Ministra de Lula desgastada por elo com milicianos teve domínio recorde de votos

Ministra de Lula, Daniela de Souza Carneiro, tem enfrentado uma série de acusações sobre elo com milicanos
Ministra de Lula, Daniela de Souza Carneiro, tem enfrentado uma série de acusações sobre elo com milicanos

RIO DE JANEIRO, RJ, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A ministra do Turismo, Daniela Carneiro (União Brasil), registrou o maior domínio eleitoral numa cidade média ou grande no pleito do ano passado.

Ela concentrou quase metade dos votos válidos registrados em Belford Roxo para deputado federal, em patamar repetido apenas em municípios com menos da metade dos eleitores da cidade fluminense.

Carneiro obteve 49% dos votos válidos dados pelos eleitores de Belford Roxo, sua base eleitoral. O percentual não foi atingido por nenhum outro candidato nos 97 municípios com 200 mil eleitores ou mais —critério utilizado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para a realização de segundo turno em pleitos municipais.

O que mais se aproximou deste domínio neste grupo de cidades foi Miguel Lombardi (PL), que obteve 71.969 votos em Mogi das Cruzes, 46,5% dos votos válidos do município paulista que tem 230 mil eleitores.

As maiores concentrações de votos ocorrem em cidades menores, mais influenciadas pelo poder político local e pelo reduzido número de candidatos vinculados a elas. Belford Roxo tem o 50º maior colégio eleitoral do país (338 mil).

A concentração de votos regionais num candidato é um dos critérios de atenção adotado por policiais e membros do Ministério Público no Rio de Janeiro para analisar possível influência de grupos criminosos na eleição.

Como a Folha de S.Paulo mostrou em outubro, a campanha dela foi marcada pelo apoio irregular de oficiais da Polícia Militar e pelo ambiente hostil e armado contra adversários políticos de Belford Roxo. Ela também teve o apoio, direto ou indireto, de três acusados de chefiar milícias na cidade.

A Procuradoria Regional Eleitoral investigou o caso, mas o arquivou após não conseguir reunir provas até o último dia 16, data limite para ajuizamento de acusações eleitorais.

O cenário político, porém, também era favorável a Daniela. Ela é mulher do prefeito Wagner dos Santos Carneiro, o Waguinho (União), reeleito em 2020 no primeiro turno com 80% dos votos válidos.

Além disso, o casal está aliado desde 2015 com outra liderança política da cidade, o deputado estadual Márcio Canella (União), de quem eram rivais. Ele também obteve 49% dos votos válidos na cidade.

Daniela Carneiro é alvo de pressão desde que a Folha de S.Paulo mostrou o vínculo que seu grupo político mantém há ao menos quatro anos com a família do ex-PM Juracy Prudêncio, o Jura, condenado a 26 anos por homicídio e associação criminosa. Ela também recebeu apoio de outros dois acusados de liderar grupos armados na cidade.

A ministra tem dito que "não compactua com qualquer ato ilícito e cabe à Justiça o papel de julgar e punir". "Por fim, esclarece que em sua campanha, em 2022, recebeu o apoio de milhares de eleitores em diversos municípios do estado."

O maior município em que o percentual registrado por Daniela foi superado é Santa Bárbara do Oeste, cidade de 146 mil eleitores, o 151º do país. Lá, Denis Andia (MDB) teve 51.588 votos (50,05%) para deputado federal.

No ranking geral, Daniela apresentou a 437ª maior concentração de votos válidos em um município, superada por candidatos que dominaram cidades com, em média, 10,7 mil eleitores.

A ministra concentrou mais votos em Belford Roxo do que outros candidatos em 5.087 cidade menores que a da Baixada Fluminense —inclusive Borá, o menor colégio eleitoral, onde Walter Ihoshi (PSD) obteve 16,6% dos votos válidos.

O desempenho de Daniela nas urnas foi expressivo em todos os locais de votação de Belford Roxo. O percentual chegou a 60,3% dos votos válidos na Escola Júlio César de Andrade Gonçalves (bairro Vila Pauline). O mínimo foi de 32,6%, no Complexo Educacional Arco-Íris (bairro Jardim Redentor).

Daniela teve 114.345 eleitores na cidade (48,94% dos votos válidos). Para comparação, a segunda colocada, Sula do Carmo (Avante), teve apenas 8.453 (3,62%).

Ela e Canella, inclusive, superaram até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cidade. O petista recebeu 97 mil votos no primeiro turno, contra 114,3 mil de Daniela e 108 mil de Canella.

Foi em Belford Roxo que ela conseguiu mais da metade de seus votos. Contudo, ela também foi a mais votada em outros quatro municípios menores do que sua base eleitoral: São João da Barra (9,3%), Miracema (7,6%), Cardoso Moreira (20,5%) e São José de Ubá (30,6%).

Daniela foi reeleita deputada federal como a mais votada no Rio de Janeiro, superando o ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello (PL-RJ), segundo no ranking fluminense.

Waguinho, Daniela e Canella romperam a aliança local no segundo turno da eleição presidencial. O deputado estadual fez campanha para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), enquanto o casal foi uma das poucas lideranças a apoiar Lula na Baixada Fluminense.

O empenho do casal no segundo turno tem sido um dos pontos ressaltados por integrantes da equipe de Lula para defender a permanência da ministra no cargo.

Evangélicos, o prefeito e a ministra ajudaram, na avaliação de aliados, o presidente a se aproximar do eleitorado religioso da região.

"O marido dela teve um protagonismo forte [na campanha eleitoral]. Então, repare, ele tem até o nosso carinho e admiração, porque, numa terra difícil, como é Belford Roxo e o Rio de Janeiro, ele fez campanha três vezes por dia", afirmou o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).

Ela também foi escolhida como uma forma de contemplar a União Brasil na montagem do governo. O presidente do partido, Luciano Bivar, emitiu nota oficial para defender a correligionária.

"O União Brasil reconhece a competência e confia na capacidade de gestão da ministra do Turismo, Daniela Carneiro, a deputada federal mais votada do Rio de Janeiro. Uma escolha acertada do presidente Lula para conduzir a política de turismo no país rumo ao desenvolvimento econômico e social", afirma.

Nos bastidores, contudo, lideranças da sigla avaliam que a ministra não deve contar com o apoio do partido em caso de aumento da pressão pela demissão.