Monumento ganha protetores de ouvido para lembrar combate à poluição sonora

Elaine Patricia Cruz - Repórter da Agência Brasil

O Monumento às Bandeiras, do escultor Victor Brecheret, instalado em frente ao Parque Ibirapuera, na capital paulista, recebeu hoje (26) uma intervenção artística para lembrar o Dia Internacional de Conscientização sobre o Ruído. Os bandeirantes da escultura de Brecheret ganharam protetores de ouvido amarelos para chamar a atenção sobre o tema.

A data é lembrada com ações em todo o mundo. Na capital paulista, durante toda a tarde, a Associação Brasileira para Qualidade Acústica (ProAcústica), a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo e a Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz (Umapaz) promoveram uma série de atividades na sede da universidade, no Ibirapuera. A ação começou com uma reflexão sobre o silêncio com o representante da Comunidade Zen Budista monge Ryozan, seguida de outras palestras sobre o tema.

Em entrevista à Agência Brasil, monge Ryozan destacou que nem todos os ruídos são ruins. “É claro que existem limites de ruídos e ruídos que podem até matar e trazer problemas cardíacos ou destruir os tímpanos de uma pessoa. Mas dentro dessa faixa mais natural dos ruídos do nosso dia a dia, se há incômodo com relação a eles, é possível encontrar a compensação e a paz interior sabendo lidar com eles. Quando vamos em uma balada ou a um restaurante para conversar com uma pessoa, o ruído dentro de um restaurante é até muito infernal. Mas quando a conversa está boa, a gente fica só na conversa.”

Segundo o monge, as pessoas podem tentar reduzir o efeito desses ruídos por meio da meditação.

Depois das palestras, estudantes de faculdades de fonoaudiologia da cidade fizeram um ato pelo silêncio, caminhando, sob chuva, da sede da Umapaz até o Monumento às Bandeiras. O percurso foi feito em silêncio e os manifestantes seguravam cartazes e faixas em branco. Chegando ao local, eles deram as mãos em um abraço simbólico no monumento.

Além da intervenção no Monumento às Bandeiras, a Assembleia Legislativa de São Paulo também decidiu lembrar a data com iluminação de sua fachada com luzes amarelas, que vai durar até amanhã (27). A ação pretende incentivar a adoção de políticas públicas para enfrentar e combater as diversas formas de poluição sonora, por meio de medidas mitigatórias e compensatórias para as emissões de ruído.

Saúde e políticas públicas 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o ruído é a segunda causa de poluição ambiental no mundo, atrás apenas da poluição do ar. Em excesso, a exposição ao ruído pode ocasionar danos para a saúde auditiva das pessoas e também pode estar relacionada ao desenvolvimento de uma série de doenças cardiovasculares, distúrbios do sono, pressão alta, estresse, irritabilidade, ansiedade, agressividade e problemas de concentração e descanso.

“Nas grandes cidades é onde temos a maior concentração de pessoas, e a infraestrutura urbana acaba sendo um complicador porque, normalmente, ela não é pensada do ponto de vista do ruído. Ela é pensada da maneira mais simples de se transportar uma pessoa de um lugar a outro. E isso acaba causando alguns problemas como uma linha de trem que passa no meio de uma zona residencial. Ou um corredor de ônibus em frente a uma comunidade residencial, onde as pessoas têm dificuldade de dormir. Ou corredores em frente a escolas”, disse o arquiteto e urbanista Marcos Holtz, coordenador do Comitê Acústica Ambiental da Associação PróAcústica.

Segundo ele, esses conflitos e problemas provocados pela poluição sonora atingem diversos graus podendo causar “desde um leve desconforto e mau humor até doenças”. “Tudo depende da dose a que a pessoa está exposta podendo causar problemas de colesterol, vasculares e até infarto”, listou.

Esses problemas, segundo o especialista, podem ser evitados com políticas públicas. No ano passado, por exemplo, o então prefeito de São Paulo Fernando Haddad assinou a Lei 16.499, do Mapa de Ruído Urbano, que obriga a prefeitura a desenvolver e implantar uma ferramenta de diagnóstico para a melhor gestão dos impactos da poluição sonora na cidade. “São Paulo está em um momento preliminar. Foram quatro anos na Câmara Municipal para conseguir uma boa lei ser aprovada. Essa prefeitura atual tem o prazo de quatro anos para ter o primeiro mapa de ruído das operações urbanas da cidade”, explicou Holtz.

O mapa deverá incluir dados técnicos sobre número de veículos, qualidade do asfalto e velocidade dos veículos, entre outras informações. “Ele funciona como um diagnóstico, um raio-X. Você detecta onde estão as áreas prioritárias, onde a dose de poluição sonora é maior, e essas áreas terão prioridade de ação na redução de ruídos”, disse. Entre as medidas para reduzir os impactos provocados pelos ruídos em todo o mundo estão o incentivo ao uso de bicicletas, a redução de velocidades das vias, a opção por transporte fluvial e a troca de asfalto.