Ministério da Saúde nunca mudou orientação de manter distanciamento, diz Teich

NATÁLIA CANCIAN E IARA LEMOS
BRASILIA, DF, BRASIL, 27-04-2020, 12h00: Boletim epidemiológico. O ministro da Saúde Nelson Teich, acompanhado dos secretários Wanderson Oliveira (Vigilância em Saúde) e Eduardo Pazuello (Secretário Executivo) durante coletiva de imprensa para divulgação do boletim epidemiológico, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O ministro da Saúde, Nelson Teich, disse nesta quarta-feira (29) que a pasta "nunca mudou" a orientação de manter o distanciamento social e que eventuais flexibilizações foram feitas por decisões de governadores.

A declaração ocorreu em sessão virtual do Senado. Teich falou após receber duras críticas de senadores sobre a falta de um posicionamento da pasta sobre o tema. "A gente como ministério nunca se posicionou para a saída do distanciamento. Isso tem de ficar muito claro. Nunca", disse.

Apesar da resposta, Teich voltou a citar a intenção de fazer uma diretriz com parâmetros diferentes por região. Segundo ele, a previsão é que a política oriente isolamento para algumas pessoas e conforme o quadro da doença em diferentes estados.

"Uma diretriz do Ministério vai sair, e cada estado vai usar essa diretriz dentro da sua realidade. O que a gente faz aqui é trabalho conjunto com estados e municípios."

Questionado sobre a fala do presidente Jair Bolsonaro, que minimizou a alta de mortes no país, Teich evitou comentar a declaração, mas disse lamentar os números.

"A gente sofre com as vidas que estão sendo perdidas. A gente não é indiferente às mortes das pessoas", disse ele, que completou: "Só uma coisa que é importante, a parte do alinhamento com o presidente. O presidente está preocupado com as pessoas, está preocupado com a sociedade. Não vou discutir aqui o comportamento, mas eu posso dizer que ele está preocupado com as pessoas e com a sociedade. O alinhamento é nesse sentido".

Boletim do Ministério da Saúde divulgado nesta quarta aponta 449 novas mortes confirmadas pela Covid-19 nas últimas 24 horas. Com isso, o total de mortes registradas no país já chega a 5.466. O Brasil também já soma 78.162 casos confirmados do doença.

Na audiência, Teich disse que não é possível saber quando será o pico da pandemia do novo coronavírus no país. "Quando vai ser o pico (da doença)? Não sei e ninguém sabe. As datas que a gente projeta hoje são suposições", disse.

Segundo ele, a falta de informações sobre a doença e a baixa oferta de testes dificultam saber qual o cenário real no país. "Não sabemos qual o percentual da sociedade acometida pela doença, quantos são assintomáticos, e se essas pessoas transmitem tanto quanto as mais graves. Os testes que a gente faz não permitem hoje saber essa realidade. Sem esse conhecimento, estamos literalmente navegando às cegas, essa é a verdade."

Nesse contexto, antes de dizer que a pasta não havia mudado as orientações, Teich disse que medidas de isolamento que "radicalizam" o distanciamento social são necessárias "quando não se sabe o que fazer".

"Quando não sabe, faz o radical, que é o que se faz há cem anos, separa todo mundo. Cem anos depois da gripe espanhola, temos exatamente o mesmo tipo de comportamento. Nosso sistema de informação não evoluiu o bastante em cem anos para ter informação diferente de cem anos atrás."

Autora do requerimento que resultou na participação do ministro na sessão virtual, a senadora Rose de Freitas (Podemos-ES) questionou a posição de Teich em relação ao isolamento social. "O próprio presidente da República conspirou sobre todas as medidas do ex-ministro", disse.

Evitando entrar em polêmicas, o ministro afirmou que o governo está estudando diretrizes para evitar a transmissão --sem, contudo, detalhar as ações.

"O isolamento é uma ferramenta, pode ser bem usado ou mau usado. O que vamos apresentar para vocês será uma diretriz, uma sugestão. Perguntar se fica em casa ou não é simples demais", disse ele.

Em seguida, completou: "Não posso responder superficialmente perguntas complexas. Ficar em casa é genérico demais. Ficar em casa vai ser a melhor opção para algumas pessoas, não para todas. Vamos trabalhar isso de forma mais específica".

A resposta não foi aceita por todos os senadores, que voltaram ao questionamento, e acentuaram as críticas. A começar pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), que disse que estava frustrado com as respostas dados pelo ministro, que não traziam informações novas aos parlamentares. O senador defendeu o isolamento social como forma de conter o avanço do vírus.

"Desde que o senhor assumiu o ministério, o distanciamento social caiu drasticamente e estamos agora com uma explosão de mortes. Não há momento de indecisão, precisa ser claro e passar uma resposta rápida para a população. Isolamento social, sim ou não?", questionou.

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) também cobrou um posicionamento mais contundente do ministro com relação especialmente ao isolamento social: "É muito claro que as ações do presidente da República prejudicam a sociedade brasileira".

A senadora Kátia Abreu (PSD-TO) criticou os posicionamentos do presidente da República e afirmou que, assim como outros senadores, não estava satisfeita com as respostas do ministro: "Isolamento ou não isolamento? Se o senhor for defender o não isolamento, temos respiradores para atender a todos que vão precisar"?, questionou.

Na sequência do debate, o ministro afirmou ainda que o Brasil deve entrar em um período em que há circulação de outros vírus respiratórios, o que pode gerar uma sobrecarga no sistema.

Para Teich, falar do cenário da doença no país leva a uma "simplificação exagerada". "Precisamos separar por regiões."

Ele defendeu que haja um novo modelo de distribuição de recursos e insumos, com foco em estados mais afetados.

"Não há crítica a forma adotada até então, mas a partir de agora percebemos distintos perfis de comportamento da doença por região, e definimos que nossas ações devem se pautar por distribuição não linear de insumos e meios", disse.

Sem detalhar medidas, disse que é preciso atenção ao restante do sistema.

"Mesmo que possamos ter uma multiplicação de casos, que tenhamos 4 milhões, 5 milhões, 6 milhões de pessoas, é um país de 212 milhões de pessoas, e temos mais de 200 milhões com outros problemas que temos que cuidar", disse.