Morador de rua é morto na região da Cracolândia; testemunha acusa PMs

Testemunha afirmou à Comissão dos Direitos Humanos da OAB que o tiro teria partido de policiais militares na região da Cracolândia. (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)
Testemunha afirmou à Comissão dos Direitos Humanos da OAB que o tiro teria partido de policiais militares na região da Cracolândia. (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

Um morador de rua de 32 anos foi morto na noite desta quinta-feira (12) na região da praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo, mais conhecida como Cracolândia. Imagens mostram uma linha de policiais do Batalhão de Choque guardando o corpo em uma calçada. O homem foi baleado após um tumulto ocorrido por volta das 20h30.

Uma testemunha afirmou a membros da comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) que o morador foi morto a tiros, disparados por policiais militares na esquina da avenida Rio Branco com a rua General Osório. O local fica a uma quadra da praça, que nesta quarta foi palco de uma megaoperação envolvendo policiais civis, militares e a Guarda Civil Metropolitana (GCM).

Segundo a testemunha, três policiais teriam se refugiado atrás de uma viatura e disparado contra o homem, que não foi identificado. O morador da região não explicou o que teria motivado os policiais aos disparos.

A SSP (Secretaria de Segurança Pública) afirmou em nota que o caso foi registrado como homicídio no 2º DP (Bom Retiro), e que diligências estão em andamento para esclarecer todas as circunstâncias do fato e identificar o autor do crime.

A advogada Juliana Valente, membro do núcleo de ações emergenciais da comissão de direitos humanos da OAB registrou posteriormente um boletim de ocorrência junto ao DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) repassando o relato da testemunha sobre o caso.

Ainda ontem imagens de outros moradores da região mostram uma grande aglomeração de moradores de rua na avenida Duque de Caxias, próximo à estação Júlio Prestes. Há quase dois meses a concentração de dependentes, moradores de rua e traficantes que compunham o “fluxo” da Cracolândia abandonou a região da Júlio Prestes para se instalar na praça Princesa Isabel.

A mudança teria sido motivada pelo cerco aos traficantes e membros da organização criminosa PCC feito pela operação Caronte, da Polícia Civil. O fluxo se manteve na praça até a madrugada desta quarta, quando uma nova fase da operação deteve cinco pessoas e dispersou a aglomeração por vias do entorno.

Segundo outra testemunha da região, depois da operação a população se dividiu em em grupos: Segundo esta, um primeiro teria se deslocado para a praça Marechal Deodoro; um segundo, para as imediações do Memorial Resistência, sede do antigo Dops; e um terceiro, para a Favela do Moinho.

São Paulo, 12.mar.2022 - Funcionários da prefeitura trabalham na praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo, vazia após a megaoperação policial que retirou os dependentes e moradores de rua do local e resultou na detenção de seis pessoas
São Paulo, 12.mar.2022 - Funcionários da prefeitura trabalham na praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo, vazia após a megaoperação policial que retirou os dependentes e moradores de rua do local e resultou na detenção de seis pessoas

Para os policiais, é do bairro instalado sob o viaduto da avenida Rudge que provém grande parte do fornecimento de crack e outras drogas que abastecem a Cracolândia. Uma confusão se formou no entorno da Júlio Prestes na noite de quinta-feira pouco antes da morte do morador.

Praça vazia

A sexta fase da operação Caronte, realizada na madrugada de quarta-feira e concentrada na praça Princesa Isabel, que abrigava a feira livre de drogas, bebidas e artigos diversos desde o dia 18 de março, resultou na prisão de seis homens pelos crimes de tráfico de drogas, organização criminosa e associação para o tráfico. Dois deles já eram procurados, com ordem de prisão temporária decretada contra eles.

Outros três foram presos em flagrante por tráfico de drogas. A polícia afirmou que alguns eram reincidentes, mas não soube precisar quais crimes teriam cometido antes. Entre os detidos procurados está um homem apelidado de Filé com fritas. O rapaz, de 22 anos, tem ao menos uma passagem por violência doméstica, segundo a Polícia Civil. Ele liderava o tráfico de drogas na região, segundo o delegado seccional Roberto Monteiro, que celebrou a prisão dele.

