Monólogo dirigido por Amir Haddad e peça com Claudia Ohana e Juliana Knust reabrem espaços tradicionais na Barra

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RIO — Não que o isolamento social decretado em março de 2020 tenha sido positivo propriamente. Mas, para o dramaturgo Fernando Duarte, foi a brecha de que precisava para realizar um projeto acalentado há oito anos: criar a versão in concert de “Parabéns, sr. presidente”. O espetáculo — encenado em 2013 com o título “Orgulhosa demais, frágil demais”, e em 2019 com o nome atual e os diálogos modificados com ajuda de Rita Elmôr — entra em cartaz dia 25, no Teatro dos Grandes Atores, marcando o retorno das apresentações presenciais no espaço.

— Tinha o desejo de fazer uma versão in concert desde 2013 porque Marilyn ficou famosa por muitos números musicais. Mas não foi possível na época. Fui fazendo outros projetos e esse sonho ficou na gaveta. Quando o mundo parou (refere-se ao isolamento social), o projeto me salvou um pouco — comenta Duarte.

Claudia Ohana e Juliana Knust dão vida, respectivamente, à cantora lírica Maria Callas e à atriz Marilyn Monroe. A partir do encontro das duas nos bastidores da festa de 45 anos do então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, no dia 19 de maio 1962, a peça desconstrói as artistas e mostra as mulheres por trás dos mitos.

— O público vai ver o lado humano das duas. Costumo dizer que a conversa no camarim, quando elas se desarmam e tiram a máscara, são duas mulheres conversando sobre questões femininas em pauta até os dias de hoje — explica o diretor. — A magia acontece aí. São duas mulheres com personalidades opostas, mas que descobrem que têm muitas coisas em comum, apesar de tão diferentes. Acho que esse é o grande trunfo do espetáculo.

Ao contrário do encontro, que de fato ocorreu, e foi rápido, os diálogos são fictícios. Agora entremeados com canções de Maíra Freitas, tratam de temas como infidelidade, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, casamento, traição e solidão.

— As duas tiveram infâncias sofridas e viveram coisas parecidas. Mas tinham pensamentos diferentes sobre a vida. Marilyn era muito livre, se casou e se separou três vezes e traiu todos os maridos. Se o cara pedisse para ela parar de trabalhar, diria não. Ao mesmo tempo, era muito sensível e sofria porque só viam nela a sex symbol e não a valorizavam como profissional. Mas ambas mulheres atuais. A peça poderia se passar nos dias de hoje — diz Juliana.

Este é o primeiro trabalho presencial da atriz desde o início da pandemia. E representa, segundo ela, um presente de aniversário pelos 40 anos de vida e 25 de carreira. Além da luz no fim do túnel após o tempo que ficou "presa" em casa devido à pandemia de Covid-19.

— Foi avassalador, uma loucura ficar em casa com as crianças (os filhos Arthur, de 6 anos, e Mateus, de 11) sem poder sair e sem expectaitva de futuro. Fiquei sem ajudante um tempão. Meu marido cozinhava, porque eu não sei, mas o resto todo era comigo. Foi puxado, mas bom para eu entender que dou conta. Vamos descobrindo a nossa força nesses moimentos também — conta atriz.

Ao voltar ao trabalho, um novo desafio: interpretar uma personagem icônica e... aprender a cantar.

— Recebi o convite da noite para o dia e fiquei apavorada. Tive muito pouco tempo para aprender e chegar num lugar confortável pra mim. Mas estou eufórica com a possibilidade. Descobri que sou afinada e tenho um ouvido bacana. Estou aprendendo a usar a voz. Às vezes bate uma insegurança, mas é normal em qualquer trabalho. Esse frio na barriga move o ator. Se não existir isso, tem algo errado —diz Juliana.

Para Claudia Ohana, o processo foi diferente. A atriz estudou canto lírico e, em 2014, viveu Maria Callas em espetáculo dirigido por Marília Pêra e também escrito por Duarte. Embora, na ocasião, não precisasse cantar, já que a peça se passava no momento final da carreira da cantora.

— Viver Callas novamente é incrível. Já senti a personagem quando voltei a cantar — diz Claudia. — Era uma mulher forte, disciplinada, ganhava muito dinheiro, era independente. Na peça, ela fala da dificuldade que os homens têm de se relacionar com mulheres assim e de como era complicado para o Onassis (o magnata Aristóteles Onassis, então seu marido). Ao mesmo tempo, era alguém que deixaria de cantar para se dedicar ao casamento.

