Moeda social incentiva reciclagem e protege o meio ambiente

Há um mês, todos os dias, o pedreiro José Carlos da Silva, de 46 anos, chega a um entreposto de reciclagem instalado pela prefeitura na comunidade Canal do Anil, em Jacarepaguá, carregando latinhas de alumínio, pedaços de papelão e garrafas PET, entre outros recicláveis. Tudo recolhido nas ruas da região onde vivem sete mil pessoas. Na última quarta-feira, o trabalho de José Carlos deixou as vias mais limpas e ainda lhe rendeu R$ 32 em moeda social. O valor foi depositado em um cartão recarregável que é aceito no comércio local.

— É uma ajuda e tanto nas contas de casa. Já consegui uns R$ 500 com reciclados desde o início do mês. Como já sobra algum dinheiro, penso até em arrumar uma namorada — brinca o pedreiro que, ao deixar o posto, foi direto fazer compras em um mercadinho, do outro lado da rua.

O Canal do Anil faz parte de uma lista de 50 áreas de baixa renda que terão pontos de coleta do programa Recicla Comunidades até o fim do semestre, incluindo parte da Rocinha, Andaraí e Guaratiba. Pelo projeto, moradores e comerciantes se cadastram para poder usar o cartão nas transações nas comunidades onde o programa for adotado. Por segurança, a identidade do portador é confirmada por um QR Code no cartão. Nesse ciclo, ganham moradores, pequenos comerciantes e o meio ambiente porque o lixo não vai parar em rios e canais.

— Tive sorte. Abri a loja na véspera do início do programa. Por dia, chego a receber de R$ 60 a R$ 70 em moeda social. Isso chega a representar metade do meu faturamento por dia — conta a comerciante Syara Ferreira, de 28 anos, dona do mercadinho frequentado por José Carlos.

A coleta e revenda são feitas em parceria com Organizações da Sociedade Civil (OSCs) especializadas em reciclagem. A prefeitura investe cerca R$ 40 mil em cada entreposto, que tem ligações de água, esgoto e luz. A OSCs fornecem as balanças e contratam funcionários, recrutados nas comunidades.

Nas seis áreas onde o Recicla Comunidades já foi implantado, foram retiradas 12,71 toneladas de reciclados que renderam R$ 15,8 mil aos catadores. Idealizadora do programa, a secretária de Ação Comunitária, Marli Peçanha, diz que o projeto não tem efeitos só na economia.

— O programa é uma forma de gerar mais renda e dignidade para famílias de baixo poder aquisitivo. Por outro lado, há um componente ambiental importante. Menos lixo nas ruas ajuda a evitar enchentes provocadas pela obstrução de bueiros, rios e canais — avalia a secretária.

Em outras cidades, já há experiências do gênero. Niterói implantou a moeda social Arariboia para 31 mil famílias inscritas no CadÚnico, que recebem até R$ 700 em créditos. Em Maricá, a Mumbuca surgiu em 2013 e é paga a 40 mil moradores, sendo aceita em 12 mil estabelecimentos. Cabo Frio também tem sua moeda, a Itajuru, para inscritos em programas sociais. Em nenhum desse casos, há troca por material reciclado.

Desempregada e mãe de dois filhos, Mônica Peçanha, que hoje vive com o Auxílio Brasil (o antigo Bolsa Família), também apostou na coleta de recicláveis no Canal do Anil para complementar a renda.

— Garrafa e papelão é o que não faltam por aí. Só hoje consegui R$ 60. Esse dinheiro ajuda muito em casa — diz Mônica.

Apenas no Anil, já foram recolhidas 3,3 toneladas de materiais, gerando créditos de R$ 3.285,60. E a limpeza não fica apenas nas ruas. Barqueiros também estão aderindo à coleta. Pelo menos uma vez por semana, eles percorrem as margens do Canal do Anil. Nesse trabalho, já entregaram no entreposto até tambores de máquinas de lavar roupa e grandes peças de geladeiras.

Alguns itens, como peças de aço e ferro cuja origem não possa ser comprovada, não são aceitos nos postos de troca. O objetivo é evitar o fomento ao roubo.

Na comunidade Darcy Vargas, na Taquara, onde o projeto-piloto do Recicla Comunidades foi implantado há três meses, moradores admitem que a limpeza das ruas melhorou bastante. Lá, dos 3,5 mil habitantes, 242 moradores e 13 comerciantes estão cadastrados na moeda social. Em um balanço inicial, a prefeitura estima que foram coletadas ali 7,1 toneladas de materiais, gerando crédito de R$ 9.112,40.

— A gente tinha problemas. Era uma questão até cultural. As pessoas se desfaziam de suas coisas no meio da rua, independentemente de ser ou não o dia da coleta feita pela Comlurb. Hoje, a comunidade está um brinco. Duvido que você encontre papel ou garrafa de plástico na rua. Só folhas que caem das árvores mesmo — afirma o presidente da Associação de Moradores, Robisvaldo da Conceição, o Feijão.

Dono de um hortifrúti na Darcy Vargas, Marcos da Silva Oliveira conta que recebe em moeda social de pelo menos dez clientes por dia:

— Resolvi participar achando a proposta curiosa. Mas o sistema realmente funciona. Meu faturamento aumentou em pelo menos 5%.

Além da Darcy Vargas e do Canal do Anil, há pontos do Recicla Comunidades em Vila Progresso (Vila Kennedy), Asa Branca e Vila Sapê (Curicica) e Parque Carioca (Vargem Grande). Hoje começam a operar as unidades da Fazendinha (Complexo do Alemão) e da Vila Turismo, em Manguinhos.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos