Missionários evangélicos dizem para indígenas não se vacinarem: ‘marca da Besta’

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An Indigenous Kayapo man attends a protest against Brazilian President Jair Bolsonaro's proposals to allow mining on Indigenous lands, at the entrance to the Chamber of Deputies in Brasilia, Brazil, Wednesday, June 16, 2021. (AP Photo/Eraldo Peres)
Foto: AP Photo/Eraldo Peres
  • Relatório que denuncia ação foi entregue à CPI da Covid

  • Desinformação ameaça a sobrevivência e proteção de povos tradicionais

  • A resistência à vacinação está presente apenas nas comunidades que estão ligadas a grupos evangélicos

Um requerimento entregue à CPI da Covid denunciou a ação de missionários evangélicos que têm difundido mentiras sobra a vacinação contra a Covid-19 em aldeias indígenas na região Norte do país.

Entre as mentiras propagadas, se diz que a vacina vem contaminada da China, por conta de um plano “diabólico”: marcar os indígenas com o número da Besta, 666, como está no livro bíblico Apocalipse.

Até agora, 54.438 indígenas foram infectados com o coronavírus e 1072 faleceram em decorrência da doença, de acordo com o Comitê Nacional da Vida e Memória Indígena, que é formado por lideranças e especialistas em saúde que trabalham para conter o efeito da pandemia nas comunidades tradicionais. No entanto, o Ministério da Saúde admite apenas 673 mortes de indígenas.

Entre os povos que são vítimas da desinformação dos missionários está o Kokoma, localizado próximo a Santo Antônio do Içá, no Alto Solimões, no Amazonas. Afirmam que "que o imunizante os transformaria em animais, homossexuais ou os mataria" e que "neles seria implantado um chip que carregaria a 'marca da Besta'".

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A vice-presidente da Federação Indígena do Povo Kokama, Milena Kokama, descreveu a ação dos missionários e afirmou que está sendo usada “em todo o estado do Amazonas”.

"Eles primeiro se aproximam da liderança da aldeia, se fingem de amigos e daqui a pouco casam com a filha da liderança: pronto, eles entram na aldeia e já constroem uma igreja", relatou em entrevista ao portal UOL.

Entre os casos, está o ocorrido em 2 de fevereiro, quando um helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB), que levava agentes de saúde e doses de vacina, foi cercado por pessoas empunhando arcos e flechas nas margens do rio Purus, na terra indígena dos jamamadis.7

Os indígenas exigiam que o missionário americano Steve Campbell, da Greene Baptist Church, fosse liberado para entrar na região e orientar sobre a vacina. Campbell foi expulso da região em dezembro de 2018 pela Funai por entrar ilegalmente em terras de povos isolados.

O relatório entregue à CPI afirma que nas comunidades do rio Içá "pastores teriam se dirigido ao município em tentativa de impedir que as vacinas chegassem na comunidade". Os missionários seriam da Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada por Valdemiro Santiago, e da Igreja Internacional da Graça de Deus, do pastor R. R. Soares.

No Vale do Javari (oeste do Amazonas), maior concentração de povos isolados do mundo, "aldeias já disseram à Sesai [Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde] que não irão aceitar a vacina", de acordo com a União dos Povos Indígenas da região.

A resistência à vacinação está presente apenas nas comunidades que estão ligadas a grupos evangélicos. "Na comunicação que eles fazem por rádio, que todas as aldeias escutam, eles dizem que a vacina foi fabricada muito rápido para os indígenas virarem cobaia", diz Beto Marubo, representante da entidade.

De acordo com Milena, a distância e dificuldade para acessar as aldeias facilita a desinformação. "As informações chegam aqui distorcidas, perfeito para esses pastores", conta.

Relatos parecidos foram feits em relação à terra indígena arariboia, no Maranhão. Também em aldeias de Itacoatira (Amazonas), Xingu (Mato Grosso) e Rondônia, segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira.

“Não acredito nesse Deus que eles falam que quer ver sua criação morrer. Como se Ele não quisesse que eu nascesse indígena. Então por que Ele me fez indígena? Já nasci condenada a morrer de covid? Deus já está atendendo nossas orações ao nos dar a vacina.", declara Milena Kokama.

Uma liderança do povo apurinã e cacique da aldeia Decorã (AM), Ze Bajaga Apurinã, 55, afirma que há "uma lavagem cerebral nas aldeias com mais evangélicos".

"Eles dizem que a vacina é uma marca para arrebatar ao inferno no dia do Juízo Final", diz. "Todos os que morreram de covid foram recebidos pelo Demônio e que a vacina marca os que sobreviverem à doença”, disse em depoimento ao portal UOL.

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