Moderado para consumo externo, Talibã começa a montar novo governo

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  • Após retomar poder no país, Talibã tenta afastar imagem de extremistas com discurso tolerante

  • Porta-voz do grupo garantiu que novo regime será 'positivamente diferente' do que comandou o Afeganistão durante 1996 e 2011

  • Ainda assim, histórico de brutalidades do grupo faz com que fuga do país siga em alta

O grupo fundamentalista islâmico Talibã começou a montagem do novo governo do Afeganistão, após ter derrubado o presidente Ashraf Ghani numa ofensiva vertiginosa que culminou com a queda de Cabul no domingo (15). 

O movimento recebeu apoio velado no Ocidente, apesar de sinais de que o processo pode não ser tão simples como vende o Talibã, como a morte de três pessoas em protesto contra o grupo na cidade de Jalalabad demonstrou nesta quarta (18). 

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Após falar grosso e dizer que não deveria reconhecer o Talibã como governo, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, mudou de tom. 

"Nós vamos julgar esse regime baseado nas escolhas que ele fizer, e por suas ações, não suas palavras, sua atitude acerca do terrorismo, crime e narcóticos, assim como acesso humanitário e os direitos de meninas de receber educação", disse também nesta quarta, enquanto era criticado pela oposição no Parlamento. 

Londres foi a primeira sócia da invasão americana de 2001, que removeu o Talibã do poder por seu apoio à rede Al Qaeda, que cometeu os atentados terroristas do 11 de Setembro. Cerca de 450 britânicos morreram nos 20 anos de guerra, ante mais de 160 mil afegãos. 

Governo prega respeito às mulheres

Foto: AP Photo/Rahmat Gul
Foto: AP Photo/Rahmat Gul

A mudança no tom reflete as promessas feitas pelo Talibã numa série de entrevistas, inclusive a uma apresentadora da rede afegã Tolo TV. 

O grupo tenta se mostrar evoluído e mais distante do regime aberrante que conduziu de 1996 a 2001, após ganhar a guerra civil afegã que emergiu dos escombros da ocupação soviética de 1979-1989. 

Desde que ocupou Cabul, os talibãs disseram que vão respeitar as mulheres, que eram seres invisíveis e oprimidos no seu governo, a imprensa, os antigos inimigos. Tudo, e aí está o pulo do gato, sob a ótica da sharia, a lei islâmica. 

Na sua primeira encarnação, o conjunto legal religioso era interpretado de forma desviante e literal, gerando massacres, punições draconianas e a supressão de direitos. Homens tinham de deixar sua barba crescer, a burca (vestimenta tradicional pashtun, a etnia dos talibãs) foi mandatória. 

Sobre liberdade de expressão ou dissenso, está claro que não será irrestrita. Basta pegar um exemplo purista que é aliado dos EUA, a Arábia Saudita —o regime matou o jornalista crítico da monarquia islâmica Jamal Khashoggi em 2018, por exemplo. 

Em um movimento antes impensável, nesta quarta dois políticos importantes do período de ocupação ocidental, o ex-presidente Hamid Karzai e o ex-chanceler Abdullah Abdullah, se encontraram com um dos principais líderes da região de Kandahar, o talibãs Anas Haqqani. 

Seu sobrenome diz tudo: é integrante da rede Haqqani, um dos mais sanguinários grupos terroristas que operou contra forças ocidentais e o governo afegão nessas duas décadas. 

Ele era rival do Talibãs, mas acabou se unindo ao esforço conjunto contra o que chamava de marionetes ocidentais em Cabul —Karzai e Abdullah inclusos. 

Tal encontro é encorajador, e pode subsidiar o otimismo relativo dos ocidentais. 

"Nós temos de ser pacientes e dar espaço a eles para formar um governo e mostrar suas credenciais. Pode ser um Talibã diferente daquele que as pessoas se lembram dos anos 1990", disse o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Reino Unido, Nick Carter, à BBC. 

