Ministro argentino da Fazenda, Nicolás Dujovne, renuncia

O ministro da Fazenda da Argentina Nicolás Dujovne em foto de 17 de abril de 2019

O ministro argentino da Fazenda, Nicolás Dujovne, renunciou ao cargo no sábado (17) e será substituído por Hernán Lacunza, depois de uma semana negra para a economia, com queda da moeda e da Bolsa, em reação à derrota nas urnas do presidente liberal Mauricio Macri.

Dujovne ocupava a pasta desde janeiro de 2017.

Na carta de renúncia, Dujovne se disse "convencido de que, em virtude das circunstâncias, a gestão (do governo) precisa de uma renovação significativa na área econômica".

Ele deixa o cargo em meio a um aprofundamento da crise econômica na Argentina, após as eleições primárias de domingo passado.

A chapa do opositor Partido Justicialista, liderado por Alberto Fernández e que traz a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner como candidata a vice, obteve quase a metade dos votos nestas eleições obrigatórias, destinadas a confirmar as chapas para a disputa presidencial em outubro. O atual presidente obteve pouco mais de 32%.

"Minha renúncia é coerente com o pertencimento a um governo e espaço político que ouve o povo e que age de acordo com isso", afirmou Dujovne, em uma clara mensagem ao eleitorado argentino, faltando mais de dois meses para as presidenciais de 27 de outubro.

Depois desses resultados, que derrubaram a Bolsa de Buenos Aires em mais de 30% e fizeram o peso despencar 20%, em meio a temores nos mercados de que a Argentina declare uma moratória, Macri decretou um conjunto de benefícios salariais e cortes nos impostos. Tenta, com isso, aliviar a classe média, que sofre com as medidas de ajuste pactadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

- Saída do 'guardião' do FMI

"Está claro que a substituição obedece ao fato de Dujovne ser o 'guardião' do plano de austeridade fiscal acordado com o FMI, plano que foi derrotado nas urnas no domingo passado", disse à AFP o economista Matías Carugati, da consultoria Management & Fit.

"Esta semana já houve mudanças nesse plano, com medidas de expansão do gasto público para amenizar o impacto da desvalorização e tentar reverter a situação econômica e política", acrescentou.

Lacunza era, até agora, ministro da Economia da província de Buenos Aires, governada por María Eugenia Vidal. Também foi gerente do Banco Central entre 2005 e 2010, nos governos de Néstor e Cristina Kirchner.

Sua nomeação foi anunciada em um breve comunicado divulgado pela Presidência. Esta é a primeira mudança ministerial desde a derrota de Macri.

Para o analista político Carlos Fara, a saída de Dujovne é "natural, porque seu esquema econômico foi muito questionado".

"Agora o governo vai jogar de outra forma. São dez semanas até a eleição, motivo pelo qual o equilíbrio fiscal já não atende mais. É melhor pedir perdão ao Fundo Monetário do que tentar cumprir (o acordo) com o Fundo, perdendo a eleição", disse Fara à AFP.

Antes de Dujovne, Alfonso Prat Gay já renunciado ao cargo de ministro da Fazenda e das Finanças em dezembro de 2016.

- Golpe nos índices -

A semana que passou não foi fácil para a economia argentina.

As classificadoras de risco Fitch e S&P rebaixaram as notas das emissões da dívida argentina na sexta-feira.

A Fitch a reduziu em dois níveis, de "B" para "CCC", uma categoria que indica possibilidades de "default", ou de suspensão de pagamentos.

"O corte da nota da Argentina reflete uma elevada incerteza política depois das eleições primárias de 11 de agosto, um severo endurecimento das condições financeiras e a esperada deterioração do ambiente macroeconômico que aumenta a possibilidade de um 'default' da dívida soberana, ou de uma reestruturação de algum tipo", destacou.

Segundo a agência de classificação, as eleições primárias ressaltaram os riscos de uma descontinuidade das políticas econômicas após as eleições gerais de outubro.

A S&P reduziu a nota em um nível, passando-a de "B" para "B-".

"A pronunciada turbulência do mercado financeiro, com uma depreciação significativa do peso argentino e uma retomada das taxas de juros, após as eleições primárias de domingo passado na Argentina, debilitou significativamente o já vulnerável perfil financeiro" do país, explicou a agência, ao justificar sua decisão.

O novo ministro da economia terá a difícil tarefa de tentar trazer alguma tranquilidade aos mercados e lidar com um país em recessão.

Também deverá convencer o FMI a desembolsar as próximas parcelas do crédito de 56 bilhões de dólares que o governo negociou em busca de estabilizar o mercado cambial do país.

A Argentina tem 32% da população abaixo da linha da pobreza e uma inflação anual de mais de 50%.