Durante a incursão, 20 pessoas chegaram a ser conduzidas para a delegacia, mas 15 delas foram liberadas após averiguação. Depois, um homem que era foragido da Justiça também foi preso na ação.

A dispersão fez com que o fluxo se tornasse itinerante por vias do centro de São Paulo. Guardas-civis circulam pelo centro de carro e, assim que encontram uma concentração de usuários, ordenam sua retirada. Em seguida, equipes da zeladoria aparecem para tirar o lixo. Essa dinâmica se prolongou por toda a manhã.

29.abr.2022 - Usuários de crack, moradores de rua e outros frequentadores se reunem na praça Princesa Isabel, no centro histórico de São Paulo, novo “endereço” da Cracolandia desde 18 de Março, quando a aglomeração sem ordem oficial abandonou o quadrilátero das ruas Dino Bueno, Cleveland, Helvetia e Nothmann, a 400m dali. Enquanto moradores dos novos conjuntos residenciais inaugurados na região durante a pandemia comemoram a mudança, comerciantes e moradores da Princesa Isabel têm medo da nova vizinhança e relatam prejuízos. A mudança teria sido provocada pela pressão da Operação Caronte, da Polícia Civil, sobre a organização criminosa que age no local arrendando espaço para barracas e pratos onde são vendidos a droga e outros produtos como a bebida alcoólica caseira feita com etanol e batizada de ‘corote’ por conta da garrafa similar ao industrializado famoso
29.abr.2022 - Usuários de crack, moradores de rua e outros frequentadores se reunem na praça Princesa Isabel, no centro histórico de São Paulo, novo “endereço” da Cracolandia desde 18 de Março, quando a aglomeração sem ordem oficial abandonou o quadrilátero das ruas Dino Bueno, Cleveland, Helvetia e Nothmann, a 400m dali. Enquanto moradores dos novos conjuntos residenciais inaugurados na região durante a pandemia comemoram a mudança, comerciantes e moradores da Princesa Isabel têm medo da nova vizinhança e relatam prejuízos. A mudança teria sido provocada pela pressão da Operação Caronte, da Polícia Civil, sobre a organização criminosa que age no local arrendando espaço para barracas e pratos onde são vendidos a droga e outros produtos como a bebida alcoólica caseira feita com etanol e batizada de ‘corote’ por conta da garrafa similar ao industrializado famoso

A GCM deve manter pelo menos cem agentes fixos na praça Princesa Isabel para evitar que a aglomeração de dependentes químicos volte, segundo o comandante-geral da corporação, Agapito Marques. Na segunda-feira o vereador Fábio Riva (PSDB) protocolou um pedido para que a praça seja convertida em parque. Com a mudança, o local de 16,6 mil metros quadrados poderá ser cercado por grades, como os outros parques da cidade, o que está em linha com o que diz a justificativa do projeto, que prevê o "disciplinamento de seu uso".

Reação de ativistas

A operação realizada para limpeza e retirada das pessoas da praça motivou a reação de ativistas defensores da política de redução de danos para o cuidado aos dependentes químicos. O coletivo Craco Resiste convocou uma manifestação para este domingo (15) “contra todas as agressões e violência que têm atingido a população em situação vulnerável da região da Luz”.

Segundo o grupo, enquanto as autoridades tentam manter o foco da atenção pública no suposto tráfico de drogas, os serviços de atendimento em saúde e assistência social foram fechados. “Nos últimos meses prefeitura e governo estadual têm promovido uma campanha de terror em mais uma tentativa de massacrar as pessoas pobres que vivem no centro da cidade (...) novamente, com o argumento do combate ao tráfico de drogas, pessoas que dormem nas calçadas têm sido espancadas e presas pelas polícias e Guarda Civil Metropolitana”.

O manifesto divulgado nesta quinta-feira (12) conclui afirmando que “grupos de pessoas que não tem onde morar são perseguidos dia e noite pela polícia e pela guarda, retomando uma repetição das ações fracassadas que tentaram ao longo dos últimos 30 anos acabar com a Cracolândia”.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos