Fala sobre pedofilia mostra que Monark não entendeu nada sobre lei ou sobre liberdade

Monark, do podcast Flow, defende existência de partido nazista no Brasil - Foto: Reprodução
Monark, do podcast Flow, defende existência de partido nazista no Brasil - Foto: Reprodução

O Brasil me obriga a rever Hermes e Renato.

Entre o noticiário e um DVD do antigo humorístico da MTV, me pergunto em que momento esse país se tornou um esquete real da “novela” Sinhá Boça.

Na trama, uma versão antecipada da mulher da casa abandonada atravessa os capítulos maltratando uma funcionária durante o dia e esfolando metade do elenco de personagens à noite, quando se transformava em lobisomem.

A certa altura a identidade do monstro é descoberta e o que se desenhava como uma surra épica se transforma em consagração.

Tudo porque, diante da revolta dos populares, a vilã consegue desarmar as almas com um discurso tão clichê quanto calhorda sobre liberdade de escolha. Ela questiona o que seria do amarelo se todo mundo gostasse do verde. E explica: alguns gostam de dançar. Outros de cantar. Outros de desenhar. Ela gostava de matar. Era chato? Era chato.

“Mas eu sou assim, gente. É só o meu jeito”.

Corta a cena e todos se abraçam, tomando cerveja, em uma grande confraternização ao som de pagode.

A megera poderia até ser perversa, mas pelo menos era autêntica, não tinha papas na língua, deixava claro o que queria e lutava para que todos pudessem botar para fora as suas vazões, inclusive as criminosas.

Saudade de quando a gente via uma cena dessas na tela e apenas ria do ridículo.

Na semana passada, o youtuber Bruno Aiub, o Monark, atuou voluntariamente como cobaia para um teste científico para validar uma velha máxima das redes: quando ninguém falar sobre você, poste algum absurdo. Mas não basta colocar uma melancia no pescoço. É preciso explodir a melancia na cabeça e fazer da fruta e dos miolos estourados uma vitamina.

Pronto. Todo mundo vai assistir, vai falar, vai repercutir.

Não faz muito tempo, prevíamos que chegaria o tempo em que essa busca pela manutenção do holofote faria alguém defender absurdos como nazismo e pedofilia em voz alta sem o menor constrangimento. Tudo para provar a teoria da melancia misturada aos miolos.

Esse futuro próximo já pode ser observado no retrovisor.

Não faz muito tempo, Monark havia defendido em seu podcast de longo alcance o direito de simpatizantes do nazismo criarem seu próprio partido político no Brasil. A declaração rendeu a ele muita repercussão, mas também muitas notas de repúdio, quebras de contrato, pedidos para retirada de vídeos em seu canal, etc.

Afinal de contas, ninguém quer associar sua marca a quem considera normal, justo até, existir um partido político que tenha o conceito de superioridade moral na base de seu estatuto e defenda a eliminação de minorias em campos de concentração.

Monark precisou sair à francesa de seu antigo canal e montou uma rede própria para seguir demonstrando que continua não entendendo nada nem sobre História nem sobre as leis nem sobre liberdade de expressão.

No fim de semana, ele voltou aos trending topics (parabéns, guerreiro!) por dizer, em seu novo canal, que tem dúvidas se uma pessoa que consome pornografia infantil deveria ser considerada uma pessoa criminosa. O argumento é que a pessoa não expôs nem praticou mal físico a ninguém.

Faltou explicar como o material poderia parar no computador para deleite do consumidor final sem expor ou maltratar alguém.

A dúvida de Monark poderia ser sanada com uma simples pesquisa no Estatuto da Criança e do Adolescente, livro que seu ídolo, Jair Bolsonaro, já disse ter vontade de jogar na latrina.

O ECA estabelece que é crime, sim, “adquirir, possuir ou armazenar, por qualquer meio, fotografia, vídeo ou outra forma de registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente”.

O crime pode levar a pessoa a pegar até quatro anos de prisão.

Ainda assim o influencer só faltou repetir a lobisomem de Hermes e Renato e dizer que cada um tem suas perversões e merece ser respeitado por isso.

Após a repercussão, Monark correu para jogar para a plateia e dizer que foi mal interpretado e que é, na verdade, a favor da castração química para estupradores. Mostrou ali que não entendia nada também da dinâmica da violência. (Crimes sexuais envolvem relações de poder. Há inúmeros casos de abusadores idosos, já impotentes, que se utilizam de qualquer meio, inclusive objetos, para cometer crimes do tipo).

Após a (má) repercussão, Monark correu para lamentar o fato de ter sido cancelado de novo, novamente, outra vez.

A auto-vitimização já virou lugar-comum entre os defensores de absurdos que não bancam a consequência do que dizem nem suportam serem contrariados.

A diferença entre personagens do tipo e os hits do nonsense à brasileira é que os primeiros não têm a menor graça.