“Ministro do Meio Ambiente não respeita nosso modo de vida”, diz liderança indígena na COP 25

Papel das comunidades tradicionais nas mudanças climáticas é um dos temas da Cúpula do Clima que acontece em Madri, na Espanha (Foto: Adriano Machado/ REUTERS)
Papel das comunidades tradicionais nas mudanças climáticas é um dos temas da Cúpula do Clima que acontece em Madri, na Espanha (Foto: Adriano Machado/ REUTERS)

Texto / Nataly Simões, de São Paulo (SP) e Pedro Borges, de Madri (Espanha) | Edição / Simone Freire

Com a violação de direitos e o crescente número de assassinatos de líderes de comunidades tradicionais no país, Erisvan Guajajara, um dos líderes do povo Guajajara no Maranhão, avalia que Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, não respeita as comunidades indígenas.

“O ministro segue as ordens do presidente Jair Bolsonaro e não respeita o nosso modo de vida, que garante a proteção do meio ambiente. Neste governo, já vimos diversas declarações de que a Amazônia vai ser mesmo explorada por causa do interesse nas riquezas naturais”, diz.

A afirmação foi feita em entrevista exclusiva ao Alma Preta na edição deste ano da Cúpula do Clima (COP 25). O encontro encabeçado pela Organização das Nações Unidas (ONU) começou na segunda-feira (2) e se estende até 13 de dezembro, em Madri, na Espanha.

Segundo Guajajara, a conservação do modo tradicional de vida dos indígenas deveria ser uma das prioridades das governanças do Meio Ambiente. O líder do povo guajajara sustenta que vidas são perdidas em nome do capitalismo.

“Nós estamos há 519 defendendo nosso território, que é um bem para o planeta e para toda a sociedade. Em nome do que chamam de desenvolvimento capitalista, estamos morrendo. A gente se pergunta “quem será o próximo?”. Às vezes, dá medo de sair de casa, mas não vamos recuar porque a terra é como se fosse a nossa mãe”, pontua.

De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), os conflitos de terra resultaram em 43 assassinatos de indígenas do povo Guajajara entre 2000 e 2019. Entre as mortes mais recentes está a de Paulo Paulino Guajajara, assassinado com um tiro no pescoço em 1º de novembro deste ano.

Alvo de críticas em todo mundo devido à sua política ambiental, o presidente Jair Bolsonaro está ausente da COP 25. No seu lugar, para representar a delegação brasileira está o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ao jornal El País, o ministro disse buscar investimentos de outros países para a Amazônia. A expectativa do governo brasileiro é de que a Europa libere a compra dos direitos de emissão de carbono.

Salles também disse que respeita as decisões dos povos indígenas, mas não de grupos que decidem em nome deles. Sem citar nomes, o ministro afirmou que representantes políticos, organizações civis e religiosas têm tomado decisões pelos indígenas.

Direitos humanos ameaçados no Acordo de Paris

A Cúpula do Clima acontece, normalmente, uma vez por ano com representantes de quase 200 países para discutir as mudanças climáticas. O Acordo de Paris obriga todos os países a fazer cortes nas emissões de gases e efeito estufa.

Nesta edição, a possibilidade de retirada dos direitos humanos do documento que formaliza o acordo é uma preocupação dos movimentos em defesa das comunidades tradicionais, como indígenas e quilombolas.

Para Taily Terena, representante da Coordenação Nacional de Mulheres Indígenas (CONAMI), o problema é que grande parte dos países avaliam que os direitos humanos não têm relação com as mudanças climáticas.

“Os povos tradicionais devem estar no centro do debate sobre as mudanças climáticas porque, segundo a própria ONU, mais de 80% do território de biodiversidade do planeta é preservado por 4% da população mundial, que são os indígenas. Aqui [na COP] criamos uma plataforma de comunidades tradicionais que depende da aprovação dos países participantes. Esperamos conseguir manter os direitos humanos no acordo”, argumenta.

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