis ficam em São Gonçalo. Duque de Caxias, São João de Meriti e Belford Roxo, na Baixada, têm dois cada.

Ao fundo, deverão ser acrescidos outros imóveis, fruto de desmembramentos em terrenos parcialmente cedidos às concessionárias para operarem o saneamento. É o caso de um terreno em Deodoro, onde funciona uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), em que quatro quintos dele deverão ser incorporados ao patrimônio da Cedae para que possam tornar-se rentáveis.

Projeções bilionárias

Quanto ao IPO (oferta pública inicial, na tradução em português), as projeções são bilionárias. Segundo o presidente da Cedae, foi feito um ensaio — considerando ações e o Ebitda (indicador financeiro muito usado para avaliação na Bolsa de Valores) de outras empresas de saneamento e as condições especiais de contratos de longo prazo diferenciados celebrados com as concessionárias dos quatro blocos. Chegou-se, hoje, a um valor de R$ 10 bilhões a R$ 12 bilhões para a companhia.

— Ao longo deste ano, nossa ideia é fazermos os ajustes necessários, uma remodelagem, para que o governador, se assim o desejar, possa lançar ações na Bolsa, a preço maiores do que seriam se isso acontecesse hoje. Quanto mais valorizada a empresa, mais ela vai lucrar, mais ela vai ter possibilidade de investir, de reverter isso em benefício da população, no caso de o estado ser o sócio majoritário. Acredito que no fim de 2024, a Cedae já esteja valendo entre R$ 16 bilhões e R$ 20 bilhões — prevê o presidente.

A Cedae é uma empresa de economia mista, em que 99,9% das ações são do governo do estado. A princípio, a intenção é fazer o lançamento de papéis no mercado nacional, o que não impede que haja investidores internacionais interessados. São os estudos que vão dizer qual o melhor caminho a seguir. O estado poderá, por exemplo, ser acionista majoritário (com um pouco mais de 50% das ações, como acontece com a Sabesp, do governo paulista) ou até vender a maioria das ações, desde que mantenha a presidência e o poder decisório no conselho de acionistas.

Austeros nos gastos

Para fazer o IPO, o diretor financeiro da Cedae, Antônio Carlos dos Santos, lembra que há necessidade de a companhia obter uma certificação internacional. Ele fala em medidas duras de ajuste:

— Preciso diminuir o custo Cedae, porque a visão nossa hoje é o lucro. Trata-se de uma empresa de capital aberto. Nosso principal objetivo é a prestação de serviço, mas temos também que pensar na lucratividade, porque a companhia precisa remunerar os seus investidores, entre eles o governo do estado. Este vai ser um ano difícil em relação a gastos.

Uma das medidas a serem implementadas deverá ser o lançamento de um Programa de Demissão Voluntária (PDV). A intenção é enxugar o quadro de pessoal, de cerca de 3.200 funcionários (servidores e contratados), em 25%.

— Vamos ser bem austeros nos gastos da empresa e fazer a revisão de contratos. A gente tem que estar com uma empresa com uma contabilidade redonda e com todos fornecedores em dia — acrescenta Santos.

O diretor estima em 40% a necessidade de redução de custos. Os principais são os com energia, de aproximadamente R$ 1 bilhão por ano, e os com produtos químicos, de R$ 970 milhões anuais.

— Vamos comprar energia no mercado livre, de outras distribuidoras, e não apenas da Light. Quanto aos produtos químicos, buscaremos mais os ecológicos, mais adequados ao meio ambiente — explica. — A empresa precisa se reinventar.

Adequar o passivo (de R$ 1,7 bilhão) à realidade será outra iniciativa: seja renegociando créditos devidos, seja retirando dos demonstrativos o que não tem como ser recebido. Tentar equacionar dívidas trabalhistas (somam cerca de R$ 200 milhões) é mais uma medida a ser adotada. Oferecer serviços nos quais tem expertise às empresas de saneamento é outra iniciativa — prevista em lei desde que usando a mão de obra da Cedae — que será intensificada.

A Cedae fecha o balanço de 2021 no fim de março. Santos antecipa que, do orçamento de R$ 3,2 bilhões, deve encerrar o ano passado com lucro de R$ 390 milhões. A empresa está com um caixa de R$ 2,5 bilhões, aplicados, e R$ 2 bilhões em financiamentos com a Caixa, a grande maioria para executar as obras do Guandu 2.