Mix Brasil começa hoje no novíssimo Centro Cultural da Diversidade

Bruno Calixto
'Manifesto Transpofágico: Uma transpofagia da Transpologia de uma Transpóloga', de Renata Carvalho

RIO — Mais importante festival brasileiro dedicado à diversidade de gênero, o Mix Brasil começa hoje, em São Paulo, como a primeira grande atração de um novo espaço na capital paulista: o Centro Cultural da Diversidade, com programação focada principalmente em temas LGBTQIA+. O idealizador do festival Mix Brasil, André Fischer, é também diretor do local, administrado pela Prefeitura de São Paulo e localizado no Itaim Bibi, Zona Oeste da cidade.

O equipamento já vem recebendo o público com uma programação ainda embrionária de teatro, sessões semanais de cinema e encontros literários.

— Ainda falta definir boa parte da agenda, mas já estamos recebendo propostas. Todos os projetos serão de temáticas que envolvem minorias, sejam LGBTQIA+s ou raciais, feministas etc — informa André Fischer.

O novo centro cultural ocupa o antigo teatro Décio de Almeida Prado, que estava desativado, ameaçado pela especulação imobiliária.

— Uma parte daquele quarteirão foi demolida para a construção de um prédio, o que chamou a atenção da atriz Eva Wilma. Ela ajudou no tombamento do imóvel a tempo e portanto, virou a madrinha do novo espaço cultural — conta o diretor.

O teatro, uma construção modernista dos anos 1940, com capacidade para 186 pessoas, é um dos pilares do novo centro cultural. Ele engloba também a Biblioteca Anne Frank e ainda um parque com dois jardins e uma série de grafites da artista mineira Rafaela Monteiro, a Rafa Moon. Nome escolhido a dedo pela direção.

— Ela é engajada nesta questão, é mãe de uma criança agênera (sem gênero definido) e possui vários grafites de temática LGBT espalhados pelo Rio — explica Fischer. — Sua trajetória casa com a filosofia deste lugar, que representa um sinal muito claro de que, neste momento de escuridão, sem dúvida, precisamos de um farol que traga luz e alguma esperança.

O novo espaço funciona de segunda a sábado, das 7h às 20h, com horário estendido quando há espetáculos à noite. Há wi-fi liberado numa praça de convivência, além de feiras e ensaios de blocos de carnaval do lado de fora. Em breve, ganhará um café.

Beyoncé e Harvey Milk

Com o tema “Persistir”, o Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade é uma das grandes apostas na programação do Centro Cultural da Diversidade. Ao todo, o festival ocupa oito espaços da capital paulista com mais de 200 sessões de cinema e atrações como teatro, realidade virtual, música, literatura, conferências e games.

O local vai receber atrações variadas, como o curso “Politizando Beyoncé”, ministrado pelo filósofo e pesquisador Ali Prando e pela educadora social Mayra Ribeiro, e alguns espetáculos. Um dos destaques é o monólogo “Eu não sou Harvey”, com Ed Moraes e direção de Georgette Fadel, a partir da biografia do ativista gay americano Harvey Bernard Milk (tema do filme “Milk, a voz da igualdade”, 2008).

Há ainda a estreia de “Work in Progress: Orlandx by Virginia Woolf”, de Vanessa Bruno, novo trabalho do coletivo Vulcão, e “Manifesto Transpofágico: Uma transpofagia da transpologia de uma transpóloga”, de Renata Carvalho. A atriz, professora e ativista trans teve a peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, retirada no ano passado da programação do Festival de Inverno de Garanhuns.

Em “Manifesto transpofágico”, Renata narra a historicidade do corpo travesti mostrando “o punitivismo, as violências, a patologia, o endemoninhamento e as exclusões que rodeiam esses corpos”.

— Convido o público a olhar meu corpo, observá-lo e até a tocá-lo. Esse trabalho transformou meu estudo como transpóloga (antropóloga trans) em arte.

Leão e Palma queer

Entre outros destaques no Mix Brasil (que desde 2013 não é programado no Rio), dois filmes inéditos no Brasil: “O Príncipe”, de Sebastián Muñoz, vencedor do Leão Queer no Festival de Veneza, e “Retrato de uma jovem em chamas", de Céline Sciamma, vencedor da Palma Queer de Melhor Roteiro em Cannes.

Na abertura, hoje, a cantora e compositora Marina Lima será homenageada com o prêmio Ícone Mix. Ela é o tema do filme “Uma garota chamada Marina”, de Candé Salles. O encerramento será no Centro Cultural São Paulo com a multiartista paulistana Jup do Bairro, que lançou single com participações da escritora Conceição Evaristo e de Matheusa, estudante carioca assassinada em 2018.

Outro destaque da programação é “Matthias e Maxime”, longa de Xavier Dolan estrelado pelo próprio diretor francês.