Ministro da Casa Civil ganha protagonismo na crise do coronavírus

Gabriela Goulart
General Braga Neto

No diagnóstico do Exército, o momento é outro no que diz respeito ao coronavírus no Brasil: passou da prevenção ao “combate ao contágio’’. O termo já demonstra como as Forças Armadas estão ganhando protagonismo na crise em que o governo federal se viu mergulhado diante da pandemia.

Na segunda-feira, em reunião com governadores do Norte e do Nordeste, o presidente Jair Bolsonaro comunicou que o general Walter Braga Netto, titular da Casa Civil, vai coordenar e centralizar as ações em torno do assunto. No mesmo dia, na entrevista de rotina realizada para atualizar números no país, ele falou pela primeira vez, ao lado do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Até o último sábado, apenas Mandetta conduzia os comunicados das ações do governo federal. O protagonismo do ministro incomodou Bolsonaro, especialmente quando Mandetta concedeu entrevistas ao lado do governador de São Paulo, João Doria, rival declarado do presidente.

Cabeça da Intervenção Federal no Rio de Janeiro, Braga Netto foi nomeado ministro em fevereiro e ainda não havia tido um papel de destaque no governo. Sob seu chapéu, está o Gabinete de Crise, para onde destacou nomes de sua confiança. São eles que tocam reuniões diárias, sempre às 10h, com representantes executivos de todos os ministérios envolvidos. A ideia é unificar o discurso, “evitando disse-me-disse’’, como contou um dos participantes.

Para evitar o risco de contágio, já que são muitos os casos positivos para coronavírus após a viagem da comitiva presidencial aos Estados Unidos, os encontros têm acontecido em salas separadas, com o uso de ferramentas de videoconferência. Ao fim, relatórios são feitos e enviados a Braga Netto. Os trabalhos geralmente começam pela pasta da Saúde, seguida da Economia e da Defesa.

De lá têm saído as decisões. Uma delas é o destacamento de uma equipe para atuar no diagnóstico e equipamento dos hospitais federais do Rio. Segundo avaliação do Gabinete de Crise, a situação do sistema público no Rio é bem pior do que a do de São Paulo, outro foco da Covid-19 no país. A recondução ao país de brasileiros que estão no exterior é outra questão de peso.

A pedido de Bolsonaro, que hoje falará com chefes do Executivo dos estados de Sul, Sudeste e Centro-Oeste, os governadores foram orientados a encaminhar suas demandas ao comandante do Gabinete de Crise, que tentará pacificar a relação do presidente com os estados.

— Cada um vai mandar suas propostas para que Braga Netto faça um decreto nacional atendendo os estados — contou o governador da Bahia, Rui Costa (PT), após reunião com governadores do Nordeste. — A sugestão é para que ao invés do governo conflitar com governadores, que faça uma coordenação nacional.

Diretrizes para a conduta das Forças Armadas também têm tido espaço nas discussões do gabinete, levando-se em consideração o DNA militar da Casa Civil. Hospitais de campanha já entraram na pauta. Uma das possibilidades é a instalação de um deles na UFRJ, que já teria oferecido espaço. Segundo uma fonte do Exército, a aplicação de operações de GLO (Garantia da Lei e da Ordem) não foram descartadas, “embora não se espere que chegue a esse ponto’’. O recurso foi usado recentemente durante a crise de segurança pública no Ceará e no combate às queimadas na Amazônia.

O Exército já estabeleceu protocolos de atuação na contenção do contágio no país. Aproveitando a estrutura existente, o país foi dividido em dez Comandos Conjuntos (São Paulo; Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo; Bahia; Piauí, Ceará, Pernambuco, Alagoas e Sergipe; Rio Grande do Norte e Paraíba; Goiás, Tocantins e Distrito Federal; Amapá, Pará e Maranhão; Acre, Amazonas, Roraima e Rondônia; Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; e Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Cada um deles vai coordenar “a sinergia entre as três Forças’’ (Exército, Marinha e Aeronáutica), como explica o Centro de Comunicação Social do Exército. O documento do Ministério da Defesa intitulado Operação Covid-19 inclui ainda a criação de um Comando de Operações Aeroespeciais.

Por ora, três pilares sustentam a ação dos Comandos Conjuntos. Apoio às ações federais encabeça a lista. O tópico inclui controle de passageiros e tripulantes em aeroportos e portos; patrulha no acesso às fronteiras; suporte logístico com meios de transporte, campanhas de conscientização e alojamentos para equipes (incluindo agentes da PF e da PRF). O segundo ponto contempla unidades especializadas para a descontaminação de pessoal e ambientes. A determinação é botar em campo os mesmos profissionais que acompanharam os brasileiros trazidos de Wuhan, epicentro do surto de coronavírus na China. O último item diz respeito à montagem de postos de triagem e hospitais de campanha.

O Exército também preparou um manual interno a ser seguido por todos os militares, cerca de 220 mil em todo o país. Há detalhes como orientação de desinfecção de patas de animais de estimação após passeios e separação de camas em alojamentos. (Colaborou Naira Trindade)