Monotrilho para ligar estação da CPTM a terminais de Cumbica só deve ficar pronto em 2024

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***ARQUIVO***GUARULHOS, SP, 06.01.2020 - Movimentação de passageiros pela estação Aeroporto-Guarulhos, na Grande São Paulo. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
***ARQUIVO***GUARULHOS, SP, 06.01.2020 - Movimentação de passageiros pela estação Aeroporto-Guarulhos, na Grande São Paulo. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A ligação por trilhos entre a região central de São Paulo e o aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (na região metropolitana da capital), pode ficar pronta apenas em 2024. E isso se as promessas descumpridas tantas vezes desde o início do século realmente saírem do papel.

Quem precisa fazer o trajeto entre Cumbica e a estação da Luz (no centro de São Paulo) conta hoje com o expresso da linha 13-jade. O problema é que os terminais ficam distante da estação Aeroporto da CPTM, o que obriga os usuários a pegarem um dos ônibus gratuitos cedidos pela concessionária GRU Airport para fazer o deslocamento.

Essa baldeação acaba aumentando o tempo de viagem. Para ir da estação até o terminal 2, o mais movimentado, o ônibus leva quase 10 minutos. Além disso, a distância causa desconforto nos passageiros, obrigados a arrastar malas pelas escadas e se apinhar nos coletivos.

O médico boliviano Erwin Velez Sanchez, 27, já fez o trajeto ao menos meia-dúzia de vezes. Na última segunda-feira (23), chegou acompanhado de duas primas, com muita bagagem pesada, e passou pelo aperto até chegar ao trem. "Sempre viajo com muitas malas. O ônibus atrapalha um pouco. Uma ligação direta seria muito melhor", disse ele, que depois ainda faria integração na Luz para seguir até a Barra Funda (zona oeste).

No sentido contrário, o mesmo sufoco. O gargalo do ônibus foi o último teste imposto ao técnico automotivo Heber Freitas, 26. Ele estava na casa de amigos no Capão Redondo (na zona sul de São Paulo) e fez um verdadeiro tour pelo transporte coletivo da capital até chegar a Guarulhos --o trajeto na capital paulista levou praticamente as mesmas três horas do voo entre São Paulo e Recife que ele fez na sequência.

"Saí às 11h para chegar agora, quase às 14h. É bem cansativo, muito complicado. A gente precisaria de um trem que viesse direto, como é no Recife. O serviço precisa melhorar muito", afirmou. Na capital pernambucana, a linha sul do metrô tem uma estação a cerca de 500 metros do aeroporto dos Guararapes, com acesso por uma passarela.

Em Guarulhos, a melhora pode começar a sair do papel na virada do ano. Hoje, a bola está com o governo federal e com a concessionária GRU Airport, que é quem deverá tocar a obra e operar o sistema entre a linha 13-jade e os terminais de Cumbica, após uma decisão da Justiça.

Entre outros motivos, o trem não chegou até hoje ao aeroporto porque, assim que assumiu a concessão, a GRU Airport disse que construiria um hotel ou shopping em parte do terreno, o que inviabilizaria a estação dentro do aeroporto. Como compensação, disse que ofereceria um transporte alternativo entre a linha da CPTM e os terminais --os atuais ônibus gratuitos.

O Ministério da Infraestrutura estima que será possível assinar em setembro o contrato para a construção de uma espécie de monotrilho compacto que fará a conexão -- o "People Mover". A previsão é de que as obras comecem em janeiro de 2022 e durem 24 meses.

Uma conexão rápida entre o centro da capital e Cumbica é sonho antigo, que teve início em 2002, com um ainda jovem Geraldo Alckmin (PSDB) em sua estreia como governador. O problema parecia perto do fim com a inauguração da estação Aeroporto, em 2018, mas ela fica longe demais para quem pretende botar os pés fora do vagão e já acessar o check in --a distância até o terminal 3, por exemplo, é de 2,5 km. O mico era evidente.

Logo depois de tomar posse no Palácio dos Bandeirantes, o governador João Doria (PSDB) criticou o fato de o trem não chegar aos terminais. "Não faz sentido transporte público que não leva até o aeroporto. É tão bizarro que é difícil acreditar que isso tenha sido feito no estado de São Paulo", disse, em janeiro de 2019, com a promessa de buscar uma alternativa junto à concessionária GRU Airport e ao governo federal.

