Ministra do Turismo de Lula fez campanha com policiais e declarou R$ 180 mil em dinheiro vivo

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A futura ministra do Turismo, Daniela do Waguinho (União Brasil), foi a deputada federal mais votada do Rio de Janeiro nesta eleição numa campanha em que contou com o apoio irregular de oficiais da Polícia Militar e com um ambiente hostil e armado contra adversários políticos de sua base eleitoral.

A escolha do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva foi feita após o empenho da deputada e de seu marido, o prefeito de Belford Roxo, Waguinho (União Brasil), em sua campanha no segundo turno.

O casal foi uma das poucas lideranças da Baixada Fluminense a apoiar abertamente o petista, num estado governado pelo até então bolsonarista Cláudio Castro (PL).

A deputada desbancou outros dois deputados com base eleitoral no Rio que estiveram cotados para assumir a pasta: Pedro Paulo (PSD-RJ) e Marcelo Freixo (PSB-RJ).

Pedro Paulo contava com o apoio do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), cidade em que o turismo é uma das principais atividades econômicas. Belford Roxo, base eleitoral de Daniela, nem sequer tem uma secretaria para tratar do tema --há um subsecretário ligado à Secretaria de Cultura.

Formada em pedagogia, Daniela foi professora de ensino fundamental na rede pública do Rio de Janeiro e secretária de Assistência Social em Belford Roxo. Foi eleita deputada federal pela primeira vez em 2018 com sua base política fortemente atrelada ao marido.

Em seu primeiro mandato na Câmara, contrariou o MDB, ao qual era filiada, para se alinhar ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

Ela o apoiou na eleição para o cargo e na votação da PEC dos Precatórios. Dias depois da aprovação da proposta, Waguinho publicou vídeo nas redes sociais afirmando que Lira "garantiu mais recursos" para o município a pedido de sua mulher.

Neste ano, Daniela declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio R$ 733 mil, sendo R$ 180 mil em dinheiro vivo.

Na campanha, chamou a atenção de aliados de Lula por seu desempenho no palanque. No ato em Belford Roxo durante o segundo turno, sua fala foi considerada mais forte do que a do próprio Waguinho. Ela sinalizou para o eleitorado feminino e evangélico, um dos focos da campanha petista na ocasião.

"A gente tem que respeitar a opinião das pessoas. Respeitar aquele que não tem a mesma fé que a gente, que gosta de outra denominação. A gente respeita. Não estamos aqui para ser intolerantes", disse ela no estádio do clube Atlético Heliópolis.

Ela fez críticas a Bolsonaro, se queixou da falta de atenção dele e disse ao presidente eleito que não exigia "tapete vermelho" para ser recebida no Planalto.

"O machismo ainda impera, mas tenho certeza que no governo do Lula vai ser diferente. Ele respeita as mulheres. Eu não preciso implorar ao presidente da República para me receber para eu defender os interesses do estado do Rio de Janeiro. Eu nunca fui recebida pelo presidente da República. Ele sequer me deu atenção. Acredito, presidente Lula, que o senhor vai me receber de forma diferenciada. Não quero tapete vermelho, só quero atenção."

O discurso foi feito após Daniela obter 213,7 mil votos para a Câmara dos Deputados. Ela superou o general Pazuello (PL-RJ), ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, em pouco mais de 8 mil votos.

A futura ministra obteve mais da metade de seus votos (114 mil dos 213 mil) em Belford Roxo, superando inclusive os 97 mil votos de Lula no município. A cidade administrada pelo marido deu a ela 49% dos votos válidos dados a candidatos a deputado federal.

Como a Folha de S.Paulo mostrou em outubro, a campanha na cidade foi marcada pelo ambiente hostil, que teve seu auge num confronto no bairro Roseiral, no qual homens armados, entre eles um segurança de Waguinho, expulsaram militantes de uma candidata do local.

Waguinho negou, em nota, ter cerceado a campanha de adversários. Daniela não retornou aos contatos feitos por meio de sua assessoria de imprensa na ocasião da reportagem.

A Procuradoria Regional Eleitoral investigou o caso, mas o arquivou após não conseguir reunir provas até o último dia 16, data limite para ajuizamento de acusações eleitorais.

Os relatos de intimidações na cidade mais claros foram feitos pela ex-deputada Sula do Carmo (Avante), ex-vice-prefeita da cidade. Ela afirma que sofreu retaliação desde julho, quando anunciou sua pré-candidatura, tendo como auge o conflito no Roseiral, na última semana de setembro.

"Apareceram uns trogloditas e foi uma coisa horrível. Participo de política na cidade há 33 anos e nunca vi uma coisa dessa. Saíram mais de 30 homens armados indo para cima das meninas que faziam campanha para mim. Foi uma correria, e uma grávida perdeu o bebê", disse a ex-deputada.

Imagens do dia do tumulto mostram homens vestidos de preto e armados andando em grupo agredindo militantes de Sula. Ao fundo, estava um caminhão de som de Daniela do Waguinho.

Um dos envolvidos na confusão é o policial militar Fábio Sperendio, assessor de Canella que também atua como segurança do prefeito de Belford Roxo.

A limitação à campanha de Sula se tornou mais evidente em maio, quando o prefeito desapropriou o galpão que sempre usou em suas campanhas eleitorais. Houve a tentativa de tomar posse do imóvel na véspera do evento de lançamento da candidatura da ex-deputada, em julho.

"O prefeito quer o monopólio da cidade. Eu evitei fazer política lá porque ele sempre mandava equipe para perseguir. Ficava mandando recados de que não podia entrar lá. Comerciante que colocasse adesivo meu ele mandava fechar", disse a ex-deputada.

No palanque de Lula, Daniela respondeu de forma indireta às acusações. "Não foi voto comprado, foi voto conquistado. Eu conquistei o respeito de todos vocês. Não só de Belford Roxo, mas de todo o Rio de Janeiro."