Moradora denuncia matança de gambás na Ilha da Gigoia

Madson Gama
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RIO — Uma moradora da Ilha da Gigoia que faz resgate voluntário de animais denuncia a matança por espancamento e envenenamento de gambás na região. Cristina Silveira, de 54 anos, conta que já fez mais de dez recuperações este ano e que, em muitas ações, há diversos espécimes envolvidos. Isso porque o bicho é um marsupial, cujos filhotes são criados numa bolsa do corpo da mãe. Ela reclama da falta de fiscalização das autoridades ambientais.

— Temos uma comunidade de gambás muito grande, eles fazem parte da fauna da ilha. Veio muita gente morar aqui, e as pessoas estão matando-os como se fossem ratos. Só semana passada mataram três. E uma das gambás, por exemplo, foi morta a pauladas e estava com sete filhotes na barriga. Seis sobreviveram, e a polícia ambiental veio buscar comigo. Recentemente, eu tive que abordar uma família porque dois meninos estavam jogando pedras em gambás e esperando-os caírem para dar pauladas — conta Cristina.

Morador da Ilha Primeira, o biólogo Marcello Mello atua no resgate e também chama a atenção para a vulnerabilidade dos gambás na região:

— Já fiz cerca de cinquenta resgates este ano. Na Ilha da Gigoia, onde a situação é pior, foram uns 30 e na Ilha Primeira, uns 20. Eu faço um trabalho de conscientização sobre a importância dos gambás. Espalho cartazes explicando que ele é um animal silvestre, parente do canguru, que ajuda, inclusive, no controle de animais peçonhentos, como cobras e ratos.

Além da supressão de habitat natural por edificações irregulares, eles atribuem a mortandade principalmente à crueldade e à falta de conhecimento das pessoas sobre a importância do animal para o equilíbrio ecológico.

— Estão surgindo várias construções de forma indiscriminada, e assim os gambás perdem terreno e procuram abrigo, muitas vezes, em telhados de residências. Devido à falta de educação e à maldade, muitas pessoas espalham veneno, ou os amarram e espancam, chegando a quebrar a coluna dos bichinhos. É importante dizer que o gambá não faz mal nenhum, não ataca, a menos que ele se sinta ameaçado. E ele faz uma limpeza no nosso ambiente, alimentando-se de vários seres perniciosos, como baratas, aranhas, carrapatos e escorpiões — explica Cristina.

A veterinária Daniele Pescantini Castanho explica que, no fim do ano, os gambás estão em época de reprodução e que é comum as fêmeas se aproximarem das casas em busca de um lugar supostamente mais seguro para parirem:

— Os gambás vivem muito pouco, em torno de três anos. Então, se as pessoas os matarem, eles vão acabar em extinção e, no fim, quem vai sofrer somos nós, justamente porque eles ajudam no controle das pragas urbanas. Se aparecer um gambá em casa, basta tentar espantá-lo, sem machucá-lo. Com uma luva, pode-se pegá-lo pela nuca e fazer a soltura num lugar arborizado. Mas não bater.

Quando faz resgates, Cristina alimenta os gambás e chama a Patrulha Ambiental. Caso os agentes demorem a chegar, ela leva os animais até o Centro de Recuperação de Animais Silvestres (Cras), no campus da Universidade Estácio de Sá em Vargem Pequena. Tudo com muito carinho:

— A gente nomeia todos eles. Teve um que chamamos de Jackie Tequila, inspirados por uma música do Skank, pelo jeito que ele se movia, uma fêmea que batizamos de Luna, porque a recebemos em uma noite de lua cheia, e outra que era Frida Khalo, porque danificaram sua coluna, mas ela foi uma guerreira até morrer — conta.

A Patrulha Ambiental aconselha que não se tente tocar ou afugentar o animal, apenas se telefone para a central 1746, a fim de acionar seus agentes, que farão o resgate. Já o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) esclarece que a matança de animais silvestres configura crime ambiental e que, por isso, o Comando de Polícia Ambiental (CPAm) deve ser acionada por quem presenciar atos de violência.

O órgão ambiental estadual afirma que, por meio de ações de educação ambiental, busca informar e orientar a população sobre a importância da preservação de animais silvestres, já que eles exercem notável papel para o equilíbrio da natureza. Explica que os gambás, por exemplo, são aliados no controle populacional de insetos e roedores, evitando o surgimento de grandes pragas urbanas. E que também atuam como dispersores de sementes, por se alimentarem dos frutos de diferentes espécies de plantas. Sobre a reclamação de construções irregulares, a Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade e o Inea informam que realizam regularmente, e com apoio do Comando de Polícia Ambiental (CPAm), ações de fiscalização para combater ilegalidades no uso do solo na Ilha da Gigoia.

Os orgãos destacam que, nos últimos três meses, foram deflagradas quatro operações na região, que resultaram no embargo de dois prédios em construção, sendo um de três andares, e outro de quatro; na prisão de uma pessoa por porte ilegal de arma de fogo, suspeita de integrar uma organização criminosa apontada como responsável pela exploração imobiliária na ilha; e na aplicação de multa ao responsável por uma construção irregular que era utilizada para garageamento de embarcações em área protegida.