Ministra chama migração no Reino Unido de 'invasão' e abre 1ª crise do governo Sunak

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A ministra do Interior do Reino Unido, Suella Braverman, foi alvo de duras críticas nesta terça-feira (1º), após chamar o fluxo migratório por meio do Canal da Mancha de "invasão".

No Parlamento para discutir uma recomendação legal sobre a detenção prolongada de migrantes em centros de processamento, ela alegou que o atual sistema de migração está "fora de controle".

Em meio à discussão na Câmara dos Comuns, a líder da pasta disse que estava trabalhando para cessar a "invasão na costa sul", em referência à chegada de migrantes em botes. "Vamos parar de fingir que todos eles são refugiados em apuros, o país sabe que isso não é verdade", afirmou Braverman, que é filha de imigrantes do Quênia e de Maurícia, país na África Oriental, que chegaram ao Reino Unido nos anos 1960.

A ministra ainda concordou com a declaração de um parlamentar que instou imigrantes a "subir em uma jangada e voltar para a França" caso não estivessem satisfeitos com a recepção britânica.

O ministro de Imigração, Robert Jenrick, que responde ao Ministério do Interior, tentou amenizar as falas da chefe ao dizer que as declarações refletem o tamanho do desafio a ser enfrentado, mas também afirmou ser necessário "escolher sabiamente a terminologia", dada a posição que ocupa.

Especialistas em imigração condenam o uso do termo "invasão" para denominar fluxos migratórios. Para João Chaves, coordenador de Migrações e Refúgio da Defensoria Pública da União em SP, chamar migrantes de invasores "é colocá-los no mesmo patamar de inimigos". "Todos têm direito de pedir asilo".

O Acnur (Alto-comissariado da ONU para os Refugiados), em seu guia para profissionais e estudantes de comunicação, afirma que "o termo 'invasão' costuma ser associado a guerras, destruição, violações e a atos ilícitos em geral". "Quando usado para designar um determinado fluxo migratório ou de refugiados, traz consigo a mensagem de que esse fluxo pode desagregar ou ameaçar a ordem e a rotina vigentes."

Braverman foi reconduzida ao Ministério do Interior seis dias após renunciar ao cargo -ela fez parte da breve gestão de Liz Truss. Rishi Sunak, o terceiro premiê a assumir a posição em dois meses, teve seus primeiros dias na liderança do país tomados pelas polêmicas que cercam a ministra. Na segunda (31), ela admitiu ter usado sua conta pessoal de email para enviar documentos do governo britânico.

No Parlamento, Braverman, ao discutir a questão migratória, defendeu a decisão de manter milhares de pessoas em um centro de processamento na cidade de Kent, mesmo após a acusação de que teria deliberadamente ignorado uma recomendação legal para transferir os migrantes para hotéis.

As condições do abrigo foram descritas por David Neal, inspetor-chefe de Fronteiras e Migração, como "deploráveis". Desenhado para receber 1.500 migrantes por dia e por apenas 24 horas, o centro abrigava mais que o dobro de sua capacidade, e uma família afegã contou estar no local há pelo menos 32 dias.

Alguns parlamentares, incluindo membros do Partido Conservador, ao qual Braverman pertence, apressaram-se para tentar conter os danos das declarações. Tommy Sheppard, do Partido Nacional Escocês, afirmou que a chefe da pasta se valia de uma "retórica ultradireitista inflamatória".

Um porta-voz de Sunak contradisse a ministra e descreveu o país como "receptivo e compassivo" com migrantes. Já a ministra, que em outra oportunidade disse que seu sonho era ver um avião com requerentes de asilo deportados decolando rumo a Ruanda, alegou ser alvo de "caça às bruxas política".