Montagem brasileira de 'Tom na Fazenda' conquista Festival de Avignon

Há fila de espera para assistir a “Tom na fazenda” no teatro Château de Saint-Chamand, do coletivo La Manufacture, em Avignon, na França. Toda noite, funcionários dão um jeito de acrescentar cerca de 20 cadeiras à plateia com capacidade para cem lugares — e ainda há quem aceite ficar sentado na escada. Parte da programação off do Festival de Avignon, o espetáculo dirigido pelo brasileiro Rodrigo Portella se tornou a principal sensação do maior evento dedicado às artes cênicas no mundo.

— Estou sonhando acordado — resume o ator Armando Babaioff, repetidas vezes.

Responsável pela produção e pela tradução da peça escrita pelo canadense Michel Marc Bouchard, e também parte do elenco da montagem — com Soraya Ravenle, Camila Nhary e Gustavo Rodrigues —, o pernambucano de 41 anos não se acostumou com as frequentes abordagens de desconhecidos nas ruas de Avignon, onde se apresenta até terça-feira.

Temporada em 2023

Destaque em meio à lista de 1.700 espetáculos no evento, “Tom na fazenda” coleciona críticas elogiosas nos maiores jornais locais e vem sendo alvo de disputa entre produtores. Até agora, estão confirmadas uma temporada de três semanas, em março de 2023, no Théâtre Paris-Villette, na capital francesa, e apresentações por pelo menos 17 centros culturais em países europeus. Uma agente francesa sugeriu que os atores separassem pelo menos três anos para uma turnê no Velho Continente, e eles já foram sondados para uma possível residência artística, para que um novo trabalho seja criado por lá.

— Todos tínhamos planos e, de repente, veio essa avalanche. Tudo pode acontecer agora. Não faço ideia de como divulgar uma peça na França... Nunca nem me apresentei no Teatro Carlos Gomes, no Rio! — brinca Babaioff. — O teatro que a gente está em cartaz, em Avignon, fica num bairro de maioria muçulmana, dentro de uma biblioteca pública, onde dividimos o palco com outras sete companhias. Somos os últimos a nos apresentar, e temos 20 minutos para montar tudo e verificar luzes, cenário... É uma gincana. Nunca pensei em fazer algo parecido. E, com toda humildade do mundo, nós viramos a estrela do festival. “Tom na fazenda” se tornou uma pérola.

A trajetória desta pequena joia laureada com o prêmio da crítica em Québec, no Canadá, representa, de fato, algo inédito em se tratando de uma produção teatral brasileira. Desde a primeira temporada — em 2017, no Oi Futuro, no Rio —, a peça arrebanha um público crescente. Autor da dramaturgia, Bouchard considera que a montagem tupiniquim é a encenação definitiva para o texto.

A despeito de todas as chancelas, “Tom na fazenda” não conquistou, de cinco anos para cá, apoios ou patrocínios. Foi Babaioff quem tirou do próprio bolso o dinheiro que tinha e não tinha para levar a montagem — e uma equipe de nove profissionais — para Avignon, a fim de realizar um desejo antigo. Hoje, ele sorri ao constatar que já não sabe bem para onde caminhará o projeto. Sua única certeza é a de que o teatro brasileiro precisa ser levado para outros continentes.

‘Faria tudo novamente’

Inspiração para o filme homônimo dirigido por Xavier Dolan (2013), “Tom na fazenda” acompanha um publicitário que, após a morte do companheiro, viaja para a fazenda da família do rapaz. No lugar inóspito, ele se dá conta de que tanto a sogra quanto o cunhado jamais souberam de sua existência, tampouco que o filho (ou irmão) era gay. As falas são traduzidas por meio de legendas, em inglês e francês, reproduzidas numa tela, e isso não é um problema. Pelo contrário. Proferida em bom português por quem nasceu e vive no país que mais mata pessoas LGBTQIAP+, a história ganha significados ainda mais contundentes.

— Entendo que o cinema, a música e as artes plásticas são mais fáceis de se levar para os outros lugares. Mas temos que lembrar que o teatro, no Brasil, não possui nenhum tipo de fomento... Viemos para a Europa jogando uma garrafa no meio do oceano, sem saber onde aquilo pararia. Estou dividindo as passagens aéreas em quatro prestações. Conversei com todas as pessoas possíveis, secretários, gente da prefeitura, e não consegui nada — lamenta Babaioff. — Mas olho para trás e sinto muito orgulho. Eu me emociono todos os dias, e morro a cada noite de espetáculo. Não sei como vou pagar meu aluguel no próximo mês. Mas faria tudo igual novamente.

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