Isso foi reforçado por um declaração do grupo à agência Reuters, segundo a qual todos os líderes que passaram décadas escondidos se mostrarão ao mundo. Um deles, de resto uma figura pública por morar em Doha, o número 2 do Talibã Abdul Ghani Baradar, voltou a Kandahar na terça (17).

Talibã já protegeu Al Qaeda

Foto: AP Photo/Rahmat Gul
Foto: AP Photo/Rahmat Gul

Na sua origem, o Talibã era um grupo subnacional ancorado na majoritária etnia pashtun, e seus ideais de conquista territorial e soberania não diferiam muito daqueles dos seus adversários —todos violentos. 

Eles protegeram a Al Qaeda devido ao rígido código de hospitalidade tribal pashtun, a "melmestia", que impedia a entrega de um convidado a seus inimigos. Com o 11/9, os EUA demandaram a entrega de Osama bin Laden e amigos, o que foi recusado, e o resto é história. 

Até ali, o Ocidente tolerava o regime medieval que o grupo implementou e até o cortejava, dado que houve relativa estabilidade construída sobre o terror da população. 

É possível que isso se repita? Os tempos são outros, a exposição dos crimes talibãs criou um novo demônio para os ocidentais, e direitos humanos são inegociáveis na arena pública. Nos bastidores, contudo, a história é outra e o balé de falas que se complementam do Talibã e de gente como Boris pode indicar alguma acomodação. 

O que não significa moderação, é evidente. Apesar de toda a fanfarra de que agora será diferente, abundam relatos de práticas tipicamente talibãs nas cidades recém-ocupadas pelo grupo. 

Um dos mais simbólicos emergiu nesta quarta, com a derrubada de uma estátua do líder hazara Abdul Ali Mazari em Bamiyan, cidade que ficou tristemente famosa quando o Talibã explodiu dois Budas gigantescos esculpidos em pedra em 2000. 

Os hazaras, xiitas em oposição ao sunismo purista dos talibãs , são uma das minorias que mais sofreu durante o primeiro governo talibã. A Folha ouviu, nos últimos dias, relatos de que os membros do grupo em Cabul estão em pânico e sem condição de sair da capital. 

Aliás, a capital tem registros diários de prisões arbitrárias nas ruas, conforme vídeos que circulam por redes sociais. Esse tipo de exposição não havia em 2001, quando nem água corrente havia em Cabul, o que deve dificultar a vida do Talibã na era do Twitter e do TikTok. 

Ainda assim, há muita gente com medo ainda. No último contato que conseguiu fazer com a reportagem, o jornalista Ahmed Ali afirmou que ele e sua família seguiam escondidos perto de Cabul, e que há mensagens incessantes no celular avisando sobre batidas atrás de pessoas identificadas com os ocidentais. 

Isso torna a patrulha digital incerta como fator moderador do Talibã. 

Seja como for, tal comedimento para consumo externo é mais facilmente exercido na capital, onde ainda há jornalistas ocidentais e afegãos ativos. Segundo a Reuters ouviu do grupo, a ordem foi de não celebrar a vitória de domingo no estilo tradicional —tiros para o alto, saques, o eventual assassinato de um transeunte. 

Basta ir a 150 km da capital, em Jalalabad, a grande cidade que liga Cabul à fronteira paquistanesa. Nesta quarta, houve confusão quando moradores tentaram impedir os talibãs de colocar a sua bandeira no lugar da nacional numa praça da cidade. 

Capital da província de Nangarhar, a cidade sempre foi um ponto refratário ao Talibã, tendo caído nas mãos das forças da antiga Aliança do Norte antes do que Cabul em 2001. Ao menos três pessoas foram mortas, segundo relatos da imprensa paquistanesa. 

O incidente pode não sinalizar uma guerra civil, até porque o poderio do Talibã por ora parece consolidado, mas mostra que a versão "light" apresentada para as TVs ocidentais pode até cair bem para os EUA e aliados. 

Afinal de contas, o presidente americano, Joe Biden, está sob fogo pela saída atabalhoada do país e da falta de informações acerca da fragilidade do governo que caiu. Já para os afegãos, a versão do Talibã poderá ser outra.

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