Assim como Juliana Knust, este é também o primeiro trabalho presencial de Claudia após o início da pandemia do novo coronavírus.

— Comecei a ensaiar achando tudo muito estranho. Fiquei muito em casa na pandeia. Ao mesm tempo, é uma felicidade imensa. Acho que vai ser incrível — diz.

Na montagem, dirigida por Fernando Philbert, a conversa entre Marilyn e Callas acontece no camarim da atriz. Os fatos que dão início à conversa são fiéis à história. Callas canta “Habanera”, da ópera “Carmen”, e é ovacionada. Nos bastidores, Marilyn, sua fã, a cumprimenta e leva um fora. De volta à plateia, Callas sente pena ao ver a atriz cantando “Happy birthday” para Kennedy e, no dia seguinte, lhe envia uma orquídea, a flor preferida de Marilyn, com um pedido de desculpas. Na ficção, as flores são entregues pessoalmente.

Na Cidade das Artes, Gilson de Barros é Riobaldo

O ator Gilson de Barros tinha 18 anos quando entrou em contato pela primeira vez com “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa. Mas foi aos 56 que a paixão surgiu e tomou conta do ator. Desde então, são cinco anos praticamente mergulhado na obra do escritor mineiro. Desta imersão nasceu “Riobaldo”, monólogo adaptado e protagonizado por ele e dirigido pelo amigo Amir Haddad. Em cartaz na Cidade das Artes até o dia 26, a peça é mais uma opção da retomada do circuito teatral na Barra.

O espetáculo estabelece um recorte na história do ex-jagunço, hoje um rico fazendeiro de cerca de 60 anos, com ênfase nas histórias de amor vividas com Diadorim, Nhorinhá e Otacília.

— Queria fazer um monólogo e achei que falar da relação de Riobaldo com essas mulheres era a melhor forma possível. São amores inusitados. Ele se apaixona por um amigo sem saber que é uma mulher. Envolve-se com uma prostituta com quem se deita apenas uma vez, mas por quem nutre um amor até hoje, e se casa com a filha de um fazendeiro — diz Barros.

Para o ator, o grande trunfo do montagem é a reflexão que propõe sobre religiosidade e o bem e o mal existentes em cada um de nós.

— Ainda jagunço, e por amor a Diadorim, Riobaldo faz um pacto com o diabo. Mas passa a peça inteira tentando convencer a si próprio e a plateia de que não o fez. Ao mesmo tempo, também se sente culpado e paga rezadeiras para ajudá-lo — comenta.

Em cena, veem-se apenas Barros, um banco de dois lugares, uma moringa, uma caneca e a luz suave de Aurélio de Simoni e Carlos Henrique Pereira.

— Foi ideia do Haddad. Tinha pensado numa adaptação grandiosa, mas ele mudou minha cabeça. Já no primeiro ensaio disse que eu ia ficar sentado, contando a história para ele — diz o ator, que, emotivo, chorava e levava broncas do diretor.

Haddad, aliás, foi o grande estímulo de Gilson de Barros quando, uma semana após a estreia da peça, em março de 2020, a prefeitura do Rio decretou isolamento social devido à pandemia de Covid-19.

— Foi uma brochada, né? Eu desanimei. Mas Haddad me deu força para fazermos apresentações on-line.

O diretor lembra:

— Se o Gilson tivesse parado, teria sido fatal para ele. As lives mantiveram viva a cultura do país. Mas é muito ruim. A essência do teatro é a fisicalidade. O virtual não é a melhor forma de expressão. É como fazer amor por telefone. Você gosta?

SERVIÇO:

“Riobaldo”. Cidade das Artes — Avenida das Américas 5.300. Ingresso: R$ 50, pelo site Sympla. Sábado, às 20h; e domingo, às 18h Até 26/9. 16 anos. Capacidade de público reduzida para 44 pessoas em respeito às normas de segurança impostas pelo coronavírus.

“Parabéns, sr. presidente — In concert”. Teatro dos Grandes Atores — Avenida das Américas 3.555. Ingressos antecipados: R$ 50 (pelo site divertix.com.br). Na bilheteria: ingressos promocionais a partir de R$ 60 (pagamento apenas em dinheiro). Sábado, às 19h e às 21h. De 25/9 04/12. 12 anos. Capacidade de público reduzida em 40%.

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