Ministério manifesta interesse em mais doses da CoronaVac após troca de acusações com Butantan por atraso

Eduardo Simões e Lisandra Paraguassu
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Funcionários manuseiam frascos com doses da vacina contra Covid-19 CoronaVac no Instituto Butantan, em São Paulo

Por Eduardo Simões e Lisandra Paraguassu

SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) - O Ministério da Saúde manifestou intenção de comprar mais 30 milhões de doses da CoronaVac do Instituto Butantan, informou a pasta em comunicado nesta sexta-feira, um dia depois de acusar o Butantan de não cumprir o cronograma de entrega da vacina contra Covid-19.

A intenção foi manifestada em ofício enviado ao Butantan na quinta-feira, no qual pede ao instituto ligado ao governo do Estado de São Paulo que manifeste-se sobre se tem a intenção de fazer esse fornecimento adicional e apresente um cronograma de entrega dessas doses entre os meses de outubro e dezembro deste ano.

"Os 30 milhões se somam aos 100 milhões de doses já contratadas pelo Ministério da Saúde junto à Fundação Butantan, com previsão de entrega ao Plano Nacional de Imunizações (PNI) de forma escalonada até setembro deste ano", disse a pasta em nota.

O Butantan, responsável pelo envase no Brasil do imunizante desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac, disse que recebeu o ofício do Ministério da Saúde e que está avaliando a manifestação da pasta.

A intenção de compra do governo federal foi apresentada depois de mais uma troca de acusações entre o Butantan e o Ministério da Saúde, depois que o secretário-executivo da Saúde, Élcio Franco, responsabilizou o Butantan pelo atraso no cronograma de entrega de vacinas aos Estados em fevereiro.

Desde o início dessa semana, vária cidades do país tiveram que interromper o cronograma de vacinação porque o ministério não entregou as doses previstas.

"Até o início dessa tarde nós tínhamos a previsão de 9,3 milhões de doses de vacinas a serem fornecidas pelo instituto Butantan. Infelizmente, recebemos a notícia de que vão nos entregar apenas 30% dessas doses", disse Franco em vídeo distribuído pelo ministério.

"Agora teremos que rever os grupos prioritários e rever quem poderá ser imunizado e refazer nosso planejamento. Fica muito difícil planejar sem ter a confirmação do que vamos receber," acrescentou.

Em nota, o Instituto respondeu ao ministério lembrando o atraso na entrega de insumos por parte da China, de onde vem o material da CoronaVac.

"O Ministério da Saúde omite e ignora fatos em seu comunicado oficial. Deixa de informar que, como é de conhecimento público, o desgaste diplomático causado pelo governo brasileiro em relação à China provocou atrasos no envio da matéria-prima necessária para a produção da vacina. Além disso, não houve qualquer empenho da União na liberação dos insumos junto ao governo chinês. Mesmo assim, 9 em cada 10 vacinas contra o coronavírus usadas atualmente na rede pública são do Instituto Butantan", disse o Instituto.

De acordo com uma fonte ouvida pela Reuters, as instruções recebidas pela diplomacia brasileira eram de se empenhar pela liberação dos insumos para produção da vacina da AstraZeneca, que está sendo envasada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Não houve trabalho do governo federal pela CoronaVac, segundo a fonte.

No vídeo, o secretário-executivo da Saúde disse ainda que, por conta dos atrasos do Butantan e para garantir o cronograma, o governo federal está negociando vacinas com outros fornecedores. Nenhum desses, no entanto, tem autorização para uso emergencial no país.

Os laboratórios Pfizer, Bharat Biotech e União Química --este representante da russa Sputnik V-- já entraram com pedidos de autorização na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas o processo não foi finalizado.