Morador de rua em SP encara frio com cobertores finos e ameaças da GCM, diz pastoral

Moradores de rua dormem em frente à Catedral da Sé, no centro da capital. Foto: REUTERS/Amanda Perobelli.
Moradores de rua dormem em frente à Catedral da Sé, no centro da capital. Foto: REUTERS/Amanda Perobelli.
  • Capital paulista tem madrugadas mais geladas do ano

  • Moradores de rua usam abrigos criados para enfrente período de frio

  • GCM faz vigilância ostensiva desde ação na Cracolândia

A madrugada desta quinta-feira (19) na capital paulista foi, assim como na noite anterior, extremamente gelada. Pessoas em situação de rua precisaram buscar abrigos e doações para sobreviver às baixas temperaturas.

O portal G1 apurou que, mesmo assim, muitas pessoas se queixaram que os cobertores disponibilizados pela prefeitura eram finos e não protegiam do frio intenso. O Brasil enfrenta uma passagem de ar polar que faz com que os termômetros registrem temperaturas abaixo de 10ºC.

Além disso, muitos são ameaçados por agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Desde a operação policial para retirar pessoas da Praça Princesa Isabel, no centro da cidade, os guardas têm tratado todos como dependentes químicos e impedido que famílias fiquem juntas, segundo relatos.

A questão dos cobertores foi levantada por pessoas que dormiam na praça da Catedral da Sé e na estão de Metrô Pedro II, onde um abrigo temporário foi montado. Além disso, as voluntárias que trabalhavam no local estavam preocupadas que o número de cobertores não fosse suficiente. Nesta madrugada, o abrigo para 74 pessoas recebeu 60, de acordo com as voluntárias.

“Ontem tinha menos pessoas, hoje atendemos pelo menos umas 60. Algumas também foram para a Catedral da Sé, parece que lá tem espaço para mais colchões. Aqui acaba vindo muito pessoas que têm um emprego, passam a noite aqui e vão direto para o trabalho”, disse uma voluntária.

Segundo a Pastoral do Povo de Rua, há dificuldade em encontrar as famílias que viviam próximas à Catedral da Sé desde que a GCM realizou a ação para dispersar a Cracolândia.

Ação da GCM é preocupação para população de rua

Ana Maria da Silva, da Pastoral do Povo da Rua, foi ouvida pelo portal. Segundo ela, as pessoas em situação de rua têm se espalhado pelas ruas do centro de São Paulo. "A gente vê poucas barracas em pontos em que existiam muitas famílias, isso mostra que não só os dependentes químicos, mas toda a população de rua se espalhou, nós passamos horas durante a madrugada procurando por eles."

"O problema é que na Cracolândia não tinha só dependente químicos, tínhamos também inúmeras famílias morando na Praça Princesa Isabel, por exemplo, a nossa preocupação é saber para onde foram essas pessoas, o número da população de rua não diminuiu, muito pelo contrário, mas as pessoas não somem do nada. Antes nós sabíamos todos os pontos que eles ficavam, mas agora rodamos a noite inteira na van para servir sopa e entregar cobertores e enfrentamos dificuldades para encontrar essas pessoas", explica Ana Maria da Silva.

Ainda segundo ela, muitas pessoas denunciam que a GCM os tem impedido de dormir em praças da região. "Tem gente que chega aqui falando que é acordada [pelos agentes] e só mandam eles circularem."

Aumento da população de rua nos últimos anos

Entre 2009 e 2021, o número de pessoas em situação de rua aumentou 31% - foi de 24.344 para 31.884, segundo o Censo da População em Situação de Rua, encomendado pela Prefeitura de São Paulo e divulgado em janeiro. Junto, cresceu o número de moradias improvisadas: saltou 230%.

Com a pandemia de covid-19, mudou também o perfil das pessoas nas ruas da capital paulista. Antes, a maioria eram homens solteiros. Hoje, aumentou o número de famílias vivendo juntas na rua, grande parte despejadas de suas casas em meio à crise econômica. Segundo dados do censo, em 2019 eram 4.868 pessoas. Em 2021, chegou a 8.927 pessoas, quase o dobro.

De acordo com Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, mudou também a razão pela qual as pessoas acabam em situação de rua. Conforme ele explica para a reportagem do jornal O Globo, muitas pessoas saíam de suas casa por conta de conflitos familiares, abandono e uso excessivo de álcool e drogas. Agora, as pessoas são obrigadas a ficarem nas ruas após perderem emprego e renda. Ou seja, a moradia passou a ser a principal questão para o aumento da população de rua.

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