Com a intenção de se lançar à Presidência da República em 2022, Doria deixará o governo estadual sem resolver o problema.

Em julho, durante uma palestra na Associação Comercial de São Paulo, o secretário dos Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, chegou a dizer que as obras do People Mover de Cumbica começariam em 90 dias, o que, na ocasião, não foi confirmado nem pela GRU Airport e nem pelo Ministério da Infraestrutura.

Sem a ligação por trilhos e em meio à crise no turismo provocada pela Covid-19, a estação Aeroporto segue subutilizada. Antes da pandemia, em dezembro de 2019, 214 mil passageiros embarcaram na linha 13-jade por lá. Em julho deste ano, foram 170 mil.

Para quem usa o serviço hoje, a baldeação por ônibus não é o único problema. Passageiros citam também a comunicação confusa na estação da Luz como algo que pode ser melhorado. Quem desembarca pelas linhas 1-azul ou 4-amarela do metrô fica perdido em meio a dezenas de placas e pode gastar mais tempo até se achar, caso já não conheça o caminho.

Ao chegar à plataforma, ainda corre o risco de embarcar na linha 11-coral, rumo a Estudantes, em Mogi das Cruzes (na Grande São Paulo), caso não esteja atento. Isso acontece porque tanto o trem para a zona leste quanto o expresso para a estação Aeroporto circulam pela mesma via. A diferença é que o da linha 13-jade, rumo a Cumbica, parte mais à esquerda de quem olha para os trilhos. Improvisada, a plataforma não dá conta de todos os vagões (quatro ficam para "fora").

"Estranhamos a entrada, pensamos que teríamos que pagar outra passagem [para acessar a plataforma]", disse o engenheiro eletricista Paulo Ramon Oliveira, 28. "As informações não são claras", completou a analista de qualidade Stefany de Oliveira Silva, 26 --o casal se preparava para ir até o aeroporto para pegar um voo de volta para Natal.

No início da tarde desta segunda (23), a falta de energia na estação Aeroporto impediu o funcionamento das escadas rolantes e o ônibus que faz a ligação com os terminais saiu lotado, sem distanciamento entre os passageiros.

Apesar dos contratempos, as partidas do trem expresso ocorrem sempre às horas cheias (13h, 14h, 15h, por exemplo) e levam apenas 30 minutos no trecho entre as estações Luz e Aeroporto.

O Ministério da Infraestrutura afirma que o governo federal, por meio da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), prepara termo aditivo ao contrato de concessão. "Por esse instrumento, será incluída a obrigação de a concessionária construir e operar o People Mover (APM)", diz, em nota.

Segundo a pasta, será o primeiro investimento obrigatório previsto em contrato de concessão no setor aeroportuário por meio de aditivo contratual. "As obras devem durar 24 meses, e o APM entrará em operação assim que o serviço for concluído", afirma.

Segundo o ministério, as datas para assinatura de contratos e início das obras seguem em análise, bem como outros detalhes do ativo. "Estima-se por ora investimento na ordem de R$ 271,7 milhões --incorporados os efeitos tributários, seriam investidos R$ 376 milhões no APM", diz a nota.

Já a concessionária GRU Airport afirma que o projeto de conexão rápida entre a estação da CPTM e os terminais de passageiros aguarda aprovação formal por parte da Secretaria Nacional de Aviação Civil para a definição da empresa que implantará o sistema de transporte, bem como do seu cronograma.

Com relação à lotação dos ônibus, a GRU Airport afirma que, conforme orientação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), instalou sinalização de solo, nas poltronas dos ônibus da frota, alertas sonoros internos informando sobre as regras de distanciamento social para que os usuários utilizem o transporte de forma consciente e respeitem as recomendações para prevenção contra o coronavírus. "Os avisos destacam também que em caso de lotação o passageiro deve aguardar o próximo ônibus", afirma, em nota.

A concessionária também diz que estabeleceu junto à empresa terceirizada, responsável pela manutenção dos veículos, a higienização dos ônibus nos intervalos de cada viagem. "A concessionária esclarece que os veículos que realizam esse transporte circulam em horários alternados, a cada 10 minutos em horários de pico e a cada 15 minutos em horários de baixa frequência, conforme chegadas e partidas dos trens", afirma.

Sobre problemas apontados por passageiros na Luz, a CPTM afirma que "faz estudos para garantir a melhor sinalização sempre".

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