Ministro da Previdência, Carlos Lupi chamou os holofotes e produziu uma crise

Brazil's former President and presidential candidate Luiz Inacio Lula da Silva embraces Carlos Lupi, president of PDT party of candidate Ciro Gomes in Sao Paulo, Brazil, October 5, 2022. REUTERS/Amanda Perobelli
Lula com seu ministro da Previdência, Carlos Lupi. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Carlos Lupi, presidente do PDT que lançou Ciro Gomes como candidato ao Planalto e se aliou a Lula (PT) no segundo turno, queria um ministério de “ponta” e recebeu uma bucha na distribuição de cargos do novo governo.

Para ser uma pasta de "ponta", um ministério não precisa só de orçamento, embora este seja quase sempre o critério principal da cobiça.

Precisa ter visibilidade e prestígio.

Há pastas que tem as duas coisas sem contar com um caminhão de recursos.

Há pastas que têm recursos, prestígio e visibilidade.

Há as que possuem só recursos.

E tem o Ministério da Previdência.

Se o governo fosse uma churrascaria, Lupi passou longe da picanha no rodízio. Ficou com o javali, aquela peça que todo mundo conhece e ninguém quer saber –como bem mostrou um antigo esquete do coletivo Porta dos Fundos.

Enquanto colegas de ministério brilhavam em suas posses como líderes de questões com mais apelo e engajamento, como meio ambiente, direitos humanos, cultura, política e economia, Lupi, em sua estreia, estava fadado a falar sozinho para uma audiência tão interessada em saber sobre futuro e aposentadoria, dois assuntos que quase sempre deixamos para depois, quanto em receber uma ligação do vendedor do plano funerário.

O pior é que poucos temas são mais importantes para o país hoje, que vê a população economicamente ativa envelhecer e a taxa de natalidade, diminuir.

Como, então, conseguir atenção?

“Já sei”, deve ter pensado o novo ministro.

Foi então que ele foi a público chamar a reforma da Previdência, aprovada no muque durante a última gestão, de antireforma e deixar a entender que ela poderia ser revista.

Lupi prometeu mostrar que a Previdência não era deficitária, deixando de cabelo em pé os entendidos em contas públicas, que passaram a desconfiar que o pedetista não entendia do assunto para o qual deverá cuidar daqui em diante. Houve quem o chamasse de terraplanista previdenciário.

Esses especialistas calculam que o déficit da Previdência seja de R$ 247 bilhões, e chega a R$ 361 bilhões levando-se em conta pagamento de pensões e de militares inativos.

Como o Tesouro é superavitário, o que Lupi propõe, na definição de Fabio Giambiagi, pesquisador da FGV, é tirar o dinheiro do bolso esquerdo e colocá-lo no direito –uma solução simples para um problema complexo.

Com a declaração, Lupi conseguiu jogar para seu quintal os holofotes que ele não tinha, nem deveria ter, em dias de atenções disputadas com Marina Silva, Silvio de Almeida, Margareth Menezes e grande elenco.

Conseguiu apenas a atenção de investidores, que se movimentaram e fizeram a Bolsa cair e o dólar, subir.

Isso enquanto, no ministério ao lado, Luiz Marinho assumia o gabinete do Trabalho em meio a expectativas (leia-se receio) de que a gestão Lula promova mudanças drásticas na reforma trabalhista.

Lupi foi desautorizado por Rui Costa, novo chefe da Casa Civil, e precisou recuar. Disse que a discussão sobre possível revisão, se houver, é apenas pontual.

Ele e o mercado sabem, ou deveriam saber, que Lula, mesmo que queira, não tem capital político nem base no Congresso para emplacar uma mudança dessa envergadura na Previdência. Mas a confusão estava armada.

Para evitar novos ruídos, Lula promete convocar uma reunião de alinhamento, logo na primeira semana de trabalho, para combinar o básico: ninguém mais anuncia nada sem antes combinar com o chefe.

Parece coisa simples, mas não é.

Lula fatiou seu governo em 37 ministérios e não vai ser fácil ouvir um a um (ou uma a uma) antes e toda vez que alguém precisar emitir qualquer palavra ou opinião.

Todos ali querem um naco do holofote por motivos diversos.

Os de Lupi, um político escalado num cargo técnico e altamente burocratizado (o javali do churrasco), concentram-se nas próximas eleições. Eis a primeira conta que não fecha no Ministério da Previdência.