Monges chineses se automumificavam para virarem Buda

Foto: World Museum de Roterdã

Você provavelmente já ouviu falar das múmias do Antigo Egito, de como os corpos de membros importantes da sociedade eram preservados, e sobre a importância cultural e simbólica da prática. As múmias se tornaram interesse de historiadores e cientistas ainda no início dos anos 1900, pela possibilidade de trazer informações sobre estilo de vida, costumes e tradições do passado. Em meados do século 10, um ritual ainda mais impressionante foi registrado entre monges na China. Eles não só cultivavam a preservação do corpo após a morte, como se automumificavam.

Isso mesmo, o processo começava ainda em vida, com o objetivo de transcendência espiritual através da automumificação. No Antigo Egito, a mumificação tinha início após a morte de um ente representativo na sociedade. Todo o líquido do organismo era removido e o corpo era coberto por uma espécie de resina. A prática espiritual incluía a construção de sarcófagos e tumbas para armazenar as múmias. Mas os monges Sokunshinbutsu criaram um método que é reverenciado até hoje pela dedicação e abdicação que envolve. Eles induziam o corpo ao óbito para se tornarem múmias.

Acredita-se que a automumificação tenha começado entre monges chineses, porém o procedimento ficou famoso mesmo no nordeste do Japão. Na primeira fase, monges faziam uma dieta restrita a nozes e castanhas durante 1 mil dias, quando perdiam quase toda gordura corporal. Eles, então, ingeriam uma série de raízes e ervas indutoras ao vômito para perder fluídos. Na última etapa, os monges se trancavam em câmaras com uma pequena passagem de ar e um sino. Eles tocavam o sino enquanto vivos e quando paravam de tocar a câmara era selada.

Após três anos, a câmara era reaberta e se o corpo estivesse em boa conservação, o monge era levado para um santuário. O corpo deveria estar na posição de lótus e o monge que conseguisse enfrentar a automumificação com sucesso seria venerado pelos demais e considerado um verdadeiro Buda. Monges da região de Yamagatta, no Japão, aderiram ao ritual transmitido pelos ensinamentos da escola Shingon. No entanto, a automumifucação foi proibida no país no século 18.

Em 2015, cientistas holandeses encontraram um monge chinês mumificado dentro de uma estátua de Buda, sentado na posição de lótus. Acredita-se que a múmia seja do século 11 ou 12. Não há órgãos no corpo do monge. A estátua está exposta no museu de Roterdã e, segundo o curador da exposição Erik Bruijin, o corpo seria do mestre budista Liunqan, da Escola Chinesa de Meditação.

Monges italianos se mumificaram usando a desidratação do corpo e cobrindo a pele com cerâmica entre os séculos 16 e 17. Capuchin Catacomb, em Palermo, na Itália, soma mais de oito mil múmias, incluindo ricos e famosos da época, e é a maior coleção de múmias do mundo. O local é uma atração turística que resgata costumes, roupas e tradições da sociedade de Palermo nos séculos passados.

Múmia mais antigas do mundo

A descoberta de como “fazer uma múmia”, no entanto, de acordo com pesquisadores, aconteceu ao norte do Chile, em uma região seca e desértica, com solo arenoso. As múmias de Chinchurro, descobertas em escavações nos anos 1980, são as mais antigas já encontradas no mundo. Pesquisadores acreditam que os corpos foram enterrados pelo menos dois mil anos antes do início da mumificação no Antigo Egito.

As múmias de Chinchurro tinham todos os tecidos moles e sangue retirados e a pele preenchida com matéria vegetal, como ervas, cinzas e tecido animal. O esqueleto era reforçado com pedaços de madeira e os corpos eram cobertos com argila. Mudanças climáticas e o aumento da umidade na região têm degradado as múmias.