Ministério da Saúde chegou a pausar campanhas de vacinação de rotina, mas retomou

Audrey Furlaneto

RIO - Dois dias antes de a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançar suas recomendações sobre pausa no calendário de imunização contra outras doenças durante a pandemia de coronavírus, o Brasil dava início à primeira etapa da campanha de vacinação contra a gripe.

Então, o Ministério da Saúde pediu aos pais que não levassem seus filhos aos postos de saúde para vacinar entre 23 de março até o último dia 15. Nesse período, a vacinação de rotina no país ficou suspensa para ser retomada agora.

Em nota, o Ministério da Saúde afirma que “recomendou aos estados e municípios que, durante a primeira fase da campanha de vacinação contra a gripe, fosse adiada a vacinação de rotina, principalmente das crianças”. De acordo com a pasta, “a medida preventiva teve o objetivo de reduzir o contato dos idosos e crianças, já que estas são importantes transmissores e disseminadores das doenças respiratórias”.

A pasta informou ainda que “as campanhas de vacinação para o segundo semestre deste ano estão mantidas e serão avaliadas mais próximas da data de ocorrência de acordo com o cenário da COVID-19”. Segundo o ministério, “estão previstas estratégias de vacinação contra o sarampo e poliomielite, além das que já foram realizadas, como febre amarela, em março, influenza, que segue até maio”.

Diretora de Imunização da OMS, Katherine O’Brien afirma que a recomendação do órgão foi que nunca se suspendesse a vacinação de rotina. Em entrevista ao GLOBO, ela evitou comentar a suspensão temporária feita pelo governo brasileiro logo no início da pandemia e afirmou:

– A principal mensagem da recomendação da OMS é: a imunização é um componente chave do serviço essencial de saúde e precisa ser mantida durante a crise da Covid-10. O que houve fora isso foi uma orientação específica para pausar no momento campanhas em massa de doenças evitáveis com vacina.

Ela explica que “se a imunização de rotina é aquela feita na unidade de saúde ao longo de todo o ano, uma campanha mobiliza, num período muito curto de tempo, centenas ou milhares de profissionais de saúde para uma abordagem diferente, massiva”.

Sarampo preocupa

Segundo ela, a OMS vem revisando com os países seus planos de campanhas, a fim de que suspendam as preventivas ou mantenham-nas, em casos de doenças consideradas em surto – como o sarampo no Brasil.

O país registrou mais de 18 mil casos da doença em 2019 e, neste ano, o quadro ainda é considerado de surto, segundo especialistas, com 909 casos confirmados até o dia 7 de março. O Ministério da Saúde encerrou a última campanha nacional de vacinação contra o sarampo em 13 de março, quando 156 mil pessoas (de 5 a 19 anos) receberam doses da vacina. A meta, porém, era de 3 milhões. Em nota, a pasta informou que os estados ainda estão cadastrando os dados de doses aplicadas.

A diretora da OMS defendeu que “os ministérios da saúde precisam realmente garantir a continuidade de seus serviços de vacinação”.

– A imunização de rotina precisa ser mantida sempre como complemento às campanhas, estas sim suspensas temporariamente, enquanto analisamos o custo-benefício da interrupção desses trabalhos – diz a diretora da OMS. – Muitas das doenças para as quais nós já temos vacinas podem gerar surtos e, se a imunização é interrompida por um período substancial de tempo, ou seja, não por semanas, mas por meses, haverá um número grande de pessoas que não estão imunes a essas doenças e espera-se que ocorram surtos.

Katherine conta que, até o momento, 30 países que haviam planejado campanhas de vacinação contra o sarampo já as suspenderam, e cerca de 20 países que tinham preparado campanhas contra a poliomielite também as cancelaram.

– O que sabemos é que há no mundo mais de 60 campanhas suspensas, seja para responder a surtos ou para prevenção. Estamos olhando continuamente o risco relativo disso para atualizar as orientações conforme os dados forem chegando. Estamos trabalhando com um número grande de instituições acadêmicas que criam modelos para tentar estimar, dentro de uma variedade de cenários, qual é a magnitude do risco que estamos correndo.