Ministra de Lula mantém elo político com outro miliciano preso no RJ

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 29.12.2022 - O presidente Lula (PT) ao lado da ministra do Turismo, Daniela Carneiro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 29.12.2022 - O presidente Lula (PT) ao lado da ministra do Turismo, Daniela Carneiro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Dois parentes de um ex-vereador preso sob acusação de integrar uma milícia ganharam cargos na Prefeitura de Belford Roxo (RJ), comandada por Wagner dos Santos Carneiro, o Waguinho (União Brasil), marido da ministra do Turismo, Daniela Carneiro (União Brasil).

A irmã e o pai do terceiro-sargento bombeiro Márcio Pagniez, o Marcinho Bombeiro, foram nomeados em dezembro de 2021 e agosto de 2022, respectivamente, após a prisão do parente, em outubro de 2019. Rosimery Pagniez, contudo, se apresenta desde setembro de 2021 como despachante nas redes sociais.

Os dois também tiveram participação ativa na campanha da ministra no ano passado e foram anfitriões de um comício no bairro em que, segundo o Ministério Público, atuava a chamada Tropa do Marcinho.

Marcinho Bombeiro era presidente da Câmara Municipal de Belford Roxo até setembro de 2019, quando foi denunciado sob acusação de homicídio e de liderar uma milícia que, de acordo com a Promotoria, agia "com extrema violência e ostentando armas de fogo de grosso calibre pela localidade".

Ele foi preso preventivamente no mês seguinte, em outubro de 2019, sob acusação de tentar matar testemunhas do homicídio pelo qual foi acusado. Meses antes das denúncias, ele gravou um vídeo em apoio à ministra, em sua primeira disputa por uma cadeira na Câmara dos Deputados.

A Prefeitura de Belford Roxo disse, em nota, que nada desabona a conduta de Rosimery e Aracimy, independentemente de "possíveis atos cometidos pelo parente". O município afirmou que a atuação como documentalista "pode ser exercida fora do horário de trabalho".

A ministra reafirmou, em nota, que "não compactua com qualquer ato ilícito e cabe à Justiça o papel de julgar e punir". "Por fim, esclarece que em sua campanha, em 2022, recebeu o apoio de milhares de eleitores em diversos municípios do estado."

A Folha de S.Paulo não conseguiu contato com a defesa do ex-vereador. Num dos processos a que responde, ele negou a autoria dos crimes.

Daniela Carneiro é alvo de pressão desde que a Folha mostrou o vínculo que seu grupo político mantém há ao menos quatro anos com a família de outro miliciano, o ex-PM Juracy Prudêncio, o Jura.

Ele atuou diretamente na campanha da ministra em 2018, quando já estava condenado a 26 anos de prisão por homicídio e associação criminosa, e por meio de sua mulher, Giane Prudêncio, no ano passado.

Daniela foi nomeada ministra como uma forma de contemplar a União Brasil e ampliar a presença feminina na montagem do governo.

Também foi uma retribuição pelo empenho dela e do marido na campanha do segundo turno em favor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O casal foi uma das poucas lideranças a apoiar abertamente o petista na Baixada Fluminense.

Daniela foi reeleita deputada federal como a mais votada no Rio de Janeiro. Como a Folha mostrou em outubro, a campanha dela foi marcada pelo apoio irregular de oficiais da Polícia Militar e pelo ambiente hostil e armado contra adversários políticos de sua base eleitoral.

Um dos atos de campanha deste ano de Daniela, em 6 de setembro do ano passado, ocorreu no bairro Andrade Araújo, em Belford Roxo.

Era neste bairro que, de acordo com o Ministério Público, o ex-vereador tinha uma milícia. O encontro teve como anfitriões Rosimery, Aracimy e Matheus Pagniez, irmã, pai e filho de Marcinho Bombeiro.

Após o contato da Folha, a ministra apagou o registro que havia feito do encontro em suas redes sociais. As fotos, porém, seguem disponíveis na página do deputado estadual Márcio Canella (União), com quem Daniela fez "dobradinha" nas eleições de 2018 e 2022.

Rose, como a irmã do ex-vereador é chamada, ocupava desde dezembro de 2021 o cargo de secretária-executiva da Secretaria de Saúde.

Dois meses antes da nomeação, ela divulgou em suas redes sociais a inauguração de um escritório para trabalhar como despachante do Detran-RJ. A página continua no ar com seu número de contato.

Aracimy, por sua vez, ganhou o cargo em setembro do ano passado, período da campanha eleitoral, como vigia da Secretaria de Educação.

Os dois foram exonerados no fim do ano passado por meio de um decreto no qual o prefeito dispensa todos os funcionários de cargo em comissão.

Antes dos dois, uma série de parentes de Marcinho Bombeiro também ocuparam cargos na prefeitura, como a cunhada Cristina e o irmão Alexandre. A própria Rose já havia trabalhado na prefeitura, entre 2015 e 2016. Nenhum deles é alvo de acusação criminal envolvendo o ex-vereador.

Nesta quinta, após contato da reportagem, a ministra também apagou vídeo no qual o miliciano preso declara voto nela nas últimas eleições.

A Promotoria afirma que Marcinho matou, junto com três comparsas em abril de 2017, dois homens por serem usuários de maconha.

De acordo com a polícia, em outubro de 2019, logo após ter sido denunciado, Marcinho Bombeiro tentou, junto com um policial militar, matar o irmão de uma das vítimas e dois amigos. Um deles foi baleado no rosto e fugiram ao saltar de uma ribanceira na cidade.

Entre o homicídio e a tentativa de assassinato, Marcinho se manteve como presidente da Câmara Municipal e atuou na campanha da ministra.

"Muito obrigada pelo apoio e confiança, meu amigo Marcinho Bombeiro, Presidente da Câmara Municipal de Belford Roxo. Juntos vamos mudar a realidade de toda a Baixada Fluminense, em especial da nossa querida cidade", agradeceu ela, em suas redes sociais.

Nada desabona conduta de parentes, diz prefeitura A Prefeitura de Belford Roxo disse, em nota, que Rosimery Pagniez "desempenhava a função de fiscalização em todas as unidades de saúde para dar suporte e atender às necessidades pendentes".

"Era o elo entre os administradores e a Secretaria Municipal de Saúde", diz a nota.

O município afirmou que Aracimy trabalhava como vigia. "Quanto aos possíveis atos cometidos pelo parente, nada desabona a conduta de Rosimery, que sempre teve atuação exemplar nos trabalhos exercidos na Prefeitura", disse a prefeitura.

"Sobre sua atuação como despachante documentalista, destaca-se que a função é de profissional liberal e pode ser exercida fora do horário de trabalho da Prefeitura."

A ministra reafirmou, em nota, que "não compactua com qualquer ato ilícito e cabe à Justiça o papel de julgar e punir". "Por fim, esclarece que em sua campanha, em 2022, recebeu o apoio de milhares de eleitores em diversos municípios do estado."

A Folha de S.Paulo ligou para Rosimery mas, ao se apresentar, a ligação foi interrompida e não foi possível mais contato. A reportagem não localizou Aracimy.