Monitoramento da Covid nas escolas públicas tropeça no estado e na cidade de SP

*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 11.09.2020 - Mesas organizadas para distanciamento de estudantes em escola municipal na Vila Nova Curuçá, zona leste de São Paulo, em 2020. (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)
*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 11.09.2020 - Mesas organizadas para distanciamento de estudantes em escola municipal na Vila Nova Curuçá, zona leste de São Paulo, em 2020. (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais de dois anos após o início da pandemia e diante de uma nova onda de contágio de Covid, as secretarias de Educação do estado e da Prefeitura de São Paulo não conseguem monitorar em sua totalidade casos da doença entre alunos e funcionários.

Professores e pais de alunos das duas redes relatam apreensão com a falta de comunicação e clareza sobre o protocolo a ser seguido quando as escolas registram casos positivos. Também reclamam da falta de transparência das secretarias para informar quando há a confirmação de casos.

O aumento no número de ocorrências de Covid-19 nas últimas semanas tem levado escolas públicas municipais e estaduais a voltarem ao ensino a distância de forma total ou parcial. Mas a dimensão dessa medida é incerta.

Procurada pela reportagem, a SME (Secretaria Municipal de Educação), da gestão Ricardo Nunes (MDB), não informou o número de escolas com suspensão total ou parcial das aulas presenciais em razão de infecções pelo coronavírus.

Já a Seduc (Secretaria Estadual de Educação) respondeu que havia 16 escolas nesta terça-feira (7) com a interrupção total das aulas presenciais. A pasta da gestão Rodrigo Garcia (PSDB) não soube dizer, porém, se há outras que tiveram que suspender a atividade em apenas parte das turmas.

O governo do estado criou em dezembro de 2020 o Simed, sistema em que as escolas estaduais e particulares são obrigadas a registrar casos positivos. A secretaria, no entanto, criou uma série de regras para o preenchimento, o que tem levado a uma subnotificação de casos.

Em agosto do ano passado, quando as aulas presenciais foram retomadas, o governo deixou de contabilizar casos confirmados de Covid e passou a classificá-los apenas como "casos prováveis" de infecção.

Na segunda-feira (6), a reportagem consultou o Simed e havia o registro de apenas duas escolas com casos confirmados em todo o estado na semana epidemiológica de 29 de maio a 4 de junho. Depois de a Seduc ter sido questionada sobre a provável subnotificação, o sistema foi atualizado e passou a contar 209 escolas com casos confirmados no período.

Em nota, a secretaria disse que a diferença entre os dados se deve ao fato de a consulta da reportagem ao sistema ter ocorrido no momento em que houve uma "instabilidade pontual, que foi prontamente corrigida".

Há unidades que não têm nem sequer informado às famílias quando há a confirmação de alguma infecção. Outras têm optado por afastar apenas o aluno ou o funcionário doente, e há aquelas que adotam a suspensão das atividades presenciais de algumas turmas ou de toda a escola.

Levantamento feito pelos Creces (Conselho de Representantes de Conselhos de Escolas) identificou 42 unidades que tiveram de suspender as aulas presenciais em apenas duas diretorias de ensino da rede municipal de São Paulo.

Segundo o Crece Santo Amaro, na zona sul da capital, 31 escolas registraram casos entre alunos e professores e tiveram de voltar ao ensino remoto para ao menos algumas turmas. Segundo os pais, cada unidade tem seguido um protocolo. Na região da Capela do Socorro, também na zona sul, são 11 unidades.

Fernanda Machado, 37, é mãe de três alunos da Emef (escola municipal de ensino fundamental) Paulo Gonçalo dos Santos. Um professor da unidade teve resultado positivo para Covid, e as atividades presenciais foram suspensas em oito turmas.

Apenas uma filha, de 12 anos, teve que ficar em casa. Os outros dois meninos, de 10 e 14 anos, seguem indo para a escola. "Não faz sentido permitir que eles possam ir para a aula se tem contato com a irmã em casa. Se há risco de ela ter se contaminado, todos nós deveríamos ser orientados a nos isolar ou fazer teste. Mas não houve nenhuma orientação", conta Machado.

