Modelos refletem sobre os desafios da moda e da maternidade em tempos de quarentena

Gilberto Júnior
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Carol Trentini com os filhos Bento e Benoah

Ao fundo, Bento, de 6 anos, e Benoah, de 3, fazem um furduncinho. A supermodelo Carol Trentini, de 32, diz que os filhos acordaram “fervidos”. “Nossa quarentena com os meninos é uma montanha-russa de emoções, um sobe e desce de sentimentos”, observa a gaúcha. “Dia desses, eles estavam brincando de marinheiros, mas era só mudar o capitão para se odiarem e a guerra começar.

O amor, no entanto, sempre prevalece. É muito bonito ver como a relação dos guris está mais profunda, ganhou várias camadas nesse período em que estamos todos em casa. Os garotos construíram algo realmente forte. E essa irmandade é linda.”O isolamento provocado pelo novo coronavírus criou situações inesperadas para Carol e as colegas Luciana Curtis e Patricia Beck — clicadas por Fábio Bartelt, Henrique Gendre e Gustavo Zylbersztajn, seus respectivos cônjuges e grandes fotógrafos de moda, com os rebentos para esta edição. “O maior desafio é o homeschooling (ensino doméstico). Uma coisa é educar, outra é lecionar. Tive que despertar esse lado e exercitar a paciência. Não podemos traumatizar os meninos”, comenta Carol. “Estou dando o meu máximo, sem pensar no Enem ou na faculdade (risos). A intenção é contribuir da maneira que posso com a educação dos rapazes. Não vou formar ninguém.”

Bartelt elogia a dedicação da top: “Ela sempre foi uma mãe que coloca a mão na massa. Além de dar banho, preparar as refeições e colocar para dormir, Carol está empenhada nas aulas virtuais, e isso está me surpreendendo. O desafio é gigantesco.”

Luciana, de 43 anos, também sente dificuldades com essa situação causada pela Covid-19. “Quando decidi ser mãe, não assinei um papel para ser professora, entende? Em casa, Cora (de 9) e Dahlia (de 6) se distraem com facilidade. Na escola, as crianças trabalham com o mesmo propósito, instruídas por uma pessoa capacitada para ensinar”, diz a paulistana. “O distanciamento social não é esse romance que vi gente pintando por aí. Não estou fazendo pão nem aula de ginástica. E homeschooling é uma questão.”

Para Gendre, Luciana está tirando de letra: “Ela, na verdade, está sendo a supermãe que costuma ser, orientando nossas filhas com a carga acadêmica transmitida on-line. As meninas são sortudas de tê-la por perto. O confinamento ficará na memória delas como uma época em que nos aproximamos mais”.

Mãe de Benjamin, que acaba de completar 2 anos, Patricia, de 38, não vive o drama do ensino domiciliar. No entanto, tem de lidar com uma segunda gestação no meio de uma pandemia. Grávida de seis meses, a catarinense trocou temporariamente a Patagônia, onde mora desde 2019, por São Paulo. “Fiquei com medo de entrar num avião. Voltaremos ao Chile assim que o cenário estiver propício”, explica a modelo. Zylbersztajn, que está dividindo os afazeres do lar com a mulher, acrescenta: “Patricia tem sido incrível e presente com o Ben, criando jogos com elementos naturais”.

Positiva, a modelo aproveita a circunstância para rever valores: “Ano passado, um incêndio destruiu 80% da casa onde estamos no momento. Perdemos praticamente tudo e, a partir desse episódio, reavaliamos nossas vidas. Na sequência, uma enchente estragou a maior parte do equipamento fotográfico do Gustavo. Paramos novamente para refletir. Agora, temos mais uma chance com o coronavírus”.

Há quase 50 dias em quarentena, Carol já aprendeu a baixar sua guarda. “Estou com minhas rédeas soltas. Sempre fui muito controladora, mas estou seguindo o fluxo e tentando aprender pelo caminho.” A gaúcha, inclusive, relaxou com a mania de arrumação. “Costumo falar por aí que sou meio Monica Geller (personagem da atriz Courteney Cox na série ‘Friends’), pois sou viciada em limpeza. Mas estou tentando ser menos escrava da casa. Cheguei a cortar o dedo profundamente limpando o ralo do banheiro. Foi um aviso para eu dar uma segurada. Diariamente, tiro uma lição”, aponta. “Claro que dançamos e cantamos, mas o dia tem 24 horas. Há bastante treta e birra. Estamos levando a vida como ela é.”

Carol não nega que sente falta de umas “escapadinhas”. “Não estou dizendo que é um sacrifício porque sei que sou uma pessoa privilegiada, mas é difícil não ter um instante só para mim. Não consegui ler nada. Meus filhos estão em fases diferentes, com necessidades opostas”, conta. “Fico me perguntando: “Qual é o meu lugar? Como ser mãe na quarentena?’ Não é uma receita de bolo, em que você acerta ou erra. Estou errando muito. O lado bom é que, no dia seguinte, estarei no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, mas com a oportunidade de fazer melhor.”

