Ministro das Relações Exteriores renuncia sob críticas por falta de vacinas, diz fonte

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O chanceler Ernesto Araújo apresentou sua renúncia nesta segunda-feira (29) em meio a uma onda de críticas que atribuem a seus enfrentamentos com a China a dificuldade do Brasil em comprar vacinas e suprimentos anticovid, informou uma fonte do governo Jair Bolsonaro.

Araújo "tomou a decisão e apresentou a renúncia", afirmou a fonte, que pediu anonimato à AFP.

Bolsonaro ainda deve aceitar o pedido e, se o fizer, indicar um sucessor. A renúncia de Araújo acontece duas semanas depois do anúncio de saída do então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, em meio à significativa piora da pandemia que já deixou mais de 312 mil mortos, balanço superado apenas pelos Estados Unidos.

Araújo, de 53 anos, é um dos principais representantes da 'ala ideológica' do governo, em uma cruzada contra o "marxismo cultural" e o "globalismo", personificados pela "ideologia das mudanças climáticas", "ideologia de gênero" e, desde o último ano, pelo "comunavírus", segundo suas próprias definições.

- Alinhado com Trump -

Desde o início de seu governo, em janeiro de 2019, Araújo optou por um alinhamento automático com a diplomacia do ex-presidente americano Donald Trump, a ponto de o Brasil ser o último país do G20 a reconhecer a vitória de Joe Biden nas eleições americanas.

Esse alinhamento foi visto principalmente em suas polêmicas com a China (principal parceira comercial do Brasil), que prejudicou o lobby do agronegócio brasileiro.

Pouco antes de assumir o cargo, Araújo definiu sua missão como "resistir à China maoísta, que dominará o mundo".

No ano passado, ele saiu em defesa do deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, criticado pelo embaixador chinês em Brasília por ter afirmado que o Brasil buscará "uma aliança global para um 5G seguro, sem espionagem da China".

Seus críticos culpam essas atitudes por grande parte dos atrasos na obtenção de suprimentos de vacinas contra a covid-19.

Segundo fontes diplomáticas, a Índia, outro grande produtor de vacinas e integrante do grupo de países emergentes BRICS, também se incomodou com a recusa do Brasil em aderir às propostas de Nova Délhi de quebrar as patentes dos grandes laboratórios que fabricam vacinas contra o novo coronavírus.

A vacinação no Brasil, iniciada em janeiro, teve várias interrupções. Até o momento, apenas 13,6 milhões de pessoas foram vacinadas com a primeira dose e 4 milhões com a segunda, em um país com 212 milhões de habitantes.

A doença, por sua vez, causa estragos com uma média de quase 2.600 mortes diárias nos últimos sete dias, quase quatro vezes o número do início do ano.

Araújo também se aliou a Trump nas tentativas de destituir o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Essa posição incomodou bastante o Itamaraty, por causa do rompimento com o tradicional papel da diplomacia brasileira como mediadora de conflitos na região.

"A causa mais importante para a queda do ministro foi a dificuldade brasileira de acesso às vacinas", disse Mauricio Santoro, internacionalista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), à AFP.

"Mas também pesaram muito fatores como conflitos sobre meio ambiente e suas dificuldades de diálogo com os principais parceiros comerciais do Brasil: China, EUA, Argentina, União Europeia", avaliou.

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