Ministério Público faz nova ofensiva contra chefões do jogo do bicho

Adilsinho, o anfitrião de uma festa luxuosa no Copacabana Palace, foi o primeiro a cair. Depois, na sequência, vieram as prisões de Bernardo Bello, Rogério de Andrade — que está foragido — e Piruinha. Em menos de um ano, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) enviou para a cadeia quatro chefões do jogo do bicho, em um enfrentamento que não se via desde a Operação Furacão, deflagrada por forças federais em 2007.

O novo tornado lançado contra o jogo do bicho tem origem na sede do MP-RJ, onde funciona o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Vêm desta unidade especial, reconfigurada em janeiro de 2021, as ações que acossam a contravenção e caminham na direção de outros grupos criminosos no Estado do Rio. Mais investigações podem apresentar desdobramentos em breve.

Na direção oposta à escalada de ações contra o bicho, praticamente saíram de cena as investigações voltadas para a corrupção política, que marcaram o MP-RJ enquanto durou o Grupo de Atuação Especializada e Combate à Corrupção (Gaecc). Criada em 2016, a unidade foi extinta logo após a posse do procurador-geral de Justiça do Rio, Luciano Mattos, no início de 2021, com suas antigas atribuições encolhidas agora em um departamento do Gaeco.

Desde que pediu, no mês passado, a anulação da denúncia de prática de “rachadinha” contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Luciano Mattos ainda não decidiu se retoma ou não o caso que marcou a gestão de seu antecessor no cargo, Eduardo Gussem. Um pedido do GLOBO, feito há seis meses, sobre as outras investigações envolvendo deputados do Rio na prática de “rachadinha”, está até hoje sem resposta.

No pedido de anulação, o procurador-geral alegou que a denúncia se baseava em provas descartadas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e que não poderiam ser reaproveitadas na mesma peça. Mattos ressaltou, porém, que a investigação deverá ser reiniciada a partir do primeiro relatório financeiro do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre movimentações suspeitas de servidores de Flávio na Assembleia Legislativa.

Luciano Mattos não vê na comparação entre as ações contra os bicheiros e a falta de operações contra corrupção política uma mudança de foco no MP-RJ:

— Nossa prioridade é o combate ao crime organizado e à corrupção. Mas isso tudo depende de denúncias. O MP-RJ precisa de instrumentos probatórios.

Outro ponto levantado pelo procurador-geral foi a mudança na Lei da Improbidade Administrativa entre a gestão de Gussem e a sua. A principal alteração estabelece que, para processar um agente público, é preciso a comprovação do dolo. Para Luciano, o novo cenário teve efeito no ajuizamento de ações civis contra políticos.

Desde a Operação Fumus, que prendeu em junho do ano passado Adilson Oliveira Coutinho, o Adilsinho, e mais 39 integrantes da organização do bicheiro, o Gaeco vem constituindo um acervo de provas contra o esquema na contravenção no Rio. Adilsinho, que 40 dias antes da prisão ocupou a mídia com uma festa de aniversário para 500 convidados, com shows de Gusttavo Lima e Ludmilla, no Copacabana Palace, foi acusado de liderar uma quadrilha de contrabandistas de cigarros paraguaios.

Força-tarefa composta pelo Gaeco e pela Polícia Federal (em decorrência da prática de contrabando) constatou que a organização de Adilsinho, intitulada Banca da Grande Rio, pela ligação com dirigentes da escola de samba campeã do carnaval de 2022, comprava maços de cigarros C-One, da Companhia Sulamericana de Tabacos, e obrigava pequenos e médios comerciantes em praticamente todo o estado a vender apenas essa marca.

Em janeiro, o mesmo Gaeco esteve à frente da prisão do contraventor Bernardo Bello, surpreendido no aeroporto de Bogotá, na Colômbia, enquanto supostamente seguia uma rota de fuga. Acusado de ordenar a morte do rival Alcebíades Garcia, o Bid, na disputa de pontos de caça-níqueis e jogo do bicho, ele voltou ao Brasil no domingo passado, após ser solto por decisão do Superior Tribunal de Justiça.

No mês passado, as algemas do Gaeco foram atrás do bicheiro Rogério de Andrade, acusado pela Operação Calígula de comandar um esquema de jogatina clandestina com a benevolência de delegados e outros agentes públicos. Na mesma ação, a delegada Adriana Belém foi presa com quase R$ 2 milhões em espécie escondidos em casa. Mas, desta vez, o alvo principal, que estava na Costa Rica, conseguiu escapar e se encontra foragido.

Na última das quatro ações, o Gaeco prendeu há duas semanas um dos mais folclóricos personagens da velha guarda da contravenção, José Caruzzo Escafura, o Piruinha. Com fama de bonachão e bolsos sempre cheios de dinheiro, para distribuir à comunidade, ele é investigado pelo assassinato de Natalino José do Nascimento Espíndola, conhecido como Neto, dono de uma loja de carros, em julho do ano passado, em Vila Valqueire.

Aos 93 anos, Piruinha entrou no camburão da Polícia com um sorriso no rosto. Questionados por causa da idade avançada do contraventor, os promotores alegaram que, se o preso teve discernimento para empreender atos criminosos, também pode responder criminalmente por eles.

O desafio do Gaeco, na linha de ações contra a contravenção, é mostrar o que levou os bicheiros presos desde 2021 a agir livremente até as suas prisões.

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