Já na escola do filho de Ailton Amorim, 43, a Emef José Rezende, também na zona sul, apesar de dois professores terem tido diagnóstico para Covid, os alunos não foram orientados a se isolar ou fazer teste antes de frequentar as atividades presenciais, ainda que tenham tido contato com os docentes.

"Se a criança teve contato com o professor, ela não deveria ser testada? Ou então ficar em casa até os pais terem certeza de que não vai contaminar outras crianças? Não há protocolo de segurança nenhum nas escolas", diz o pai.

Professor de geografia em escolas da rede municipal e estadual de São Paulo, Teotônio Nóbrega, 57, começou a ter sintomas de Covid em 24 de maio e se afastou das atividades presenciais das duas unidades. Depois de cinco dias, ele recebeu resultado positivo para Covid.

Na escola municipal, a decisão foi por suspender o modelo presencial das turmas em que ele tinha dado aula quando apresentou sintomas. Já na escola estadual, ele conta que os alunos não foram nem informados de que ele estava doente e continuaram a frequentar as aulas normalmente.

"Por semana, eu dou aula para cerca de 300 alunos. Não informar que eu estava doente significa que 300 jovens continuaram circulando por aí sem saber que tiveram contato com alguém infectado. É por isso que o número de casos escala tão rápido", disse o professor.

Pais e professores também relatam preocupação com o fato de as secretarias não voltarem a exigir o uso de máscara nas escolas, mesmo diante do aumento de casos.

Uma docente da rede municipal, que pediu para não ser identificada, disse que muitos estudantes ignoram os pedidos dos educadores para utilizarem a proteção e argumentam "não serem mais obrigados".

A epidemiologista Ana Brito, da Fiocruz, diz ser "incompreensível" que após mais de dois anos de pandemia as secretarias não tenham elaborado um sistema eficaz de monitoramento de casos de Covid nas escolas.

"Se estado e prefeitura consideram educação prioridade, como costumam dizer os gestores, já deveriam ter estruturado um sistema de comunicação, de monitoramento, rastreamento e testagem para garantir a segurança dos estudantes e professores. O que consequentemente evitaria a suspensão das aulas presenciais", diz.

"É quase como deixar o vírus circular livremente pelas escolas. Ainda mais nessa situação em que retiraram todas as medidas de segurança, como o uso de máscara e o distanciamento", afirma.

Além de não informar o número de escolas que suspenderam turmas, as secretarias também não responderam se estudam reforçar medidas de segurança para evitar aumento de contágio nas unidades. Ambas disseram apenas recomendar o uso de máscara nos ambientes escolares fechados.

Ainda que não tenha informado quantas escolas tiveram de suspender parcialmente atividades presenciais, a Seduc informou seguir "monitorando o funcionamento das unidades de ensino da rede estadual, sob sua administração, e seguindo as orientações das autoridades sanitárias em prevenção à Covid-19".

Segundo a pasta, o protocolo a ser seguido pelas escolas prevê que alunos ou professores com suspeita ou confirmação da doença devem permanecer em isolamento por sete dias. Se os sintomas persistirem, devem continuar isolados por dez dias.

Também diz apenas recomendar que as escolas estaduais notifiquem a Vigilância em Saúde do município em que se encontram quando registrarem mais de um caso.

A SME informou que as diretorias regionais de ensino acompanham as escolas e prestam todo o apoio pedagógico aos estudantes quando a unidade está com atividades remotas de forma parcial ou total. "Os protocolos são seguidos e os afastamentos são realizados de acordo com a especificidade de cada unidade."

A SMS (Secretaria Municipal da Saúde) informou que "eventuais surtos de síndrome gripal devem ser notificados na ocorrência de dois ou mais casos, entre suspeitos e confirmados".