Berço político de Lula, São Bernardo do Campo vira refúgio contra prisão

Nayara Batschke e Alba Santandreu.

São Bernardo do Campo (SP), 6 abr (EFE).- O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, berço político de Luiz Inácio Lula da Silva, virou um refúgio para o ex-presidente, que segundo aliados continua "sereno", apesar de sua iminente prisão.

Em um momento crucial para seu futuro, Lula retornou às origens, o sindicato, e lá passou a noite, cercado de amigos, familiares, correligionários e militantes, todos em vigília desde que a prisão do ex-presidente foi decretada pelo juiz federal Sergio Moro.

Lula despontou como líder sindical na década de 1970 e começou a formar o Partido dos Trabalhadores (PT), que hoje pode ver sua principal liderança na prisão se os advogados do ex-presidente não conseguirem bloquear a decisão de Moro no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Acompanhado pelos filhos, Lula passou a noite recebendo amigos e simpatizantes. Pouco depois das 2h, foi para sala presidencial do sindicato. O ex-presidente reapareceu às 7h, fazendo inclusive brincadeiras, segundo fontes próximas a ele.

Lula pouco apareceu para os militantes desde a chegada ao sindicato, mas na noite de ontem foi a uma janela para cumprimentar as pessoas que foram ao local apoiá-lo.

"Comecei minha militância no PT e considero Lula meu líder. Ele representa esperança, educação, saúde, geração de emprego. É um divisor de águas na história desse país", afirmou Solange Kaziyama em entrevista à Agência Efe.

Para a vendedora ambulante Marilda Pereira, Lula representava o "governo do povo". "Eu gostaria que ele voltasse porque é preciso dar oportunidades ao povo também", afirmou.

Lula recebeu militantes no interior do sindicato, mas ainda não se dirigiu publicamente aos manifestantes que estão em São Bernardo do Campo. Alguns deles expressaram desânimo pela falta de notícias sobre o ex-presidente.

Em São Bernardo do Campo, o ex-torneiro mecânico que chegou ao Planalto liderou uma greve em 1980 que o colocou na prisão por 31 dias, um período que "revelou" o animal político no qual Lula se transformou anos depois, chegando a ser considerado como um dos presidentes mais populares do mundo quando deixou o governo.

A cidade de classe média no cinturão industrial de São Paulo, onde Lula vive, também se transformou em refúgio nos últimos meses, à medida que o cerco judicial foi ficando mais estreito.

Lula assistiu no sindicato ao julgamento do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) que o condenou a 12 anos e um mês de prisão. Na quarta-feira, também acompanhou do local o julgamento do habeas corpus apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF).

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC também foi o primeiro lugar para onde Lula foi depois de Moro ter decretado sua prisão ontem.

"Eu sou totalmente contrário a isso (violência), porque, no fim, é destilar ódio da mesma maneira que eles fazem conosco", disse Leônidas Telles, um dos fundadores do Movimento dos Sem-Terra (MST) no Paraná.

Faltando pouco para o fim do prazo para se entregar, Lula ainda avalia se irá se entregar à Polícia Federal ou se esperará que os agentes o busquem na porta do sindicato. EFE