Ministro extremista de Israel visita Esplanada das Mesquitas em Jerusalém

Cinco dias após Israel empossar o governo mais de direita da sua História, o extremista Itamar Ben-Gvir escolheu como um de seus primeiros atos à frente do Ministério de Segurança Nacional fazer uma visita à Esplanada das Mesquitas, na Cidade Velha de Jerusalém. Sagrado para judeus e muçulmanos, o local é um barril de pólvora onde o menor incidente provoca tensões, e a ida do aliado do premier Benjamin Netanyahu ocorreu apesar de alertas para possíveis repercussões violentas.

A visita em si durou cerca de 15 minutos, ocorreu sem maiores incidentes, e com um forte aparato de segurança para acompanhar o ministro, defensor da deportação de árabes que sejam "desleais". A Chancelaria palestina, contudo, condenou-a como uma “provocação sem precedentes” e disse que Netanyahu é responsável por um “ataque flagrante” à região sagrada.

Já o Hamas, o grupo islamista que governa a Faixa de Gaza e com quem Israel lutou várias guerras nos últimos anos — a grande crise mais recente, em 2021, deixou mais de 300 mortos em duas semanas — acusou Ben-Gvir de "pôr lenha na fogueira" e "profanar e assaltar a bendita mesquita de al-Aqsa", pedindo para que os jovens palestinos da cidade atuem para impedir isso.

O ministro é a autoridade de maior escalão a visitar o local em anos e uma das maiores forças em ascensão na política israelense. Na véspera, Netanyahu se reuniu com ministros da área de segurança para avaliar os riscos da visita, mas, para evitar uma concessão ao Hamas, soltou uma nota dizendo que não havia pedido Ben Gvir para não ir.

— Nosso governo não se renderá às ameaças do Hamas — disse o líder do partido de extrema direita Força Judaica, que já foi condenado por incitação ao racismo e por apoiar um grupo considerado por Israel e pelos EUA como uma organização terrorista.

O porta-voz da Jihad Islâmica em Gaza, organização palestina que em agosto travou hostilidades com Israel que deixaram 44 mortos, disse no domingo que uma visita "explodiria a situação e abriria a porta a outra Intifada", convocando quem pudesse para ir ao local tentar impedi-la. Ele referia-se a um episódio de setembro de 2000, tido como um dos estopins da Segunda Intifada, revolta palestina contra a ocupação israelense.

Na ocasião, uma visita de Ariel Sharon, então líder da oposição israelense, cercado por centenas de policiais em equipamentos de guerra, foi entendida como uma provocação pelos palestinos. No dia seguinte, embates sangrentos ocorreram entre os palestinos e a polícia de Israel, os quais deixaram sete mortos a tiros entre os manifestantes, dando início à Segundo Intifada.

Os judeus chamam a Esplanada das Mesquitas de Monte do Templo, lugar mais sagrado para a religião porque seus fiéis creem que lá estava localizado o segundo templo, destruído pelos romanos. Para os muçulmanos, contudo, o local só perde em importância para Meca e Medina, na Arábia Saudita.

Na Esplanada, que se estende por 140.000 m² na parte alta da Cidade Velha de Jerusalém, ficam as mesquitas de al-Aqsa e o Domo da Rocha, de onde Maomé teria subido aos céus. Frente às tensões históricas, os jordanianos, que são os zeladores dos locais religiosos de Jerusalém, determinaram que turistas não muçulmanos — incluindo judeus — podem entrar na Esplanada, mas não podem rezar por lá.

O arranjo vale desde o fim da Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel ocupou a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, setor árabe da cidade reivindicado pelos palestinos como capital de um futuro Estado.

Graças ao arranjo, os judeus rezam no Muro das Lamentações, contíguo à Esplanada, como recomendado pelo Rabinato-chefe de Israel. Nos últimos anos, contudo, alguns rabinos passaram a defender que os fiéis rezem no Monte do Templo, algo que Ben-Gvir não fez durante sua visita, mas costumava fazer antes de se tornar ministro.

O ministro, cujas atribuições incluem coordenar a polícia responsável por garantir que o veto à oração é respeitado pelos judeus, já indicou ser favorável ao fim da proibição, mesmo que venha sendo mais vago sobre o assunto desde que se aliou a Netanyahu.

— O Monte do Templo é o lugar mais importante para o povo de Israel. Nós mantemos liberdade de movimento para muçulmanos e cristãos, mas os judeus também vão lá, e aqueles que fazem ameaças devem ser respondidos com pulso firme — disse Ben-Gvir na Esplanada.

Em seu Twitter, o ministro disse que o “Templo do Monte está aberto para todos” e que “se o Hamas acha que pode me deter com ameaças, deveria entender que os tempos mudaram” e que “há um governo em Jerusalém”.

O rei da Jordânia, Abdullah II, disse em uma entrevista à CNN no mês passado que está pronto para "um conflito" se os israelenses tentarem mudar o status do local. Após a visita, sua Chancelaria emitiu uma nota "condenando nos termos mais severos a invasão da mesquita de al-Aqsa e a violação de sua santidade", afirmando que a visita violou a lei internacional e "o status quo legal e histórico em Jerusalém".

No mês passado, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, disse que os americanos, principais aliados de Israel, se "oporiam inequivocamente a quaisquer atos que minem as perspectivas para uma solução de dois Estados". Os americanos não se pronunciaram sobre o episódio mais recente desde então.

A imprensa israelense havia noticiado nos últimos dias que Ben-Gvir desejava ir à Esplanada das Mesquitas nesta terça, dia em que os judeus mais conservadores jejuam e fazem peregrinações a Jerusalém.

Em maio de 2021, confrontos entre a polícia israelense e fiéis muçulmanos em al-Aqsa terminaram em 11 dias de confrontos entre os israelenses e o Hamas, que deixaram mais de 300 mortos — quase todos no enclave de Gaza. Rusgas em abril deste ano também fizeram foguetes serem lançados de Gaza em abril deste ano, supostamente pela Jihad Islâmica.

A volta de Netanyahu ao poder após um interregno de 18 meses prenuncia meses difíceis para a situação israelo-palestina, particularmente frente às promessas de aumentar os assentamentos na Cisjordânia ocupada, considerados ilegais pelo direito internacional. Na segunda, dois palestinos morreram durante uma operação para destruir as casas de duas pessoas supostamente envolvidas em um ataque contra um comandante israelense.