Minissérie 'Doce de Mãe' estreia no final do mês

Um ano e um Emmy depois, Dona Picucha está de volta. A intrépida personagem apresentada no telefilme da Globo Doce de Mãe, que deu o prêmio máximo da TV mundial a Fernanda Montenegro, é o centro de uma série em 14 capítulos que estreia no dia 30 deste mês. As gravações, no Rio e em Porto Alegre, têm sido extenuantes - dez horas por dia, praticamente todo dia. Aos 84 anos, Fernanda não esmorece.

“Se eu disser que fico exausta, estou mentindo, e se disser que não fico, também. Tenho uma disponibilidade e uma preparação metal e física praticamente há 70 anos, e muitas vezes juntando teatro, TV e cinema. É uma estrutura de atleta mesmo, não tenho pudor de dizer”, diz a atriz, citando colegas também na casa dos 80 com o mesmo vigor: Nathalia Timberg, Laura Cardoso, Lima Duarte, Ary Fontoura...

O diretor, Jorge Furtado, conta que Fernanda não descansa sequer nos dias de folga. “A gente ficou gravando sem parar e quando teve um único dia livre, toca meu telefone e era ela perguntando: ‘Vem cá, na cena 18...’. A Fernanda estuda o roteiro na folga! É mesmo um ponto fora da curva”.

Autor do texto, Furtado juntou histórias de sua própria família (mães, tias) e de conhecidos e criou em cima delas para chegar às situações do cotidiano de Picucha e sua prole. A questão central do telefilme, quem vai ficar com a matriarca depois que a empregada, sua única companhia, a deixa, para se casar, continua no ar. As novas peripécias incluem uma passagem breve por uma casa geriátrica, a apresentação de um programa de TV e a descoberta de segredos do falecido marido.

A vida dos filhos (Louise Cardoso, Marco Ricca, Mariana Lima e Matheus Nachtergaele) se mistura à dela numa simbiose levada de forma leve e divertida. Picucha é o retrato da mãe/avó brasileira - daí os bons números de audiência alcançados -, que age intuitiva e muita vezes desastradamente, sempre buscando ver felizes os seus.

“É um personagem meio mágico, uma fada. Num país que cultua a juventude, a gente não vê muita protagonista da terceira idade. Mas esse é um assunto que está presente na vida de todo brasileiro: o que fazer com os nossos velhos?”, acredita Furtado.

Fernanda não gosta da palavra “velho”. Tampouco da expressão “melhor idade”. “Não é a melhor, é uma idade que tem as suas características. Mas não é uma anátema, um caminho para uma finitude. Quando se tem herdeiros, você se vê pelo menos 100, 200 anos adiante. Mas também pesa a perda das pessoas que vêm com você pela vida. Cada amigo que vai embora é uma memória que vai junto. Olho em volta e vejo que as pessoas mais próximas de mim, na vida profissional e nas amizades, já não estão mais.”

A dedicação à profissão que iniciou em 1950 é inabalável, depois de uma centena de trabalhos, entre filmes, peças e programas de TV. Este ano será dedicado à série - que poderá ter mais uma temporada -, e à direção de uma adaptação para o teatro do livro Nelson Rodrigues Por Ele Mesmo, de Sônia Rodrigues, filha dele.

Será um monólogo com Otávio Augusto no papel de Nelson (1912-1980).

O texto será uma costura de entrevistas e depoimentos dados pelo dramaturgo, que escreveu especialmente para Fernanda peças como O Beijo no Asfalto (1961) e Toda Nudez Será Castigada (1965). É um Nelson confessional que nunca se viu no teatro. “Não me envolvo muito com imitação de botar barriga, bigode, sobrancelha, imitar voz. O que geralmente se vê é o histrionismo perturbando o que se quer falar a respeito daquela pessoa”.

No cinema, vai estrear o filme de Domingos Oliveira Do Fundo do Lago Escuro, originado da peça dela da qual ela participou nos anos 80, com o marido, Fernando Torres (1927-2008). Fernanda será outra matriarca, Dona Mocinha, que Domingos criou inspirado em sua avó.

“Quando a gente consegue sobreviver à idade que eu tenho, tenho que fazer as senhorinhas de 80 para 90. Domingos é extraordinário. Era uma peça de ajuste de contas, com angústia e amargura, e o roteiro do filme, passados tantos anos, foi para o lírico, para o perdão, a reconciliação”, revela a atriz.

A alcunha de “grande dama da dramaturgia brasileira” ela rejeita não só por modéstia, mas por acreditar que não está acima do bem e do mal. “Não sou deslumbrada. A gente sabe o que custa cada vez que tem que resolver uma cena, encarar uma personagem. É como se fosse um vestibular diário”, avalia. “Cheguei aos 84 anos na minha profissão, então me sinto remida. Quem gostou, gostou, quem não gostou, coitado... Sou uma sobrevivente: já sobrevivi às glórias e à queda absoluta. Então quem me quiser tem que me querer de graça, pois nessa altura da vida não é mais problema meu.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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