Ministério Público Eleitoral denuncia Marcelo Crivella e candidata à vice por caso 'Guardiões'

Felipe Grinberg e Paulo Cappelli
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RIO — O Ministério Público Eleitoral denunciou nesta quarta-feira o prefeito do Rio Marcelo Crivella, a tenente coronel Andrea Firmo — candidata à vice em sua chapa, e o assessor especial do gabinete do prefeito Marcos Luciano pelo caso que ficou conhecido como "Guardiões do Crivella". O MPE acusa os três de abuso de poder político, conduta vedada e pede paraa condenação dos envolvidos por inelegibilidade por oito anos e o pagamento de multa.

"Conforme apurado, ao longo do ano de 2020, notadamente durante a pandemia da Covid-19, servidores públicos municipais foram designados para ficar de prontidão nos hospitais públicos da rede municipal do Rio de Janeiro, com o objetivo de impedir e dificultar a realização de matérias jornalísticas sobre a precária situação da saúde pública municipal." diz trecho da denúncia assinada pelo promotor Rogério Pacheco Alves.

A existência dos "Guardiões do Crivella" foi denunciada no fim de agosto em uma reportagem do "RJTV", da TV Globo. Os grupos eram formados por funcionários comissionados da prefeitura do Rio que atuavam na porta dos hospitais para impedir denúncias e reclamações.

Ao longo da denúncia o MPE afirma que Crivella "praticou a referida conduta vedada, na medida em que usou os serviços de servidores públicos do Executivo municipal em prol de sua candidatura, tanto de forma comissiva, quanto omissiva"

"As práticas ora apuradas possuíam o condão de impedir ou prejudicar a produção de conteúdo jornalístico que visasse denunciar à população em geral as falhas e carências do serviço público de saúde municipal, um dos temas mais importantes das eleições municipais", diz outro trecho da denúncia.

Procurados, os citados ainda não responderam os contatos da reportagem.

Em entrevistao ao GLOBO em outubro, durante a campanha pela reeleição, Crivella explicou que o grupo não agia sob sua tutela:

— Claro que seria contraditório, se ocorresse e se fosse ordem minha. Eu tinha um grupo de pessoas que foram treinadas, que fizeram provas, para ficar nos hospitais recebendo bem as pessoas. Esse grupo está no Diário Oficial. Existe outro grupo chamado Guardiões do Crivella, que é um grupo de internet, (de) que não sou administrador e não tenho uma postagem nesse grupo — disse o prefeito.

Porém, na denúncia, o MPE aponta que Crivella participa de ao menos um dos grupos e que tem a "a oportunidade de participar das conversas e acompanhar os relatórios publicados pelos servidores". O promotor também afirma que o prefeito já realizou postagens no grupo:

"Cabe mencionar que Marcelo Crivella chega a postar mensagem no grupo, como na ocasião em que manifestou sua aprovação e incentivo às informações publicadas pelos servidores através da seguinte mensagem: “Parabéns! Isso aí!", diz trecho do documento.

Durante sua campanha para a reeleição, parte do grupo continuou atuando junto do prefeito, principalmente em atos públicos, como caminhadas, carreatas e comícios. Responsável principalmente por organizar os atos públicos, Marcos Luciano, também conhecido com o"Marquinho" e "ML" fazia parte da cúpula de organização da campanha de Crivella, junto ao ex-deputado Rodrigo Bethlem — responsável pela articulação política — e o ex-secretário Gutemberg Fonseca — responsável pela propaganda digital.

"É relevante ressaltar, embora se trate de fato notório, que os demandados Marcelo Crivella e Marcos Paulo de Oliveira Luciano mantêm relação pessoal de longa data, sendo Marcos Paulo pessoa de confiança do primeiro demandado, desde os tempos em que trabalharam, juntos, como missionários na África", diz outro trecho da denúncia do Ministério Público.

Nas vésperas da eleição do primeiro turno, um comício de Crivella com bolsonaristas teve funcionários da prefeitura na organização e até uma das ‘guardiãs’ no palco. Na ocasião, Daniela Rocha Pinto de Jesus participou ativamente de toda a estrutura do comício, conforme mostrou o GLOBO. A organização do evento partiu de membros do movimento “Elas com Crivella”, que conta com a participação da primeira-dama Sylvia Jane e de Daniela Rocha, que depois acompanhou o evento do palco. Além delas, várias pessoas que trabalham no cerimonial oficial da prefeitura do Rio também participaram da organização. Em uma agenda na última semana, Daniela confirmou que trabalhava na campanha do prefeito “fora do horário de seu expediente”.

Ela também foi flagrada acompanhando o prefeito em uma visita às obras do Hospital Paulino Werneck, na Ilha do Governador. Na ocasião ela afirmou ao GLOBO que trabalhava na campanha fora do horário de seu expediente. Daniela é uma das testemunhas que o MPE pede para que sejam ouvidas pela Justiça.

No fim de setembro a Câmara de Vereadores do Rio instaurou duas Comissões de Parlamentares de Inquéritos (CPIs) para investigar a ação dos "Guardiões" e do suposto esquema de corrupção na prefeitura do Rio chamado de "QG da Propina". A investigação foi instaurada após a Câmara rejeitar, em um placar apertado, não iniciar um processo de impeachment contra o prefeito. Porém, desde o dia 30 de setembro, dia em que as duas foram instauradas, não houve sequer uma reunião entre os vereadores para discutir o andamento delas, apenas para a decisão do presidente das comissões.

As duas CPIs que investigam o governo Crivella são controladas pelo bloco governista, que após uma manobra conseguiu ter maioria na Câmara. O presidente das Comissões é o vereador Jorge Manaia (PP) e é o responsável por convocar audiências, oitivas e reuniões, o que até agora não foi feito.