Ministério Público denuncia madrasta por envenenamento de dois enteados

A promotora Carla Coutsoukalis, da 3ª Promotoria de Investigação Penal - Área Territorial Bangu e Campo Grande, denunciou, nesta segunda-feira, dia 11, Cíntia Mariano Dias Cabral pelo homicídio da estudante Fernanda Carvalho Cabral, de 22 anos, e a tentativa de homicídio do irmão dela, o também estudante Bruno Carvalho Cabral, de 16. A denúncia do Ministério Público menciona a existência de “elementos comprobatórios da autoria delitiva” e destaca que a prisão preventiva da madrasta é também necessária para garantir a regular instrução criminal.

“Há nos autos prova cabal da materialidade das infrações penais praticadas contra as vítimas Fernanda e Bruno. Após os fatos, ambas apresentaram, como pontuado no relatório da autoridade policial, sintomas típicos de intoxicação exógena por carbamato (chumbinho), quando verificados de forma simultânea. Além disso, os laudos técnicos revelaram que o óbito da primeira e as lesões sofridas pelo segundo foram causadas por ação química causada por envenenamento por carbamatos”, escreveu a promotora.

De acordo com as investigações da 33ª DP (Realengo), ela teria envenenado refeições dos enteados, em 15 de março e 15 de maio, respectivamente, com um inseticida comumente chamado de chumbinho.

Segundo o delegado Flávio Rodrigues, titular da 33ª DP, será pedida a prisão preventiva de Cíntia, que já está presa temporariamente há 47 dias no Instituto Penal Oscar Stevenson, em Benfica, na Zona Norte, e os inquéritos serão encaminhados ao Ministério Público:

— Em quase dois meses de investigações, pudemos demonstrar, por meio de provas testemunhais e técnicas, indícios de autoria e materialidade em ambos os procedimentos. Concluímos que a madrasta colocou veneno nas comidas oferecidas aos dois enteados em sua residência por ciúmes que mantinha do pai dos jovens, não querendo dividir com eles a atenção de seu companheiro, e o fez justamente para os eliminar do convívio familiar.

Durante a investigação, uma perícia do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) no celular de Cíntia mostrou que ela pesquisou na internet sobre “como apagar mensagens de WhatsApp”, na tarde de 27 de abril. O relatório, obtido com exclusividade pelo GLOBO, aponta, nas conversas no aplicativo, haver diversas demonstrações de preocupação e medo dos filhos dela com o comportamento da mãe.

“Wesley, Bruno veio almoçar aqui e foi envenenado. Uma desgraça está acontecendo aqui”, escreveu Cíntia ao irmão, às 12h03 de 16 de maio, no dia seguinte do estudante ter sido internado no Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo. “Mas, como assim? Se ele comeu aí. Onde ele está?”, pergunta o homem.

Em outra conversa, a filha de Cíntia, Carla Mariano Rodrigues, pergunta: “Mãe, você lembra tudo que passamos na separação de vocês? Como a gente não vai desconfiar de você?”. Ela, então, responde: “Não, Cá, fiz isso, isso foi seu pai que gralhou. Eu só busquei lá, não levei”. Entre as mensagens, diversos textos foram apagados do celular e não foram recuperados pelo software israelenese Cellebrite.

Em outro diálogo, uma amiga da família escreve a Cíntia: “Cheguei na delegacia, Bruninho tá no CTI igual Fernanda, mesmas coisas, só que ele chegou a ver e contar para tia Jane. Viu coisas azuis no feijão, veneno, disse que a madrasta na hora ficou nervosa, começou a pegar o prato dele, trocar, apagar a luz da cozinha, porque ele sentiu o gosto. Agora, tá no Albert”. Na sequência, ela encaminhou um print dessa mensagem a seu outro filho biológico, Lucas Mariano Rodrigues.

Cíntia então escreve algo que apaga logo depois, e Lucas responde: “Mãe, você tá me acusando, você tá vendo as coisas que tá fazendo? Eu sou seu filho, cara. Pelo amor de Deus! Assuma suas responsabilidades. Eu tô ficando com vergonha de te olhar. Eu pedi para você me contar a verdade, cara, você tá acusando as pessoas por coisas que você fez. Acabou, mãe. Acabou. Por favor! Não faça isso. Assuma o que você fez. Eu não tô aguentando isso tudo. Eu tô passando mal. Por favor”.

Na última terça-feira, o laudo complementar de necropsia realizado no cadáver exumado de Fernanda atestou que a causa de sua morte foi intoxicação exógena, provocada por ação química por envenenamento. O documento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto (IMLAP), demonstra que, embora o exame toxicológico não tenha sido capaz de identificar substâncias tóxicas, a análise de prontuário médico do Hospital Municipal Albert Schweitzer, onde a jovem ficou internada por 12 dias, atesta que eliminação do organismo de carbamato, inseticida comumente chamado de chumbinho, é rápida.

Já laudo de exame complementar de pesquisa indeterminada de substância tóxica em amostra biológica apresentou evidências da presença dos compostos carbofurano e terbufós no material gástrico de Bruno. O documento, produzido com base em análise realizada no Laboratório de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (Ladetec) da Universidade Federal do Rio (UFRJ) atesta que os pesticidas estavam em quatro grânulos esféricos diminutos, de colocação azul escura, no organismo do estudante.

O laudo complementar de exame de corpo de delito de lesão corporal feito a partir da análise do material gástrico de Bruno já mostrava que o estudante havia sido vítima de uma “ação química, envenenamento por carbamatos” — compostos orgânicos utilizados como inseticida. Nesse documento, o perito Gustavo Figueira Rodrigues havia explicado que o exame laboratorial revelou a presença dos grânulos no organismo de Bruno — “forma de apresentação de raticida ampla e clandestinamente comercializado e conhecido como chumbinho”. A análise química do material em questão, entretanto, não revelou a presença de substâncias tóxicas: “Os carbamatos possuem meia vida curta, e considera-se que, em 24 horas, 90% da dose ingerida é eliminada pela urina”, escreveu.

Por meio de seus advogados, Cíntia nega que tenha cometido o crime. “Os laudos periciais são atécnicos e extremamente parciais. Com uma simples leitura, percebemos que não foi detectado nenhuma substância tóxica, o que estão fazendo é um malabarismo pericial para buscar algo que não existe, realizando uma espécie de achismo, onde, no último laudo pericial, acessaram o prontuário e afirmaram que, devido aos sintomas, ela foi envenenada. Ocorre que os médicos que a atenderam foram categóricos em afirmar que ela não apresentava sintomas de envenenamento. Ressaltamos que o exame toxicológico da exumação do corpo da Fernanda, foi negativo para qualquer substância tóxica”, disseram, em nota, os criminalistas Carlos Augusto dos Santos e Raphael Souza.

"No decorrer da instrução criminal tudo isso será analisado e com as devidas representações contra os peritos para apuração das falhas técnicas”, afirmaram os advogados.

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