Morador do Alemão faz vaquinha para consertar carro com mais de 100 tiros; veja as imagens

Uma semana após a operação com 17 mortos no Complexo do Alemão, que gerou repercussão no Brasil e no mundo, moradores da favela enfrentam problemas como falta de energia elétrica. Em localidades como Grota, Fazendinha, Nova Brasília e Loteamento, dezenas de casas estão perfuradas por balas. Um morador da Alvorada teve o carro atingido por mais de uma centena de tiros durante o confronto entre policiais e bandidos e criou uma vaquinha virtual para consertar o veículo, que é usado para fazer entrega e transporte escolar.

O autônomo Luiz Antônio de Souza Fernandes, 51 anos, e a dona de casa Katia Cristina da Silva Fernandes, de 40 anos, que nascerem e cresceram na localidade conhecida como Alvorada, têm um outro problema. O carro, que eles acabaram de pagar há cinco meses, foi totalmente perfurado no tiroteio. O casal tem três filhos.

– Quando vim aqui, encontrei o meu ganha pão dessa forma, todo perfurado. Infelizmente, é o carro que usávamos para fazer trabalhos. Fazemos entregas e agora estamos nessa situação. (Estou) totalmente impotente. Como vou reaver isso? É uma sensação de impotência. A tristeza é forte – desabafou o homem ao jornal Voz das Comunidades.

Katia conta que há mais de dois anos não havia operações na região e, por isso, eles não se preocupavam na segurança do carro, que estava estacionado em um espaço alugado:

– Não temos estacionamento porque moramos em um beco. O carro ficava em um espaço alugado, porque trabalhamos com transporte de encomendas, entregas e ficava mais fácil sair de onde ele estava. Há mais de dois anos não tinha operação, não sabíamos o que era isso. Não imaginávamos que tendo tiroteio ali iriam furar o carro. (Naquele dia) Às 5h30 ouvimos muitos tiros, helicópteros. Até então, não tínhamos pensado no carro. Horas depois, às 9h30, recebi uma ligação de um amigo dizendo que o meu carro estava uma peneira.

Ela lembra que o casal enfrentou dificuldades para quitar as prestações do veículo:

– Temos o carro há quatro anos, e só há cinco meses acabamos de pagar. Teve a pandemia, renegociamos as dívidas, paguei tudo direitinho. A gente trabalhava com ele e agora o carro ficou destruído. Foram mais de 100 tiros. O reboque levou para o mecânico, e a gente não sabe se vai funcionar. Estão destruídos fiação, bateria, módulo, o reservatório de óleo. O mecânico disse que vai avaliar se pegou no motor. Mas ele já adiantou que vai sair muito caro o reparo. Não temos dinheiro para isso. Furaram todos os bancos, painel. Por isso, resolvemos fazer uma vaquinha para tentar fazer um reparo – conta.

O link para ajudar é https://www.vakinha.com.br/vaquinha/conserto-de-um-veiculo-de-trabalho. Outra forma de ajudar é fazendo doações por PIX em nome de Kelly Cristina Fernandes. A chave é o celular (21 98557-6889) e conta no Banco Itaú.

Moradora da localidade conhecida como Capão, a dona de casa Adriana Soares, de 42 anos, relata que há uma semana está sem luz e se queixa de “não há sinal da Light”. Ela conta que perdeu todos os alimentos que tinha na geladeira. Desempregada, ela conta que está sendo obrigada a ir comer na casa de uma irmã e de uma tia e que, “por conta do calor, a situação é insuportável”.

– Há uma semana estamos sem luz. A vida aqui está muito difícil. A luz veio e voltou, após o tiroteio, e não voltou mais. Estamos atordoados sem a energia. Eu tinha um quilo de feijão, que tinha cozinhado no dia anterior, e que estava congelado, tinha algumas misturas, tive que jogar tudo fora. Na crise que a gente vive e eu tendo que jogar fora. É um pecado. À noite, para dormir, está insuportável. Não tem nem sombra da Light aqui – conta a dona de casa que mora em uma casa com três filhos e uma neta de 8 anos.

Em nota, a Light disse que “o fornecimento de energia para a região da Alvorada já foi normalizada”. Ainda de acordo com a concessionária, “neste momento, técnicos estão atuando nas áreas da Fazendinha e do Loteamento para reparar cabo de energia atingido por projétil. A Light está em contato com lideranças da comunidade para identificar demais ocorrências e atuar nos casos que, eventualmente, ainda estejam com interrupção do serviço”. Por fim, a empresa informou que “só pode trabalhar quando há condição de segurança para os técnicos e, por isso, o tempo de restabelecimento para os clientes é impactado”.

Experiente em coberturas policiais, o fotografo Bruno Itan percorreu becos e vielas do Complexo do Alemão retratando o local depois da operação. Ele conta que encontrou um cenário de guerra. Em suas imagens, é possível ver casas e carros cheios de tiros.

– (Após a operação), eu andei o morro todo. Eu fotografava e ouvia o relato dos moradores. Muitos deles ficaram presos dentro de casa por horas. Eles escutavam tiros e mais tiros e rezavam para não morrer. Foi muito impactante ver a intensidade do confronto. Em 14 anos de profissão, eu já fotogravei várias operações. No entanto, essa foi muito impressionante. As casas da Grota, do Alvorada, da Nova Brasília, do Loteamento e da Fazendinha estavam completamente furadas – diz Itan.

O fotógrafo diz que, horas após a operação, ele e representantes de Assembleia Legislativa do Rio, Defensoria Pública do Rio e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) percorreram becos e vielas quando souberam da morte de uma moradora, a comerciante Solange Mendes, de 49 anos, que foi atingida na localidade da Caixa D'Água, a 100 metros da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Nova Brasília.

– Quando chegamos perto da casa dela, vimos sangue espalhado, o chinelo que ela usava e a marca do tiro. Foi tudo muito triste – relata.

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