Missão de arquiteta é preservar a obra de Roberto Burle Marx

Simone Raitzik
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A arquiteta Isabela Ono

Isabela Ono sabe que nasceu em berço de ouro. E “ouro” para a arquiteta carioca não é exatamente o metal valioso e, sim, o universo verde, criativo e exuberante de Roberto Burle Marx. Filha de Haruyoshi Ono, sócio do paisagista por mais de 30 anos e herdeiro da sua assinatura, Isabela cresceu em meio a almoços e encontros no sítio de Barra de Guaratiba, onde as espécies eram colecionadas. Também acompanhou as discussões para o desenvolvimento de projetos icônicos de praças públicas e jardins em diversos pontos do planeta — desde o Parque do Flamengo, no Rio, até o prédio da Unesco, em Paris. Entendia de plantas tanto quanto de bonecas e, intuitivamente, seguiu a carreira de arquitetura e se formou na UFRJ. Em 1992, ainda estagiária, começou a trabalhar com o pai, e a partir daí o interesse por Burle Marx — seu legado e sua obra — tornou-se mais do que inspiração ou um envolvimento familiar e profissional. Tornou-se uma missão.

Foi assim que, quando seu pai morreu em um acidente doméstico (caiu de uma escada), há três anos, ela e os sócios do escritório — o irmão Julio Ono e Gustavo Leivas — resolveram investir na organização do acervo com mais de 120 mil itens, entre projetos, croquis, desenhos e maquetes, guardado em um dos andares na casa onde estão instalados na Rua Alice, no Cosme Velho. Sempre foi uma obsessão de Haru ter todos os processos catalogados e preservados, mas por que não tornar isso público, acessível para todos que buscam informação do legado desse artista múltiplo, que transitou entre o paisagismo e as artes plásticas com total desenvoltura? Com essa ideia na cabeça, Isabela começou a desenhar o projeto do Instituto Burle Marx, que já conta com dois aportes de peso. O Instituto Moreira Salles será guardião dos 60 mil cromos da coleção (registros desde os anos 1960), cuidando para que permaneçam em perfeito estado. E a fundação americana Leon Levy fará uma doação no início de 2020. “A Leon Levy foi um dos patronos da recente exposição de Burle Marx no NY Botanical Garden (demaio a julho desse ano, com foco nas facetas de ambientalista e artista) e eles se encantaram com o projeto do instituto. Esse aporte vai ser fundamental para bancar a estruturação do acervo. Nossa ideia é conseguir montar um banco de dados e disponibilizar na internet. É como uma caixa verde se abrindo”, conta Isabela, entusiasmada.

Se, no futuro, o sonho da arquiteta, de 45 anos, é ter justamente uma sede, um local onde possa disponibilizar e mostrar a extensa obra de Burle Marx, por enquanto ela valoriza qualquer desdobramento do projeto. O Instituto Burle Marx firmou acordo de parceria técnica e cultural com o Sítio Roberto Burle Marx, visando ações em conjunto. Uma delas é a organização do catálogo raisonné das pinturas reunidas no sítio — doado em 1985 para o governo federal e preservado pelo Iphan. Isabela sabe que, além de cuidar do passado, é essencial se comunicar com os jovens, para que eles saibam da dimensão dessa figura que soube valorizar como poucos algo genuinamente nacional. “Muitos brasileiros visitando a exposição em Nova York repetiam que ‘isso é o que temos de melhor’. Puxa, queremos então que essa joia do passado seja uma semente do futuro e que encante e se aproxime de tudo e todos. Essa é a nossa missão”, conclui ela.