Ministros de Bolsonaro usam dados do Banco Mundial para enganar sobre extrema pobreza

Favela do Coelho nas margens do rio Capibaribe, em Recife (PE), em 10 de setembro de 2022 (Foto: AFP via Getty Images / Nelson Almeida)
Favela do Coelho nas margens do rio Capibaribe, em Recife (PE), em 10 de setembro de 2022 (Foto: AFP via Getty Images / Nelson Almeida)

Publicações com dados do Banco Mundial sobre uma queda na taxa da extrema pobreza no Brasil obtiveram mais de 320 mil interações no Twitter desde a segunda-feira (7). De acordo com os tuítes, o presidente Jair Bolsonaro (PL) seria o responsável por uma queda histórica no índice de extrema pobreza no Brasil por conta do Auxílio Emergencial pago durante a pandemia de covid-19.

De fato, o Banco Mundial apontou uma queda temporária na extrema pobreza em 2020, em comparação com 2019 – primeiro ano de governo de Bolsonaro. Contudo, a própria instituição alertou sobre um possível crescimento do índice em 2021 para um patamar maior do que o de 2019, informação que tem sido omitida por seus apoiadores.

Dentre os usuários que compartilharam o conteúdo enganoso, estão ministros de estado, como Ciro Nogueira, da Casa Civil; Fábio Faria, das Comunicações; e Marcos Montes, da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A reportagem do Yahoo! Notícias entrou em contato com os ministros citados, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. O texto poderá ser atualizado caso algum posicionamento seja enviado.

O que diz o Banco Mundial?

De acordo com o relatório Pobreza e Prosperidade Compartilhada 2022, do Banco Mundial, enquanto a extrema pobreza avançou no mundo em 2020, no Brasil a taxa recuou.

Os números demonstram que em 2020 a pandemia levou cerca de 70 milhões de pessoas para essa situação no mundo. Já no Brasil, os dados indicam que naquele ano havia 1,9% da população na extrema pobreza, o que representa 4,1 milhões de pessoas. Em 2019, eram 5,4%, o que totaliza 11,4 milhões de pessoas. Os cálculos foram feitos pelo Banco Mundial com base em informações do IBGE.

Contudo, no mesmo documento, o Banco Mundial alerta para um crescimento da pobreza em 2021. Isso teria sido causado pela redução no valor dos auxílios, além da dificuldade de recuperação plena do mercado. A estimativa do Banco Mundial é de que em 2021, havia 5,8% de brasileiros na extrema pobreza, número que supera os 5,4% de 2019. A previsão para 2022 já é um pouco menor, de 5,1%.

Um artigo do Coordenador Setorial de Desenvolvimento Humano do Banco Mundial para o Brasil, Pablo Acosta evidenciou que o recuo mais notável foi temporário: "Apesar da pobreza extrema no Brasil ter caído temporariamente para 1,9% em 2020 - uma das taxas mais baixas da região da América Latina e Caribe - estima-se que ela tenha voltado a atingir 5,8% em 2021", escreveu ele. O artigo foi escrito em colaboração com Gabriel Lara Ibarra, economista sênior do Banco Mundial,

Ao Yahoo! Notícias, ​​Ibarra explicou que "a publicação das taxas de pobreza com base nas linhas de pobreza internacionais geralmente é feita com defasagem, pois há muito trabalho necessário para que os cálculos sejam consistentes e comparáveis em um grande número de países". Por isso, as taxas de 2021 até o momento são apenas projeções, mas os dados concretos serão provavelmente publicados no início de 2023.

Questionado sobre as informações enganosas disseminadas a partir dos dados do Banco Mundial, o economista sênior destacou que "é preciso ter atenção ao processo de cálculo e publicação dos indicadores para não gerar desinformação" e afirmou que a instituição se coloca à disposição para os esclarecimentos necessários.

No Twitter, o perfil do Banco Mundial tem compartilhado conteúdos e dado explicações a fim de contextualizar as informações erradas que estão circulando.

Hoje, existem no Brasil cerca de 20 milhões de famílias na extrema pobreza registradas no Cadastro Único, segundo o Ministério da Cidadania. Mauro Rochlin, economista e professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), ressaltou ao Yahoo! Notícias que o auxílio emergencial se trata apenas de um "ganho episódico" e que "não representa uma melhora no nível de renda".

Um homem revira o lixo em frente a uma favela em Recife (PE), em 10 de setembro de 2022 (Foto: AFP via Getty Images / Nelson Almeida)
Um homem revira o lixo em frente a uma favela em Recife (PE), em 10 de setembro de 2022 (Foto: AFP via Getty Images / Nelson Almeida)

As linhas de pobreza mudaram, e agora?

Gabriel Lara Ibarra também frisou que a atualização das linhas de pobreza feita pelo Banco Mundial segue uma melhoria na metodologia, com base em análises criteriosas e transparentes. No caso do Brasil, essas mudanças metodológicas não afetam os dados de 2020 e 2021. Além disso, toda a série de estimativas de pobreza foi atualizada para se adequar à mudança.

Antes, a linha da pobreza era de $1,9 por pessoa, por dia, atualmente, é de $2,15. Esse valor é adequado de acordo com o poder de compra de cada país, de modo que no Brasil, isso equivale a R$ 6,01 (em preços de 2021).

Embora a atualização ainda permita constrastar os números, Ibarra pontuou que os dados mais recentes são apenas comparáveis com os de 2012 em diante, pois se baseiam na PNAD-C (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua). Antes disso, cálculos tomavam como base outra pesquisa, a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Por isso, comparar a extrema pobreza de 2020 com a de 1980, por exemplo, não é adequado.

E os dados da fome?

Alguns dos conteúdos que circulam nas redes têm contestado os dados sobre a fome e a insegurança alimentar por conta da queda em 2020 apontada pelo Banco Mundial.

Os membros do Banco Mundial Acosta e Ibarra destacaram em um artigo que a insegurança alimentar não se limita ao debate da pobreza. "Além disso, como destacam recentes debates sobre insegurança alimentar, devem ser considerados outros fatores além da pobreza monetária", escreveram.

Conforme o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, feito pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) e pelo Instituto Vox Populi usando a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, adotada pelo IBGE, o número de pessoas que convivem com a fome no Brasil chegou a 33 milhões em junho de 2022.