Tal como Carol, Luciana vem tirando lições da crise. Para ela, as crianças estão mostrando a importância de nos adaptarmos às situações. “Não escuto minhas meninas reclamando de estarem trancadas no apartamento. Elas pedem somente para ver os avós, já que estão Brasil”, pontua a top, que desembarcou em São Paulo em meados de março para estar ao lado de Gendre, dos pais e da sogra. “Estava em Nova York, onde resido desde 2001, com as meninas quando os estabelecimentos foram fechados. De repente, as ruas ficaram vazias. As pessoas falam que a cidade é rápida, barulhenta e agitada, mas é também uma das mais humanas. O nova-iorquino ajuda o próximo, veste a camisa da causa e segue as regras impostas pelas autoridades. Foi assim no 11 de setembro e no furacão Sandy. Esse senso é maravilhoso.”

Para Luciana, as aglomerações e engarrafamentos no Brasil noticiados pela imprensa são resultado das informações desencontradas que a população está recebendo. “O governo espalhou por aí que a Covid-19 é só uma gripezinha, e os médicos e cientistas dizem para não sairmos de casa, que não é uma gripe simples. Infelizmente, muita gente confia em nossos representantes”, alfineta a modelo. “Se tivessem cuidado dessa história em janeiro, não estaríamos ‘presos’ agora. Os governos de diversas nações erraram. Acharam que esse problema era apenas da China (onde o vírus surgiu).”

Ansiosa por natureza, a paulistana diz que a sensação de “estarmos todos no mesmo barco” a acalma: “Minha mãe fica aflita e eu falo que não está acontecendo nada. Não tem shopping aberto ou novidades nos cinemas. Não há o que fazer lá fora. Vou ao mercado se necessário”. Experiente, o trio já notou algumas mudanças no meio que atua desde o início da pandemia. Por causa do distanciamento social, a profissão está sendo repensada — pelo menos nesse futuro próximo. Patricia fez fotos para uma publicação com a maquiadora a guiando pelo FaceTime. “O cenário será complicado para as modelos. Colocam a mão em nossos rostos e corpos o tempo todo. Nunca imaginei que iríamos presenciar algo do tipo. As marcas terão de se reinventar. Usar o que existe nos arquivos, reavaliar produtos. Iremos consumir de outra maneira depois dessa pandemia. Iremos comprar menos”, avalia a catarinense.

Luciana prefere não pensar no futuro: “Não fico imaginando essas coisas. Foi o jeito que encontrei de me manter sã e ajudar as meninas na escola. É um dia após o outro. Mas aposto em transformações na forma com que convivemos. As mudanças partirão das grandes empresas. Aliás, recebi convite de cliente para fotografar e recusei. A sugestão era reduzir a equipe, usar máscara e álcool gel”.

Carol, que planeja passar uma temporada em Nova York com a família, não acredita que um desfile seja marcado tão cedo. “Nem tenho a pretensão de perguntar quando a indústria voltará ao normal”, observa. “Também não critico quem continua produzindo. As pessoas ainda têm vontade de comprar um vestido ou simplesmente admirar coisas bonitas. A gente precisa de arte, alimentar os olhos. Fotografar é meu trabalho, meu ganha pão.” Preocupada em não julgar a maneira como o outro leva a quarentena, a top diz estar vivendo esse período da melhor forma possível. “Há dias em que acordo muito triste. É tanto sofrimento pelo mundo. O que mais mexeu comigo foi saber que os pacientes terminais se despedem dos entes queridos por chamada de vídeo. Então, deixa a pessoa fazer sua live, sua receita... Vamos relaxar.”

Moradora de Balneário Camboriú, a gaúcha diz que está “focada no hoje”: “Não sei como será a semana que vem. Levanto, respiro e penso: ‘Vamos fazer o que devemos’. Às vezes, escolho não assistir ao noticiário e fico com a cabeça vazia. Às vezes, cozinho pratos saudáveis; às vezes, batata frita. Faço o que está ao meu alcance”.

Carol é categórica ao afirmar que “vida é vida”. “Não importa se é velho ou novo, não podemos decidir se alguém merece mais estar aqui do que o outro. Esse alguém que não é prioridade pode ser o meu tudo”, diz a moça, em tom emocionado. “No fim, desejo mudança na minha casa e na forma de enxergar o próximo. Estou isolada, porque posso, mas acompanho a dor e a fome do vizinho. Como uma fase de videogame, nós iremos nos empenhar para vencer e passar. E que seja um desfecho com abundância de empatia.”